O SORRISO DO HIPOPÓTAMO

Uma história de Filipe Marandi, um detective privado.

Quando demoliram o edifício onde tinha instalado o meu escritório, pensei seriamente em abandonar esta dura profissão e dedicar-me à pintura de automóveis. Estava excessivamente habituado ao desconforto daquelas águas-furtadas na Rua Príncipe de Mónaco, e alimentava fundadas dúvidas sobre a dificuldade em encontrar um senhorio disposto a receber a renda ocasionalmente. O prédio, de dois andares, já era demasiado velho e carcomido, mártir da humidade descaroável do clima e, por isso, compreendi a firme decisão do piedoso dono em poupá-lo à lenta agonia contra o caruncho.

Aceitei a miserável indemnização, e um simbólico abraço, mas nunca perdoarei o destino por me haver retirado para sempre os fins de tarde à exígua janela, contemplando as águas instáveis da baía, e as manhãs cinzentas e ressacadas do Inverno, que dedicava a espetar setas num alvo improvisado: desenhara-o sobre um cartaz da campanha eleitoral de 1985, estampado com a imagem de Cavaco Silva, mas o tempo foi esbatendo a cor e já só se distinguia um rosto incomodado pelo fumo, e picotado pelo ataque diário das minhas setas venenosas.

No passado dia 2 de Janeiro, aluguei um andar, na Rua do Galo, onde instalei o novo escritório. Eram 11:23 da última segunda-feira, quando recebi um e-mail:

Tenho 31 anos, e trabalho na função pública como assistente técnico. Procuro-o porque tenho vivido atormentado. A minha chefe, uma senhora de quase sessenta anos, a quem Deus confiou a tarefa de mostrar ao mundo o avesso da beleza plástica, decidiu assediar-me com as propostas mais indecentes que possa imaginar. O problema é que não posso perder este emprego, mas também serei incapaz de me sujeitar às sevícias sexuais da criatura. A minha namorada já começa a desconfiar, porque estou sempre distante e, com frequência, sofro de suores frios e violentos ataques de tremuras no corpo. A noite passada sonhei que ela era um aspirador gigante que corria insistentemente atrás de mim. Acordei a meio da sucção, berrando pela minha mãe. Por favor, livre-me do bicho. Flávio

Acrescentou a morado do serviço, o modo e garantia de pagamento da minha missão, e o número do seu telemóvel.

Já tinha resolvido três ou quatro casos de assédio sexual masculino, sem dificuldade, porque me limitei a fazer uso do metro e oitenta e sete e dos meus noventa e dois quilos. Esborrachei os narizes dos respectivos cavalheiros, e, num deles, utilizei o joelho para fazer inchar temporariamente o órgão desinquieto. Desta vez, a abordagem teria de ser necessariamente diferente. Acendi um Santa Justa e, com as pernas cruzadas sobre a secretária, fiquei um longo tempo a conjecturar a melhor maneira de abordar o assunto. Ao fim de duas horas, decidi-me: ajustei a minha Magnum à axila direita, e saí, rumo aos serviços do meu cliente.

Cheguei à respectiva repartição eram 14:07, e não foi difícil identificar o assustado rapaz, uma vez que era o único homem a trabalhar naquela dependência. Fiz-lhe um sinal discreto e ele dirigiu-se ao balcão, pálido e trémulo das mãos. Confirmou-me o seu nome, esclareceu-me mais uns pormenores, e disse-me: «O gabinete dela é atrás daquela porta. É lá que costuma assediar-me. Peço-lhe, por tudo, que me alivie deste tormento», trinou, com o olhar esbugalhado. Expliquei-lhe a minha estratégia, e ele foi pedir a audiência e pegar os impressos combinados, enquanto eu apreciava o estado degradado das instalações.

Voltou com os papéis que lhe pedi, e encaminhou-me ao gabinete da chefe. Foi um choque. O rapaz, na sua dorida descrição, tinha pecado por defeito: o monstro era pior do que eu imaginara. Quando me viu, levantou-se duma enorme cadeira giratória e abriu um sorriso tão escancarado que me pareceu um hipopótamo. Retirou da cara uns óculos de massa e lentes grossas, e disse-me num tom de voz semelhante ao ruído duma britadeira:

– Faça o favor de se sentar. O Flávio explicou-me o que pretende, mas eu não trato desses assuntos aqui no meu gabinete. Se o senhor…

– Marandi! Filipe Marandi.

– Se o senhor Marandi estiver disponível para aparecer em minha casa esta noite, terei todo o gosto em resolver-lhe o assunto. Aqui está o meu cartão, aguardo-o por volta das onze horas.

Voltou a mostrar a dentadura de animal de grande porte, acenou-me com a manápula papuda, e eu pirei-me o mais depressa que pude, com a boca seca e os olhos arregalados de pavor.

Até às 22:27, refugiei-me no escritório a atirar setas a um novo alvo, desenhado agora sobre uma fotografia ampliada de Donald Trump.

Às 23:04 bati à porta do mamute. Atendeu-me de roupão turco de cor grená e umas chinelas que pareciam velhas fragatas da marinha depois de recicladas. Indicou-me o sofá, serviu dois vodkas, e sentámo-nos a um palmo de distância.

– Os papéis? — perguntou.

Estendi-lhe os impressos e ela assinou-os, sem ler. Depois, pousou-os sobre a mesa, rodou o seu volumoso corpo na minha direcção, e ficou a mirar-me, com a cabeça levemente inclinada para a frente. Foi quando reparei, por cima do batom escarlate, num fértil bigode que faria inveja a muitos velhos guardas-republicanos. Nesse exacto momento, moveu-se para me abraçar, e só dei conta do perigo quando senti que os seus braços exerciam sobre mim o esforço simultâneo e intolerável dos dois cabeçotes de um torno mecânico. Repentinamente, puxou-me para junto de si até ficar com a cara a dois dedos da minha. Abriu a bocarra e sussurrou: «Beija-me!» Junto com o murmúrio, soprou um hálito intenso, muito próximo do amoníaco, que me provocou um rápido e inevitável desmaio.

Acordei nu, estendido sobre a alcatifa, besuntado de batom e mel misturado com migalhas de bolachas, passava das quatro da manhã. Ela, igualmente nua, ressonava no sofá. Vesti-me em silêncio, bebi de um só gole duas doses de vodka puro, e deixei-lhe um bilhete: Inconsolável Hipopótamo, se tornas a incomodar o Flávio, faço uso destes papéis para te pôr na cadeia; ou, então, eu mesmo me encarrego de transformar esses obesos cem quilos numa bóia de sinalização de alto mar. Adeus, vou lavar-me com lixívia!

in VOZES DA MINHA PELA CRUA, 2016

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