Pixabay.

Quando eu te olho, eu te vejo?

Ouço o silêncio que vem de dele enquanto vagarosamente caminha sem saber que estás a ser observado.

Ele anda lentamente, passo certo, cabeça baixa, o rumo é certo, ou incerto? Já sentiu uma vontade absurda de sair por ai sem rumo? Ele ia assim, no meio da rua, assim, sei lá, displicente.

Vinha em minha direção. Observei sua roupa simples: uma calça de tecido fino, social, (acho que é alfaiataria que fala, né?) azul escura, camisa por dentro da calça, camisa cor clara, cinto, e chinelo de dedo. Na pele trazia ainda a cor preta, reluzente, que contrastava com a camisa, e dava a ele um ar sério, sisudo, mesmo em trajes simples, desgastados.

Acho que ele , naquele momento, pensava em nada, só mudava os pés de lugar, um após o outro.

Passou pertinho do carro, que era de onde eu o observava sem ser observada. Rosto fino, ahh, ele todo era magrinho, cabelos já ficando cinza, cortados curtinhos, a pele já mostrava alguns anos passados do que dizem ser a melhor idade, e parecia cansado. Acho que já trabalhou muito na vida. Não deu para ver calos nas mãos, mas deu para ver cansaço nos olhos. Você não sabe o que são olhos cansados? São aqueles olhos que mostram um certo desalento, que transmitem luz ofuscada pelas dores da vida. Sabe, eu acho que pessoas que já trabalharam muito na vida refletem as dificuldades em suas retinas. Eu acho, você não acha?

Suspirou fundo, eu senti, e seguiu. O acompanho pelo retrovisor. Os passos são lentos, mas é um lento pela falta de pressa mesmo, é como se o seguir não tivesse urgência.

Fiquei a imaginar como será que eu sou aos olhos de quem de dentro de um carro, de uma loja, de uma janela, me vê passar. Como será que veem a mulher que tem em mim, como será que a traduzem? Que sonhos afirmam que sonho? Que tipo de felicidade, ou infelicidade, julgam que essa aqui possui?

Ele está quase sumindo do meu campo de visão. O observo com carinho, sabe aquele carinho de filha para com um pai? Não queria que ele sumisse, ele estava fazendo parte do meu mundo naquele momento e seria egoísmo da parte dele me tirar de sua presença. Ahh, mas ele se foi.

Um nome? Não sei , me parece um Seu João, ou um seu Zé, é, tinha jeito de Seu Zé. O Seu Zé se roubou de mim, se levou para outros olhares. Entendi que olhando o Seu Zé consigo questionar sobre nós humanos, sobre nossa condição humana.

Às vezes, lutamos para sermos quem somos porque queremos que o outro nos veja como pessoas especiais. Como saber o olhar que imprimimos nos olhos dos outros? Que imagem os Seus Zés, as Donas Marias da vida fazem do que fizemos de nossa busca por construções de um Eu?

Ahhh, ao Seu Zé meu Adeus.