A política da Realidade — Parte I (Prefácio e Introdução)

Luta_ta
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Sep 5, 2018 · 9 min read

Livro escrito por Marilyn Frye e publicado em 1983

Prefácio

Os principais temas dos três primeiros ensaios dessa coleção tomaram forma no início de 1974, quando comecei a lecionar Feminismo em uma turma de Filosofia. Eles têm sido centrais, desde então, para o curso que tenho ministrado, na Universidade Estadual de Michigan, chamado “Aspectos filosóficos do Feminismo”. Quero dedicar esta publicação de “Opressão” aos estudantes para quem a experiência da “lição de opressão”, no início daquele curso, foi uma espécie de Rito de Passagem.

Eu comecei a tomar notas com a finalidade de escrever um artigo sobre separatismo, provavelmente, já em 1970, mas a conexão entre uma política da separação (versus assimilação) e o tipo de delimitação que é intrínseca à definição de palavras e conceitos cresceu lentamente nos meus pensamentos. A intuição e construção daquela conexão foi uma parte significativa da síntese entre política e filosofia sem a qual eu teria que abandonar uma ou outra, como se fosse insignificante. Desde 1977 (ano no qual escrevi “Algumas reflexões sobre Separatismo e Poder”), eu tenho explorado e desvendando para mim mesma o que mulher é no sistema semântico falocrático de linguagem, de mito e de ritual e como isso ajuda a explicar e manter a subordinação política (assimilação) de mulheres. Como ficará óbvio para alguns leitores, esse trabalho foi muito influenciado pelo trabalho de outras mulheres, especialmente o de Grace Atkinson, de Mary Daly e de Andrea Dworkin.

Como escritora, iniciei no meio acadêmico, onde se prepara um ensaio e então o lê em voz alta diante de uma plateia. Fora da academia, pessoas às vezes ouvem discursos e às vezes se deparam com alguém lendo uma estória ou um poema em voz alta para uma plateia, mas a apresentação oral de ensaios não é familiar. Esses ensaios são escritos, no mínimo, tanto para os ouvidos como para os olhos, talvez até mais; espero que eles sejam lidos em voz alta dentro e fora do ambiente acadêmico.

Na maior parte dos casos, a plateia que imaginei enquanto escrevia era a da Sociedade para Mulheres na Filosofia, comumente a da Divisão do Centro Oeste. As mulheres dessa Sociedade são uma audiência maravilhosa: atentas e emotivas; críticas; esteticamente sensíveis, filosoficamente sofisticadas e politicamente conscientes; solidárias, zangadas, obstinadas, amorosas e lógicas. O que mais uma escritora poderia pedir?…

Publicação, amor e dinheiro, claro.

Em uma época na qual era justamente isto o que eu precisava, Catherine Nicholson e Harriet Desmoines forneceram a oportunidade perfeita para publicação em sua renomada revista, Sinister Wisdom, onde elas publicaram alegremente o que era feminista demais (para não dizer lésbico demais) para periódicos de filosofia e filosófico demais para periódicos feministas. Embora eu não tivesse publicado muito durante os anos que elas trabalharam como editoras, a existência da revista foi vital para mim, porque significava que qualquer coisa em que eu estivesse trabalhando poderia ser publicada. Estou em dívida com essas mulheres por me ouvirem falar.

Amor. Uma escritora poderia querer a colaboração inteligente e bem-informada, o encorajamento e o criticismo de uma amiga devotada e amante apaixonada. Eu tive isso. E eu me certificarei de que ela receberá tanto quanto doou.

Dinheiro. Eu conquistei uma boa renda às custas da tolerância de mulheres e homens que, em vários graus e em vários momentos, renderam-se à tentação de me imaginar completamente louca, até perigosa, e, ainda assim, não tentaram, ao menos não de maneira coordenada, me expulsar; o que me faz feliz. Algumas pessoas, na instituição na qual trabalho, têm sido gentis, colaborativas, generosas; algumas como eu, algumas apreciam meu trabalho. Conto tudo isso junto com minhas bênçãos.

Somado aos que já foram mencionados anteriormente, os trabalhos das seguintes mulheres influenciaram meu próprio trabalho notada e significativamente: Kathleen Barry, Michelle Cliff, Alix Dobkin, Susan Griffin, Sarah Hoagland, Susanne K. Langer, Kate Millet, Robin Morgan, Iris Murdoch, Catherine Nicholson, Adrienne Rich. Talvez seja ainda mais importante nomear algumas das mulheres determinadas que discutiram e argumentaram comigo a respeito de assuntos vitais ao meu trabalho, amável e exaustivamente. Primeiramente, Carolyn Shafer, com quem estive desde que estive com livros, cuja erudição, pensamento, arte e coragem originou as raízes de muitos dos meus trabalhos e cujo criticismo os expurgou de muitas falhas. Outras a quem sou grata por terem o espírito para conversas arriscadas que são necessárias àqueles que iriam até as últimas consequências: Sandra Bartky, Claudia Card, Michelle Cliff, Harriet Desmoines, Reatha Fowler, Alison Jaggar, Catherina Madsen, Nellie McKay, Pat Michalek, Catherine Nicholson, Sandra Siegel, Regi Teasley, Sarah Thomson, Barrie Thorne, Eileen VanTassel, e muitas mulheres inteligentes e obstinadas nas minhas aulas.

Esses ensaios são temporais e culturais. O que não deveria ser necessário dizer, mas é. O pensamento e a teoria feministas de mulheres brancas instruídas têm sido mais acessíveis na versão impressa, até agora, do que o de mulheres que não gozaram desses privilégios ou sofreram um conjunto distinto de limitações que vêm com eles; este trabalho é parte inegável desse corpo de escritos brancos e instruídos. Ele se sustenta nesses privilégios e dentro desses limites, assim como nos privilégios e dentro dos limites mais particulares à minha história pessoal e situação. Aos leitores que possam ser capazes de negligenciar a maneira como meu pensamento é limitado pela raça e pela classe: devo pedir que levem absolutamente a sério tanto o aviso quanto o convite implícito no meu lembrete ocasional de que existe uma vasta variedade de mulheres e de vidas de mulheres das quais sei apenas o suficiente para citar, mas a partir das quais não posso falar ou pelas quais não posso falar. Aos leitores que jamais seriam capazes de negligenciar essas limitações por causa do insulto ao que vocês sabem: eu não apenas convido o criticismo de vocês, mas também peço que usem sua própria criatividade e discernimento para aproveitar ao máximo os meus, para executar as traduções e modificações que farão desse trabalho o mais útil a vocês quanto possível.

Alguns já consideraram que os limites dos quais falo aqui são intrínsecos ao feminismo em si. Minha vida me diz que não é o caso. Eu migrei de um liberalismo meio cristão apolítico e imprudentemente inocente para uma sabedoria flexível de um tipo de política multilíngue da diversidade. É um fato da minha biografia que o progresso tenha se iniciado com, e quase somente devido a, meu envolvimento com o movimento das mulheres, e quando coragem ou honra falham, é a lógica do feminismo com o qual me comprometo que compele minha evolução continuada. Esse feminismo é, em sua concepção e intenção, uma política global; esse é um de seus maiores atrativos e promessas. Eu e muitas outras estamos crescendo dentro dessa política, dessa promessa. Crescimento é crescimento: algumas vezes existem coisas que podem ser feitas para acelerá-la e outras vezes só é necessário deixá-lo em paz. Nem sempre é óbvio o que é melhor; faz-se o que se pode.


Introdução

Este trabalho é um misto de filosofia e arte. É uma articulação parcial de uma visão de mundo, da forma e estrutura do mundo como esta filósofa o conhece, ele apresenta imagens e camafeus os quais, por meio de reflexões e associações, sugerem uma estória ou um retrato mais amplo de “como as coisas são”. O objetivo desse empreendimento não é encontrar e apresentar “fatos” (novos ou usados), mas gerar meios de conceber e interpretar que iluminem os significados de coisas que já são, de certa maneira, conhecidas e estimular a invenção de mais maneiras novas de pensar.

O que espero iluminar certamente não é “já conhecido” por todos. Finalmente, claro, é o que está dentro da minha linha de visão e o que eu preciso e quero compreender. O que eu considero já sabido será tomado como certo muito mais amplamente entre mulheres do que entre homens. Grande parte disso é dado da experiência feminina e muito disso eu aprendi com as estudiosas feministas e cientistas que fizeram de sua ocupação des-cobrir, documentar e apresentar “os fatos” a respeito de mulheres e as situações nas quais mulheres vivem.

Um dos grandes poderes do feminismo é que ele vai tão longe em tornar as experiências e as vidas das mulheres inteligíveis. Tentar compreender os sentimentos, as motivações, desejos, ambições, ações e reações sem tomar em conta as forças que mantêm a subordinação de mulheres a homens é como tentar explicar porque uma bola de gude para de rolar sem considerar o atrito. A “teoria feminista” tem a ver, em larga medida, com simplesmente identificar essas forças (ou uma gama delas ou tipos delas) e revelar a mecânica de sua aplicação em mulheres como um grupo (ou casta) e em mulheres individualmente. A medida do sucesso da teoria é simplesmente o quanto torna compreensível algo que, antes, era incompreensível.

Desenvolver uma teoria desse tipo é algo como ler a variação climática de uma paisagem desbotada. As observações não são utilizadas como dado, num sentido estrito da palavra, mas sim elas dão pistas. Alguns se guiarão mais por um senso estético do padrão ou tema do que por um método científico clássico. Dependendo do que a pessoa já descobriu, um único detalhe de uma anedota de uma experiência feminina pode ser uma pista tão fértil quanto o resultado de um estudo estatístico com mil mulheres obtido cuidadosamente e totalmente documentado, e literatura ou uma comédia da televisão pode refletir a forma e a velocidade dos “ventos dominantes” de maneira tão inteligível quanto a vida real.

Os resultados dessa teorização também são um pouco parecidos com gráficos de correntes, tendências e ciclos de ventos e tempestades, no sentido de que não há implicação que cada um dos indivíduos ou dos aspecto da paisagem sejam afetados exatamente da mesma maneira pelo mesmo vento. Uma árvore enverga mais que outra: uma pode ser mais flexível, outra pode estar mais protegida por outras árvores, outra pode ser mais velha, outra pode ter sido esbofeteada por vento e inundação. Similarmente, o vento cultural dominante que poderia refrescar a raiva de mulheres, transformando-a em depressão, ou congelá-la, transformando-a em auto-reprovação, não tem o mesmo efeito em todas as mulheres em todas as circunstâncias. Um “vento dominante” também não é absolutamente constante. As árvores próximas à minha casa inclinam-se para o Leste porque o vento dominante vem do Oeste. Mas eles não estão, a todo momento de todos os dias, recebendo precisamente essa força vinda dessa direção. Às vezes não há vento e às vezes há vento vindo do Sul. Se a proibição da raiva da mulher é uma espécie de verdade cultural, isso não implicaria que a força dessa interdição recai sempre e igualmente sobre todo indivíduo em toda situação.

Nenhuma de nós, em todas nossas particularidades, desdobra-se verdadeiramente como uma reprodução perfeita dos estereótipos de mulheres que são promovidos pelos vários segmentos de nossa cultura. Nenhuma de nós é o reflexo perfeito, mesmo das forças culturais que nós acolhemos e adotamos, sem falar daqueles aos quais resistimos deliberadamente. Nenhuma de nós obedece a todas as regras, mesmo que queiramos. Mas os estereótipos, as regras, as expectativas comuns a nós nos circunda a todas em uma barragem estável de imagens verbais e visuais em veículos de cultura populares, de elite, religiosos e alternativos. Praticamente todo indivíduo está imerso, maior parte do tempo, em um meio cultural que fornece imagens sexistas e misóginas do que nós somos e do que nós achamos que estamos fazendo. Nossa concepção não pode ser independente da cultura, embora possa ser crítica, resistente e rebelde. Por exemplo, na medida que uma mãe pode não maternar exatamente de acordo com a imagem comercial de mães, a cômica imagem religiosa de mães, imagens racistas de mães da raça dela, ela não é independente do poder dessas imagens, mas vive em tensão com elas. A prática dela é afetada por essa tensão.

Qualquer teórica seria tola em pensar que ela poderia contar para outra mulher exatamente como as particularidades da vida dela refletem, ou em que medida não refletem, os padrões que a teórica discerniu. Ainda assim, se é verdade que mulheres constituem algo como uma casta que atravessa divisões como raça e classe econômica, então ainda que as forças que subordinam mulheres sejam modificadas, defletidas e camufladas em várias formas pelos outros fatores em jogo na nossa situação, nós ainda devemos ser capazes de descrever essas forças de modo que nos ajude a compreender as experiências de mulheres que vivem em uma gama de situações diferentes. Mas, finalmente, essa iluminação não pode ser entregue completa e nitidamente por um indivíduo na história e situação de outrem, nem mesmo quando ambos são muito parecidos. Se uma pessoa teoriza algo são e correto, o suficiente para ser útil para outra, a outra ainda deve fazer uso de seu próprio conhecimento para transpor e interpretá-la, para adaptá-la aos detalhes de sua própria vida e circunstâncias, para torná-la sua.

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