Luta_ta
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Feb 2 · 31 min read

“A Política da Realidade” — Parte III

Sexismo

Sergundo artigo do livro “The Politics of The Reality”, de Marilyn Frye, publicado em 1983.


O primeiro projeto filosófico que eu empreendi como feminista foi o de tentar dizer cuidadosa e persuasivamente o que sexismo é e o que quer dizer uma pessoa, instituição ou ato ser sexista. Esse projeto me foi passado com considerável urgência porque, como muitas mulheres chegando a uma percepção feminista de si e do mundo, eu estava vendo o sexismo em todo lugar e tentando torná-lo perceptível a outros. Eu pontuava, reclamava e criticava, mas, frequentemente, meus amigos e colegas não viam que o que eu declarava como sexista era sexista ou, sequer questionável.

Como crítica e iniciadora do tópico, eu era a pessoa sobre quem recaía o fardo — era eu quem tinha que explicar e convencer. Lecionar filosofia já havia me ensinado que pessoas não podem ser persuadidas de coisas das quais não estão prontas para serem persuadidas; existem certos complexos de vontade e de experiências anteriores que irão, inevitavelmente, bloquear a persuasão, não importa o mérito do caso apresentado. Eu sabia que, mesmo que eu pudesse explicar plena e explicitamente o que eu queria dizer quando afirmava que determinada coisa era sexista, eu não seria capaz, necessariamente, de convencer vários outros da precisão dessa afirmação. O que me intrigou enormemente, contudo, foi que eu não podia explicar isso de qualquer maneira que me satisfizesse. É esse tipo de frustração moral e intelectual que, pelo menos no meu caso, sempre gera filosofia.

O que vem a seguir foi produto da minha primeira tentativa de afirmar nítida e explicitamente o que sexismo é:

O termo ‘sexista’ no seu núcleo e talvez na sua acepção mais fundamental é um termo que caracteriza qualquer coisa que crie, constitua, promova ou explore qualquer distinção irrelevante ou impertinente entre os sexos.(1)

Quando eu escrevi essa citação, estava pensando na miríade de instâncias nas quais pessoas dos dois sexos são tratadas diferentemente, ou comportam-se diferentemente, mas não havia nada nas reais diferenças entre homens e mulheres que justificasse ou explicasse as diferenças de tratamento ou comportamento. Eu estava pensando, por exemplo, no direcionamento de meninos, na escola, para aulas de Marcenaria e de meninas para Economia Doméstica, em que não há nada relacionado a meninos ou meninas em si que os conectem essencialmente com a distinção entre chaves-inglesas e batedores de ovos. Eu também estava pensando na discriminação de sexo no emprego — casos em que alguém aparentemente qualificado para o trabalho não é contratado porque é mulher. Quando tentei colocar essa definição de ‘sexista’ em uso, contudo, ela não resistiu ao teste.

Considere este caso: se uma companhia está contratando um supervisor que irá monitorar um grupo de trabalhadores homens que sempre trabalharam para supervisores homens, dificilmente pode-se negar que o sexo do candidato será relevante para sua possibilidade de realizar um trabalho bem-sucedido e de forma tranquila junto aos supervisionados (embora o argumento seja, com frequência, exagerado por aqueles buscando desculpas para não contratar mulheres). A relevância é algo inserido em um sistema. Os padrões de comportamento, atitude e hábitos nos quais um processo ocorre determina o que é relevante para o quê em matéria de descrever, predizer e avaliar. No caso em questão, a atitude do trabalhador e a cultura organizacional fazem diferença em como os trabalhadores interagem com o supervisor e, em particular, tornam o sexo do candidato um fator relevante na previsão de como as coisas irão funcionar. Então, se a companhia contrata um homem, em detrimento a uma mulher mais experiente e com mais conhecimento, podemos explicar nossa objeção à decisão afirmando que envolve a distinção baseada em sexo quando o sexo é irrelevante para o desempenho da função? Não: sexo é relevante aqui.

Então, o que quero dizer com ‘sexista’? Eu estava pensando que, no caso de um candidato a um cargo de supervisão, a capacidade reprodutiva do candidato não tem nada a ver com o conhecimento acerca do que precisa ser feito e com a capacidade de dar direcionamentos objetivos e corretos na hora certa. O que eu estava imaginando era a situação purificada de toda percepção e reação sexista. Só que, claro, se todo o contexto não fosse sexista, o sexo não seria um problema em tal situação de emprego, na verdade, ele provavelmente passaria completamente despercebido. É precisamente o fato de que o sexo do candidato é relevante que é um sintoma evidente do sexismo na situação.

Eu falhei, naquele primeiro ensaio, em compreender completamente que o local do sexismo é, primeiramente, no sistema ou no ambiente de trabalho, e não no ato em particular. Não é correto afirmar que o que está ocorrendo de errado, em casos de sexismo, é que distinções são feitas com base no sexo quando o sexo é irrelevante; o que está errado nos casos de sexismo é, em primeiro lugar, que o sexo seja relevante e, então, que a distinção feita com base no sexo reforce o padrão que o torna relevante.

Em um sistema cultural/econômico sexista, sexo é sempre relevante. Para entender o que sexismo é, então, precisamos nos afastar e observar o contexto mais amplo.

A identificação de sexo invade todos os momentos de nossas vidas e do discurso, não importa qual seja, supostamente, o foco primário ou tópico do momento. A marcação elaborada, sistemática, onipresente e redundante das distinções entre dois sexos de humanos e da maior parte dos animais é costumeiro e obrigatório. Não se pode ignorar isso jamais.

Exemplos e marcas de comportamento sexuado abundam. Um casal entra em um restaurante; o garçom ou recepcionista se dirige ao homem, e não à mulher. O médico se refere ao homem pelo sobrenome e pronome de tratamento (Sr. Baxter, Rev. Jones) e se refere à mulher pelo seu primeiro nome (Nancy, Glória). Você parabeniza seu amigo — abraço, tapinha nas costas, aperto de mão, beijo; uma das coisas que determinam o que fazer é o sexo do seu amigo. Em tudo o que se faz existem dois repertórios completos de comportamento, um para interações com mulheres e um para interações com homens. Cumprimentar, contar histórias, dar ordens e receber ordens, negociar, demonstrar deferência ou dominância, encorajar, desafiar, pedir informação: faz-se todas essas coisas de maneiras diferentes a depender se o outro é homem e mulher.

Que isso é assim já foi confirmado em pesquisas sociológicas e sociolinguísticas(2), mas também é facilmente confirmado pela experiência individual. Para descobrir as diferenças em como se cumprimenta uma mulher e como se cumprimenta um homem, por exemplo, apenas observe a si mesmo, prestando atenção aos seguintes aspectos: frequência e duração do contato visual, frequência e tipo de toque, tom e volume da voz, distância física mantida entre os corpos, como e se você sorri, uso de gírias ou de xingamentos, sua postura corporal ao cumprimentar(3). Que eu possuo dois repertórios para lidar com apresentações de pessoas foi vividamente confirmado a mim quando um estudante me apresentou a seu amigo, Pat, e eu não consegui distinguir qual era o sexo de Pat. Por um momento, eu congelei, completamente incapaz de agir. Senti-me inevitavelmente presa no meio de dois caminhos — o que eu tomaria caso Pat fosse mulher e o que eu tomaria caso Pat fosse homem. Claro que a paralisia não dura muito. A ingenuidade e boa vontade vêm para o resgate; pode-se inventar um modo de comportar-se de maneira a dizer “Como você está?” a um ser humano. O habitual, contudo, não é para todos os humanos: é de um modo para mulheres e de outro para homens.

Interligado a todo nosso comportamento está nosso falar — nosso comportamento linguístico. O pronome da terceira pessoa do singular marca o sexo de seu referente. O mesmo vale para uma grande variedade de substantivos que usamos para referir-nos a pessoas (cara, menino, moça, vendedor, etc. e todos os termos que secretamente indicam o sexo do referente, como piloto, enfermeira(4), etc), e a maioria de nomes próprios (Bob, Gwen, etc)(5). Na fala, marca-se constantemente o sexo daquele do qual se fala.

Não há como exagerar a frequência com a qual nosso comportamento marca o sexo daqueles com quem interagimos. O fenômeno é absolutamente penetrante e profundamente entranhado em todos os padrões de comportamento que são habituais, costumeiros, aceitáveis, toleráveis e inteligíveis. Pode-se inventar meios de comportar-se, em uma situação ou outra, que não sejam marcadores de sexo, que não variam conforme o sexo das pessoas envolvidas, mas caso se obtenha êxito em retirar todas as marcas de sexo de todo o comportamento, ele se tornaria tão estranho que iniciaria crises de incompreensão e objeções morais, religiosas ou estéticas extenuantes por parte de outras pessoas. Tudo o que se fizesse pareceria estranho — e não se trataria apenas de pequenos momentos. Somos uma espécie gregária. Nossa vida depende da nossa habilidade de interagir com outros em relações de trabalho, de troca e de simpatia. O que não se pode fazer sem que se pareça excessivamente estranho ou ininteligível, não se pode fazer sem severa perturbação dos padrões de interação dos quais a vida depende. Comportamentos marcadores de sexo não são opcionais; é tão obrigatório quanto é universal.

Intimamente relacionada à marcação de sexo habitual e compulsória está a necessidade constante e urgente de saber ou de ser capaz de deduzir o sexo de todas as pessoas com quem se estabelece a menor ou mais remoto contato ou interação. Se vamos marcar o sexo das pessoas em toda situação, então temos que saber o sexo delas. Eu precisava saber se “pat” havia nascido com um clitóris ou com um pênis antes de tomar o primeiro passo para que pudéssemos nos conhecer. Se estou escrevendo a resenha de um livro, o uso de pronomes pessoais para fazer referência ao autor cria a necessidade de saber se as células reprodutivas daquela pessoa são do tipo que produzem óvulos ou do tipo que produzem esperma. Eu não posso perguntar as horas sem, antes, saber ou presumir que sei o potencial papel do meu informante na reprodução. Nós estamos social e comunicativamente desamparados se não sabemos o sexo de todos com quem temos qualquer coisa a ver e, para membros de espécies como a nossa, esse desamparo pode ser um risco à vida. Nosso padrão de comportamentos habituais torna o conhecimento sobre o sexo de cada pessoa universalmente importante e primordial. Além disso, a importância e a urgência de possuir tal conhecimento é intensificado por outro tipo de fator que eu acho que maior parte das pessoas raramente notam por que elas, geralmente, sabem o sexo dos outros.

Em uma cultura na qual se é considerado pecador, doentio ou nojento (no mínimo) se não for heterossexual, é muito importante observar os sentimentos sexuais e o sexo daqueles que os inspiram. Como se permite a expressão sexual ou gratificação, ou mesmo meros sentimentos, com pessoas de um sexo, mas não de outro, o indivíduo precisa saber qual o sexo da outra pessoa antes de permitir que o coração bata ou que o sangue corra em prazer erótico por essa pessoa. Muito das nossas interações e comunicações cotidianas e aparentemente não sexuais envolvem elementos de mensagem sexual ou erótica que são rigidamente regulados por tabus sexuais, incluindo o tabu da homossexualidade. O ajuste ou desajuste dessas mensagens ao sexo do indivíduo em questão podem ter consequências maravilhosas ou desastrosas. O pensamento de que se pode entender erroneamente o sexo de outrem invoca nada menos que um pavor canônico da violação involuntária de um poderoso tabu.

A pressão em cada um de nós para inferir ou determinar o sexo de todos os outros tanto gera quanto é manifestada em uma grande pressão em cada um de nós para que informemos a todos o tempo inteiro de nosso sexo. Porque, se você tirar dos humanos a maior parte de suas amarras culturais, não é sempre tão fácil dizer, sem uma inspeção mais próxima, quais são fêmeas e quais são machos. As diferenças físicas tangíveis e visíveis entre os sexos não são particularmente agudas ou numerosas. Variações individuais nas dimensões físicas que consideramos associadas à feminilidade e masculinidade são grandes, e as diferenças entre os sexos poderiam facilmente ser obscurecidas por decoração corporal, remoção de pelos e coisas do tipo. Um dos choques quando uma pessoa confunde o sexo de alguém é a descoberta do quão facilmente se pode ser enganado. Nós não poderíamos garantir que conseguiríamos identificar as pessoas pelo sexo em virtualmente hora nenhuma ou lugar nenhum, em condição nenhuma se elas não se anunciassem, se elas não nos dissessem, de uma maneira ou de outra.

Na verdade, nós não anunciamos nossos sexos “de uma maneira ou outra”. Nós os anunciamos de milhares de jeitos. Nós nos vestimos da cabeça aos pés com trajes e decorações que servem como distintivos e broches para anunciar nossos sexos. Para cada tipo de ocasião há roupas distintas, equipamento e acessórios, penteados, cosméticos e aromas, etiquetados como “moças” ou “para homens” e etiquetando-nos como fêmeas ou machos, e na maior parte do tempo a maioria de nós escolhe, usa, veste e carrega a parafernália associada ao nosso sexo. Acontece embaixo da pele também. Há diferentes estilos de andar, de gestos, postura, fala, humor, gostos e até de percepção, interesse e atenção que nós aprendemos conforme crescemos para sermos mulheres ou para sermos homens e essa etiqueta nos anuncia como mulheres ou como homens. Começa cedo na vida: até crianças de colo são separadas por cor.

É tornado mais claro que nós vestimos e carregamos sinais dos nossos sexos, e que isto é compulsório, nos raros casos em que nós não o fazemos, ou não o fazemos o suficiente. Reações que vão de crítica à indignação à hostilidade encontram mães de crianças pequenas que não são imediatamente identificadas pelo sexo, e hippies costumavam ser assediados na rua (por pessoas normalmente reservadas e educadas) com criticismos e acusações quando suas roupas e estilo declaravam confusa e contraditoriamente seus sexos. Qualquer um em qualquer serviço de colocação de emprego e qualquer Manual de Sucesso lhe dirá que você não pode esperar conseguir ou manter nenhum emprego se sua roupa ou estilo pessoal é ambíguo no anúncio de seu sexo. Você não consegue uma entrevista de emprego vestindo os sapatos ou as meias do outro sexo.

O alarme neste último exemplo indica outra fonte de pressão para informar uns aos outros dos nossos sexos, isto é, novamente, a exigência de que se seja e se aparente ser heterossexual. Estranhamente, alguém se mostra heterossexual informando as pessoas de seu sexo bem enfaticamente e bem inequivocamente, e alguém faz isso amontoando em si comportamentos e, em seu corpo, mais e mais indicadores conclusivos de seu sexo. Para homossexuais e lésbicas que querem se passar por heterossexuais, são estes indicadores que fornecem a maior parte da camuflagem; para aqueles que desejam prevenir serem presumidos heterossexuais, o truque é deliberadamente cultivar indicadores sexuais ambíguos em roupas, comportamento e estilo. Em uma cultura em que homossexualidade e lesbiandade são violenta e universalmente proibidos e heterossexualidade é anunciada por meio do anúncio do sexo, sempre convém se anunciar o sexo.

A informação de qual o sexo de alguém é sempre desejada, e dá-la é sempre apropriado para os mais constantes e generalizados interesses deste alguém e dos outros — interesses em ser e continuar sendo viável na comunidade humana acessível.

A intensa demanda por marcar e reafirmar qual o sexo de cada pessoa soma-se à exigência exaustiva de que existam dois sexos distintos e agudamente dimórficos. Mas, na realidade, não existem. Existem pessoas que se encaixam em um espectro biológico entre os dois pólos não tão bem definidos assim. Em torno de 5 por cento dos partos, possivelmente mais, os bebês, em algum nível ou maneira, não são exemplares perfeitos de macho e fêmea. Há indivíduos com padrões de cromossomos diferentes de XX ou XY e indivíduos cujas genitálias externas exibem algum nível de ambiguidade no nascimento. Há pessoas que tem os cromossomos “normais” e que estão nos pontos extremos do espectro normal de características sexuais secundárias — altura, musculatura, pilosidade, densidade corporal, distribuição de gordura, tamanho do seio, etc — cujas aparências, no geral, se encaixam na norma das pessoas cujo sexo cromossomático é o oposto ao delas(6).

A despeito destas variações, pessoas (majoritariamente homens, claro) com o poder para fazê-lo, efetivamente constroem um mundo em que homens são homens e mulheres são mulheres e não existe nada no meio e nada ambíguo; eles o fazem quimicamente e/ou cirurgicamente alterando as pessoas cujos corpos são indeterminados ou ambíguos a respeito do sexo. Recém-nascidos com genitais “formados imperfeitamente” são imediatamente “corrigidos” por meios químicos ou cirúrgicos, a crianças e adolescentes são dadas “terapias” hormonais se seus corpos parecerem não estar se desenvolvendo de acordo com a norma daquele que foi declarado seu sexo individual. Pessoas com autoridade recomendam e fornecem cosméticos e regimes cosméticos, dietas, exercícios e todos os tipos de vestuário para corrigir ou disfarçar o buço peludo demais, o seio grande demais, os ombros estreitos demais, os pés muito grandes, a estatura alta demais ou baixa demais. Indivíduos cujos corpos não se encaixam na imagem de exatamente dois sexos precisamente dimórficos frequentemente estão dispostos a serem alterados ou disfarçados pela razão óbvia de que o mundo os pune severamente por sua falha em serem os “fatos” que verificariam a doutrina dos dois sexos. A demanda de que o mundo seja um mundo em que existam exatamente dois sexos é inexorável, e somos todos compelidos a responder a isso enfaticamente, incondicionalmente, repetidamente e inequivocamente.

Mesmo ser fisicamente “normal” para seu sexo atribuído não é suficiente. A pessoa deve ser fêmea ou macho, ativamente. De novo, os costumes e performances. Pressionado a agir feminina ou masculino, alguém conspira com doutores e conselheiros para a criação de um mundo em que o aparente dimorfismo dos sexos é tão extremo que alguém só pode pensar que há um enorme abismo entre feminino e masculino, que os dois são, essencialmente e fundamentalmente e naturalmente, totalmente diferentes. A pessoa ajuda a criar um mundo em que nos parece que nunca poderíamos confundir uma mulher por um homem ou um homem por uma mulher. Nós nunca precisamos nos preocupar.

Juntamente com todo o desenvolvimento, a marcação e o anúncio do sexo há um sentimento ou atitude forte e visceral diante do fato de que a distinção dos sexos é a coisa mais importante no mundo: que seria o fim do mundo se não fossem mantidos evidentes e afiados e rígidos; que um dualismo dos sexos, que está enraizado na natureza animal, é absolutamente crucial e fundamental para todos os aspectos da vida, da sociedade e da economia humanas. Onde o feminismo é percebido como um projeto de borrar essa distinção, a retórica antifeminista é vívida com o pavor de que o mundo irá acabar se as feministas conseguirem o que querem(7). A insistência de algumas feministas de que o objetivo do feminismo não é uma sociedade “unisex” é defensiva de tal maneira que sugere que elas também acreditam que a cultura ou a civilização não sobreviveriam ao apagamento das distinções. Eu acho que uma das fontes de prevalência e profundidade dessa convicção e desse pavor é nossa imersão nesses mesmos padrões comportamentais os quais venho discutindo.

É um princípio universal e óbvio de teoria da informação que, quando é muito, muito importante que uma informação seja passada, a estratégia adequada é a redundância. Se uma mensagem deve ser entregue, ela é enviada repetidamente e pelo máximo de meios ou plataformas que o indivíduo tem à sua disposição. Do outro lado, como receptor de uma informação, se alguém recebe a mesma informação repetidas vezes, enviada por todos os meios que se conhece, outra mensagem também chega implicitamente: a informação de que aquela mensagem é muito, muito importante. A enorme frequência com a qual informações sobre os sexos das pessoas são transmitidas emite implicitamente a mensagem de que esse tópico é de enorme importância. Suspeito que esse seja o tópico sobre o qual recebemos informações de outras pessoas com maior frequência ao longo de nossas vidas. Se eu estiver correta, partirei para a explicação do porquê de acabarmos com uma impressão quase irresistível, desarticulada, de que a questão do sexo das pessoas é o tópico mais importante e mais fundamental do mundo.

Nós trocamos informações de identificação do sexo, juntamente à mensagem implícita de que é muito importante em uma variedade de circunstâncias nas quais não existe, realmente, nenhum sentido concreto ou óbvio em ter essa informação. Existem razões, como essa discussão tem mostrado, pelas quais você poderia querer saber se a pessoa que está enchendo seu copo ou tratando seus dentes é homem ou mulher, ou para essa pessoa querer saber o que você é, mas essas razões são trançadas invisivelmente no tecido da estrutura social e elas não têm a ver com a pura mecânica das coisas a serem feitas. Ademais, a mesma cultura que nos leva a essa constante troca de informações simultaneamente aplica uma forte norma universal que requer que a manifestação física da distinção dos sexos mais simples e mais definitiva seja escondida em todas as circunstâncias, com exceção das mais privadas e íntimas. A mensagem dúbia da distinção dos sexos e sua importância preeminente é transmitida, na verdade, parcialmente por dispositivos que sistemática e deliberadamente cobrem e escondem da vista as poucas coisas físicas que distinguem (em boa medida) dois sexos de humanos. As mensagens são esmagadoramente desassociadas dos fatos concretos aos quais elas supostamente pertencem e das matrizes de razões e consequências concretas e sensoriais.

As mentes de crianças pequenas devem ser confundidas irremediavelmente por tudo isso. Sabemos nosso próprio sexo e aprendemos que se alguém é menino ou menina é uma questão primordial tão cedo que não nos lembramos de não saber — antes mesmo que diferenças físicas em nossos jovens corpos pudessem fazer mais do que diferenças práticas mais triviais. Uma amiga minha cuja aparência e estilo têm um pouquinho dessa diferença passou por uma mãe e uma criança e ouviu a criança perguntar à mãe “ela é um homem ou uma mulher?”. A luta para adivinhar alguma conexão entre o comportamento social e o sexo físico e a alta prioridade disso tudo parece dolorosamente óbvia aqui.

Se alguém é levado a pensar que algo é de suma importância, mas a experiência comum não a conecta com coisas de importância óbvia, concreta e prática, então há um mistério e, com isso, uma forte tendência para a construção de uma concepção mística ou metafísica de sua importância. Se é importante, mas não de uma importância mundana, deve ser de uma importância transcendental. Tanto mais se for muito importante(8).

Essa questão de nossos sexos deve ser, de fato, muito profunda se deve, sob a punição de vergonha e ostracismo, ser coberta e deve, sob pena de vergonha e ostracismo, ser audaciosamente anunciada por todos os meios e de todas as maneiras que se pode conceber.

Há mais um ponto sobre a redundância que vale a pena ser levantado aqui. Se há uma coisa mais eficiente para fazer com que se acredite em algo do que receber essa mensagem repetidamente, é ensaiá-la repetitivamente. Anunciantes, pastores, professores, todos nós em profissões de lavagem cerebral, utilizamos desse fato aparentemente físico da psicologia humana rotineiramente. A redundância da marcação de sexo e do anúncio de sexo não serve apenas para fazer o tópico ser transcendentalmente importante, mas para fazer a dualidade sexual que divulga parecer transcendental e inquestionavelmente verdadeira.

É um espetáculo, realmente, uma vez que se percebe isso, esses humanos tão devotados a vestirem-se, a agir adequadamente e “corrigindo” uns aos outros para que todos correspondam à teoria de que existem dois sexos nitidamente distintos e nunca os podem os dois se sobreporem, ou se confundirem ou se misturarem; esses hominídeos constantemente e com uma falta de embaraço notável marcam a diferença entre os sexos como se suas vidas dependessem disso. É maravilhoso que homossexuais e lésbicas sejam ridicularizados e julgados por interpretar papéis butch-femme e por se vestirem de butch-femme drag, já que ninguém sai em público completamente enfeitado como “butch” ou como drag “femme”, como respeitáveis heterossexuais, quando estão vestidos para sair à noite, ou para ir à igreja, ou ao escritório. Críticos heterossexuais à interpretação de papéis queer devem olhar a si mesmos no espelho a caminho de uma noitada para ver quem está em drag. A resposta é: todos estamos. Talvez a principal diferença entre heterossexuais e queers seja que, quando queers saem em drag, eles sabem que estão engajados em uma performance — eles estão interpretando e sabem disso. Heterossexuais, normalmente, estão levando tudo perfeitamente a sério, pensando que estão no mundo real, pensando que são o mundo real.

Claro, em determinado sentido, eles são o mundo real. Todo esse comportamento bizarro tem uma função na construção do mundo real.

A marcação de sexo e o anúncio do sexo são igualmente compulsórios para homens e mulheres, mas a igualdade só vai até aí nessa questão. O significado e a importância desses comportamentos são profundamente diferentes para homens e para mulheres.

Imagine…

Uma colônia de humanos estabeleceu uma civilização há séculos em um planeta distante. Ela evoluiu, como civilizações fazem. Sua língua é descendente do inglês.

A língua tem pronomes pessoais marcando a distinção entre crianças e adultos e os pronomes pessoais de adultos distinguem entre pelos pubianos lisos e enrolados. Na puberdade, cada pessoa assume diferentes estilos de roupas e de comportamentos para que se possa saber de que tipo ela ou ele é sem um escrutínio mais profundo, que seria considerado indecente. Pessoas com pelos pubianos lisos adotam um estilo mais modesto e discreto e roupas que são frágeis e confinantes; pessoas com pelos pubianos enrolados adotam um estilo mais expansivo e atraente e roupas que são mais robustas e confortáveis. Pessoas cujo pelo pubiano não é nitidamente liso ou enrolado alteram quimicamente seus pelos para que sejam nitidamente um ou outro. Já que aqueles com pelos enrolados têm maior status e vantagens econômicas, aqueles com pelos ambíguos são orientados a deixá-los lisos, pois a vida é mais simples para uma pessoa com baixo status cuja categoria possa ser duvidável do que para uma pessoa de status mais alto cuja categoria possa ser questionável.

É tabu comer ou beber no mesmo ambiente de pessoas com o mesmo tipo de pelos pubianos. Heterogurmetismo compulsório, como é denominado pelos críticos sociais, embora maior parte das pessoas achem que é apenas desejo humano natural querer comer com alguém de pelos pubianos opostos. Uma consequência lógica desse hábito, ou tabu, é a limitação de fazer as refeições apenas solitariamente ou em pares — um tabu contra banquetes ou, como a gíria diz, glutonismo grupal.

Qualquer característica que um homem possa ter que pese para sua desvantagem social ou econômica (idade, raça, classe, altura, etc.), uma que jamais pesará para sua desvantagem é sua masculinidade. O caso de mulheres é a imagem espelhada disso. Qualquer característica que uma mulher possa ter que pese para sua vantagem econômica e social (idade, raça, etc.), uma característica que sempre vai pesar para sua desvantagem é sua feminilidade. Dessa maneira, quando a categoria sexual masculina é a característica que está sendo enquadrada, enfatizada e destacada, é uma característica que, em geral, é um recurso para ele. Quando a categoria sexual feminina é a característica que é notada primeira e repetidamente, a característica que está sendo enquadrada, enfatizada e destacada, em geral, é uma deficiência. Manifestações dessa divergência no significado e nas consequências do anúncio do sexo podem ser muito concretas.

Andar pela rua à noite em uma cidade expõe a pessoa ao risco de assalto. Para homens, o risco é menor, para mulheres o risco é maior. Se alguém anuncia a si mesmo como homem, é presumido pelos assaltantes que ele tem mais chances de se defender ou de escapar do assalto e, se o anúncio de masculinidade é forte e sem ambiguidade, ele não é um candidato para violência sexual. Ambos, o homem e a mulher, “anunciam” seu sexo por meio do estilo de marcha, roupas, cabelo, etc., mas eles não são igual ou identicamente afetados por anunciarem seu sexo. O anúncio masculino pesa para sua proteção ou segurança e o anúncio feminino pesa para sua vitimização. Não poderia ser mais imediato ou concreto, o significado de identificação sexual não poderia ser mais distinto.

O repertório da marcação comportamental dos sexos é tal que no comportamento de quase todas as pessoas de ambos os sexos se dirigindo ou respondendo a homens (especialmente dentro de sua própria cultura ou raça) geralmente é feita de modo a sugerir respeito básico, enquanto que se dirigir ou responder a uma mulher é feito de modo que sugira a inferioridade feminina (tons condescendentes, presunção de ignorância, excesso de intimidade, agressão sexual, etc). Então, quando se aborda uma pessoa comum, sociável, em algumas culturas, se essa pessoa é homem, o próprio comportamento de anúncio de masculinidade evocará respostas benéficas e de apoio, se ela for mulher, seu próprio anúncio comportamental de feminilidade evocará respostas degradantes e prejudiciais.

Os detalhes dos comportamentos de anúncio sexual também contribuem para a diminuição de mulheres e elevação de homens. O caso é mais óbvio na questão da vestimenta. Como feministas vêm falando por mais ou menos duzentos anos, a roupa feminina é, em geral, restritiva, contensora, opressora e delicada; ela ameaça se desfazer e/ou revelar algo que deveria ficar coberto se você se abaixar, buscar, chutar, bater ou correr. Ela, tipicamente, não protege efetivamente contra acidentes no ambiente, nem permite que a usuária se proteja contra acidentes do ambiente humano. A vestimenta masculina, geralmente, é o oposto disso tudo — robusta, adequadamente protetora, permitindo a movimentação e locomoção. Os detalhes dos comportamentos e da postura femininos também servem para conter e restringir. Ser feminina é ocupar pouco espaço, é se subjugar a outros, ser silenciosa ou ratificadora de outros, etc. Não é necessário fazer um exame sobre isso tudo, já que já foi feito várias vezes e em detalhes em escritos feministas. Meu ponto aqui é que embora homens e mulheres devam comportar-se de modo a anunciar seu sexo, o comportamento que anuncia feminilidade é, em si, física e socialmente opressor e limitador, enquanto o comportamento que anuncia masculinidade não é.

As variações relacionadas ao sexo em nosso comportamento tende a beneficiar sistematicamente os homens em detrimento das mulheres. O homem, anunciando seu sexo por meio de comportamentos e roupas, está anunciando e agindo quanto à sua pertença a uma casta dominante — dominante dentro de sua própria subcultura e, em larga medida, entre subculturas. A mulher, anunciando seu sexo, está anunciando e agindo quanto à sua pertença à casta subordinada. Ela é obrigada a informar outros constantemente e em todo tipo de situação que ela deve ser tratada como inferior, sem autoridade, violentável. Ela não pode se mover ou falar sem engajar em autodepreciação. O homem não pode se mover ou falar sem engajar em auto-engrandecimento. A constante identificação sexual define e mantém o limite das castas sem a qual não haveria a estrutura de dominância-subordinação.

As forças que nos fazem marcar e anunciar os sexos estão entre as forças que constituem a opressão de mulheres e são centrais e essenciais para a manutenção desse sistema.

Opressão é um sistema de barreiras e forças inter-relacionadas que reduzem, imobilizam e moldam pessoas que pertencem a um certo grupo e efetiva a subordinação deste a outro grupo (individualmente a indivíduos do outro grupo e como grupo ao outro grupo). Esse sistema não poderia existir se os grupos, as categorias de pessoas, não fossem bem definidas. Logicamente, ele pressupõe que existem duas categorias diferentes. Na prática, eles não devem apenas se distinguir, mas devem ser relativamente fáceis de serem identificados; as barreiras e forças não poderiam ser localizadas e aplicadas propriamente se houvesse, com frequência, dúvidas em relação a quais indivíduos devem ser contidos e reduzidos e quais devem ser dominantes.

É extremamente custoso subordinar um grande grupo de pessoas somente com aplicações de força material, como é indicado pelo custo de prisões de segurança máxima e pela supressão militar de movimentos nacionalistas. Para a subordinação ser permanente e eficiente nos custos, é necessário criar condições tais que os grupos subordinados consintam, em determinado grau, com a subordinação. Provavelmente uma das maneiras mais eficientes de assegurar a aquiescência é convencer as pessoas de que sua subordinação é inevitável. Os mecanismos pelos quais as categorias subordinada e dominante são definidas podem contribuir grandemente com a crença popular na inevitabilidade da estrutura de dominância/subordinação.

Para subordinação eficiente, o que é quisto é que a estrutura não pareça ser um artefato cultural mantido por decisão e hábito humanos, mas que pareça ser natural — que pareça ser uma consequência direta de fatos sobre a besta que estão além do escopo da manipulação ou revisão humanas. Deve parecer natural que indivíduos de uma categoria sejam dominados por indivíduos de outra e que, como grupos, um domine o outro(9). Para fazer isso parecer ser natural, ajudará se a todos os envolvidos aparentar que ambos os grupos são muito diferentes um do outro e se essa impressão for acentuada, fazendo-se crer que, dentro de cada grupo, os indivíduos são muito parecidos entre si. Em outras palavras, a aparência de naturalidade da dominância de homens e da subordinação de mulheres é apoiada por qualquer coisa que suporte o semblante de que homens são muito parecidos com outros homens e muito diferentes de mulheres e que mulheres são muito parecidas com outras mulheres e muito diferentes de homens. Todo comportamento que encoraje a aparência de que humanos são biologicamente dimórficos sexuais encoraja a aquiescência de mulheres (e, na medida em que necessita de encorajamento, de homens) na subordinação feminina.

Que somos treinados para nos comportarmos tão diferentemente como mulheres e como homens, e para nos comportarmos tão diferentemente com mulheres e com homens, em si, contribui grandemente com a aparência de extremo dimorfismo natural, mas também, as maneiras como agimos como mulheres e em relação a homens moldam nossos corpos e nossas mentes às formas de subordinação e dominação. Nós, de fato, nos tornamos o que treinamos ser.

Ao longo desse ensaio eu pareço evitar a pergunta em questão. Eu não deveria estar tentando provar que as diferenças existentes entre homens e mulheres são poucas e insignificantes, se é nisto em que acredito, ao invés de apenas supor isso? O que eu tenho feito é oferecer observações que sugerem que, se alguém pensa que existem diferenças biológicas profundas entre mulheres e homens que causem e justifiquem divisões de trabalho e de responsabilidade como as que vemos na família moderna patriarcal e no ambiente de trabalho dominantemente masculino, não se chega a essa crença por causa de experiência direta ou de evidências físicas puras, mas porque nossos costumes servem para construir essa aparência; e eu sugiro que esses costumes são artefatos culturais que existem para apoiar um sistema de dominação e subordinação que é injustificável moral e cientificamente(10).

Mas também, no fim das contas, eu não quero alegar simplesmente que não existem diferenças significantes social e biologicamente entre humanos fêmeas e machos. As coisas são muito mais complexas que isso.

Enculturação(11) e socialização são, penso eu, mal compreendidas se alguém as entende como processos que aplicam camadas de verniz cultural sobre um substrato biológico. É com essa imagem em mente que se pergunta se este ou aquele aspecto do comportamento é devido à “natureza” ou à “criação”. Quer-se dizer: ele emana do substrato biológico ou ele vem de alguma das camadas do verniz? Uma variante nessa ideia equivocada é a imagem segundo a qual enculturação ou socialização é algo mental ou psicológico, em oposição a algo fisiológico ou biológico, então pode-se pensar em atitudes e hábitos de percepção, por exemplo, como “aprendidos” contra “biologicamente determinados”. De novo, pode-se perguntar coisas como se a agressividade masculina é aprendida ou biologicamente determinada e, se o primeiro for atestado, pode-se pensar em termos de modificá-la, enquanto que, se o último for atestado, deve-se desistir de qualquer intenção de reforma.

Minha observação e experiência sugere outra maneira de analisar isso. Vejo enorme pressão social sobre todos nós para agir de maneira feminina ou masculina (e não ambos), então estou inclinada a pensar que se formos romper os hábitos da cultura que gera essa pressão, pessoas não agiriam particularmente de maneira masculina ou feminina. O fato de que existam ameaças de punição por desvios desses padrões sugere fortemente que os padrões não estariam postos se não fossem as ameaças. Isso leva, creio eu, a uma conclusão cética: nós não sabemos se padrões de comportamento humano seriam dimórficos em termos de cromossomos sexuais, se não fôssemos ameaçados e pressionados; tampouco sabemos, se assumirmos que eles seriam dimórficos, como eles seriam, ou seja, quais constelações de traços e tendências se encaixariam nessa linha genética. Essas perguntas são estranhas, de todo modo, já que não há dúvida de que humanos crescem sem cultura, então não sabemos que outras variáveis culturais poderíamos supor estar operando em uma cultura na qual o treinamento familiar para a masculinidade e a feminilidade não acontecesse.

Por outro lado, à medida que se transita no mundo e, em particular, à medida que se testa estratégias destinadas a alterar o comportamento que constituem e sustentam a dominância masculina, frequentemente tem-se experiências extremamente convincentes da rigidez das pessoas a esse respeito, de uma resistência em mudar que parece ser muito, muito mais profunda do que vontade ou intencionalidade diante dos argumentos e das evidências. Como ativistas feministas, muitas de nós sentiu isso, em particular no caso de homens, e isso às vezes faz parecer que a flexibilidade e a adaptabilidade relativas de mulheres e a relativa rigidez de homens são tão disseminadas dentro de cada grupo respectivamente, e tão frequente e convincentemente encontradas, que eles devem ser dados biologicamente. Observa-se, então, homens e mulheres nas ruas, e seus corpos parecem tão diferentes — é difícil não pensar que existem vastas e profundas diferenças entre mulheres e homens sem abrir mão da confiança conquistada com dificuldade na própria capacidade perceptiva.

O primeiro remédio aqui é levantar os olhos de uma única cultura, classe e raça. Se os corpos de mulheres asiáticas a distanciam tanto de homens asiáticos, veja como elas também são diferentes de mulheres negras; se homens brancos todos se parecem entre si e são tão diferentes de mulheres brancas, ajuda observar que homens negros também não são tão parecidos com homens brancos.

O segundo remédio é pensar sobre a experiência subjetiva que temos de nossos hábitos. Se alguém habitualmente torce uma mecha de cabelo sempre que está lendo e precisa abandonar esse hábito, é sabido o qual “corporal” é esse comportamento, mas isso não convence de que seja um comportamento determinado geneticamente. Pessoas que dirigem para o trabalho todos os dias, com frequência, pegam o mesmo caminho todos os dias e, se pretendem pegar uma rota diferente um dia a fim de realizar uma tarefa no caminho, eles podem se ver no trabalho, tendo tomado a rota habitual, sem ter mudado a decisão a respeito da tarefa que deveria ter sido realizada. O hábito de pegar este caminho é traçado dentro do corpo, não é uma questão de deliberação — um evento mental — que é repetido todo dia sob um novo julgamento sobre a razoabilidade do percurso. Também não é genético. Somos animais. Aprender é físico, corporal. Não há um “centro de controle” separado, imaterial, onde a socialização, enculturação e formação de hábito ocorrem e onde, por ser imaterial, a mudança é independente dos corpos ou mais fáceis do que seriam nos corpos.

Socialização molda nossos corpos, enculturação forma nosso esqueleto, nossa musculatura, nosso sistema nervoso central. Quando chegamos à idade adulta, masculinidade e feminilidade são “biológicas”. Elas são características estruturais e materiais de como nossos corpos são. Minha experiência sugere que eles são modificáveis da mesma forma que se pode esperar que os corpos sejam — lentamente, por meio da prática constante e de regimes deliberados desenhados para remapear e reconstruir nervos e tecidos. Foi assim que muitas de nós conseguiu mudar quando decidimos mudar de “mulheres” conforme a definição cultural para “mulheres” conforme nossa própria definição. Ambas, as fontes de mudanças e as resistências a elas, são corporais — estão entre as possibilidades de nossas naturezas animais, quaisquer que sejam elas.

Agora, “biológico” não significa “geneticamente determinado” ou “inevitável”. Apenas significa “do animal”.

Não é acidente que o feminismo, com frequência, focou nos nossos corpos. Estupro, espancamento, autonomia reprodutiva, saúde, nutrição, autodefesa, atletismo, independência financeira (controle dos meios de subsistência e de nos proteger). Também não é acidente que, em variados níveis de intenção consciente, feministas tentaram criar espaços separados onde mulheres pudessem existir, de alguma maneira, protegidas dos ventos prevalentes da cultura patriarcal e pudessem tentar levantar-se sem curvar-se por uma vez na vida. É necessário espaço para praticar uma postura ereta, não se pode apenas desejar que isso aconteça. Para reeducar um corpo, é necessária liberdade física do que são, em última análise, forças físicas deformando-o para os contornos da subordinação.

As estruturas culturais e econômicas que criam e reforçam padrões elaborados e rígidos de comportamentos de marcação e anúncio do sexo, isto é, criam o gênero como o conhecemos, nos moldam como dominadores e subordinados (eu não disse “moldam nossas mentes” ou “moldam nossas personalidades”). Eles constróem duas classes de animais, o masculino e o feminino, onde outra constelação de forças poderia ter construído três ou cinco categorias e não necessariamente relacionados hierarquicamente. Ou tal espectro de tipos que sequer poderíamos experienciá-los como “tipos”.

O termo sexista caracteriza estruturas culturais e econômicas que criam e reforçam padrões elaborados e rígidos de marcação e de anúncio sexuais que dividem a espécie, de acordo com o sexo, entre dominadores e subordinados. Atos e práticas individuais são sexistas quando reforçam e sustentam essas estruturas, quer como cultura ou como formas assumidas pelos animais enculturados. Resistência ao sexismo é aquela que mina essas estruturas por meio de ações sociais e políticas e por projetos de reconstrução e revisão de nós mesmos.

NOTAS

(1) NA: “Chauvinismo masculino — uma análise conceitual”, Filosofia e Sexo, editada por Robert Baker e Frederick Elliston (Prometheur Books, Buffalo, New York, 1975), p.66. A inadequação dessa descrição de sexismo é refletida na inadequação dos padrões da interpretação legal do que é a discriminação sexual como é analisada por Catharine A. MacKinnon em Sexual Harassment of Working Women (Yale University Press, New Haven and Londos, 1979), capítulos 5 e 6. Veja, também, minha resenha desse livro, “Courting Gender Justice”, New Women’s Times Feminist Review, n.17, Setembro-Outubro 1981, p.10–11.

(2) NA: Veja, por exemplo, trabalhos como Body Politics: Power, Sex and Nonverbal Communication, por Nancy Henley (Prentice-Hall, Englewood Cliffs, New Jersey, 1977); Language and Sex: Difference and Dominance, editado por Barrie Thorne e Nancy Henley (Newbury House Publishers, Rowley, Massachussets, 1975); e Gender and Nonverbal Behavior, editado por Clara Mayo e Nancy M. Henley (Springer-Verlag, New York, 1981)

(3) NT: no original, “wether your body dips into a shadow curtsy or bow”, fazendo referência à maneira distinta na qual mulheres e homens faziam reverência ao cumprimentar pessoas — mulheres segurando a saia, dobrando o joelho e abaixando a cabeça (shadow curtsy) e homens curvando o tronco (bow curtsy)

(4) NT: no original, ‘pilot, nurse’, palavras que são neutras quanto a gênero, mas que são associadas a um sexo ou outro em função de estereótipos culturais ligados à profissão.

(5) NA: Línguas diferem em seu grau de “carga de gênero” e existem evidências de que essas diferenças estão relacionadas a diferenças na idade na qual crianças “desenvolvem identidade de gênero”. Em “NAtive Language and Cognitive Structures — a Cross-cultural Inquiry”, Alexander Z. Guiora e Arthur Herold detalham essa evidência. Eles caracterizam o inglês como tendo carga de gênero “mínima”, hebraico como tendo “máxima carga de gênero” e Finlandês como tendo “zero”. Se inglês, cujas marcas de gênero me parecem muito prevalentes, é um exemplo de “mínima carga de gênero”, parece seguro deduzir que a marcação de gênero nas línguas humanas é, de fato, um fator significante na experiência humana em geral. (O artigo de Guiora e Herold pode ser solicitado a Dr, Guiora no Box n.011, University Hospital, The University of Michigan, Ann Arbor, Michigan 48109). Estou em débito com Barbara Abbot por trazer esse artigo a minha atenção.

(6) NA: Me fundamento, aqui, nos ensinamentos de Eileen Van Tassel, nos quais ela interpretou dados geralmente disponíveis sobre as características dos sexos, diferenças entre os sexos e similaridades entre os sexos. Pode-se buscar, particularmente, Man and Woman, Boy and Girl, escrito por John Money e Anke A. Ehrhardt (The Johns Hopkins University Press, 1972) e Intersexuality, editado por Claus Overzier (Academic Press, New York and London, 1963). Veja também, por exemplo: “Development of Sexual Characteristics”, de A. D. Jost em Science Journal, volume 6, n. 6 (especialmente o gráfico na página 71) que indica a variedade de características dos sexos que ocorrem em homens e mulheres normais; e “Growth and Endocrinology of the Adolescent” por J. M.Tanner em Endocrine and Genetic Diseases of Childhood, editado por L. Gardner (Saunders, Philadelfia & London, 1969), que tenta fornecer padrões clínicos de avaliação para o status hormonal de jovens adolescentes e no qual o autor caracteriza indivíduos que estão dentro da curva normal para homens como “homens femininos”, por conseguinte, como homens “anormais”; e, similarmente, mutatis mutandis para mulheres.

(7) NA: Veja, por exemplo, Sexual Suicide, de George F. Gilder (Quadrangle, New York, 1979). Para um exemplo eloquente da versão Vitoriana dessa ansiedade e da visão de mundo que está sob ela, veja “The emmancipation of women” de Frederic Harrison em Fortnightly Review, CCXCVII, Outubro 1, 1891, como citado em uma palestra de Sandra Siegel na Berkshire Conference on Women’s History, em abril de 1981, intitulada “Historiography, ‘Decadence’, and the Legend of ‘Separated Spheres’ in Late Victorian England”, que relaciona concepções Vitorianas de civilização com a separação e a diferenciação de mulheres e homens.

(8) NA: para alguns leitoras será útil notar a conexão, aqui, com a doutrina de implicações conversacionais de H.P, Grice. Há uma “regra” conversacional de que quem fala deve “ser relevante”.Como audiência, supomos que a informação que nos é dada é relevante, e, se não podemos ver sua relevância, geralmente supomos que ela se deve a algo escondido ou que não estamos percebendo algo que outros conseguem notar; ou inventamos a relevância reconstruindo a informação como se fosse a respeito de algo diferente do que pareceu ser inicialmente. (Grice, “Logic and conversation”, The logic of Grammar, editado por Donald Davidson e Gilbert Harman [Dickenson Publishing Company, Inc., Encino, Califórnia e Belmont, Califórnia, 1975], p. 64–75).

(9) Veja “Feminist Leaders Can’t Walk on Water”, por Lorraine MAsterson, Quest: A Feminist Quarterly (Volume II, Número 4, Spring, 1976), especialmente as páginas 35–36, onde o autor refere-se ao Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire, e fala sobre o caso especial da crença feminina de que nossa subordinação é inevitável porque está enraizada na biologia.

(10) Confira o prematuro e poderoso artigo de Naomi Weisstein, “Psychology Constructs the Female” em Women in Sexist Society: Studies in Power and Powerlessness, editado por Vivian Gornick e Barbara K. Moran (Basic Books, Inc., New York, 1971). Weisstein documenta evidentemente que nem leigos nem psicólogos são minimamente confiáveis como observadores de traços relacionados ao sexo das pessoas e que teorias de diferenças sexuais baseadas em “experiência clínica” e em estudos preliminares são cientificamente inválidos.

(11) NT: no original, “enculturation”. Enculturação é o processo de aquisição da cultura do grupo a qual o sujeito pertence e da consequente formação de sua individualidade.

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