Isto é o que realmente acontece quando a prostituição é descriminalizada
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artigo escrito, originalmente, por Julie Bindel (@bindelj) e publicado no dia 5 de agosto de 2017, disponível em: https://www.independent.co.uk/voices/prostitution-decriminalisation-new-zealand-holland-abuse-harm-commercialisation-a7878586.html
A batalha mais difícil que já travei, como uma ativista feminista contra a violência masculina, foi contra a expansão e a normalização da prostituição. Enquanto pesquisava para escrever meu livro, no qual busco expor a verdade acerca da indústria do sexo, encontrei uma versão distorcida da realidade, propagada pelo chamado movimento “pelo direito dos trabalhadores do sexo”, que marketeia e sanitiza a indústria do sexo como uma prestação de serviço inofensiva.
Por dois anos, viajei 263.932 Km, entrevistando 250 pessoas ao redor do mundo. O maior obstáculo que encontrei foi a eficiente máquina propagandística que retira a verdade acerca da indústria do sexo e a representa, para o mundo, na forma de um cala-boca sanitizado.
Por meio da análise cuidadosa de pesquisas acadêmicas pró-prostituição, da observação dos financiadores e apoiadores da indústria do sexo, do questionamento acerca dos chamados “benefícios” da descriminalização completa e da escuta atenta de sobreviventes da indústria do sexo, revelei da verdadeira história do que acontece quando a compra, venda e aluguel da carne feminina é sancionada legal e culturalmente.
A Nova Zelândia é, com frequência, exibida como o modelo padrão ouro de como erradicar os problemas inerentes à prostituição. Em 2003, seu governo votou (com pequena diferença de votos) para descriminalizar a cafetinagem, a propriedade de bordéis e a compra de sexo. O argumento, liderado pelo Coletivo de Prostitutas da Nova Zelândia (NZPC), foi tão persuasivo, quanto enganador: remover todas as leis criminais de todos os aspectos do negócio traria o “direito das trabalhadoras” e a segurança às mulheres.
Para a conveniência dos empresários da indústria do sexo, isso resultou em cafetões e donos de bordéis sendo ressignificados como “homens de negócio”. Ouvi um cafetão legalizado em Nevada referir-se ao seu negócio como sendo similar ao do McDonald’s. Só que, no caso da prostituição, os produtos à venda são seres humanos, e não carne morta.
Juntamente com outros países e estados que removeram as penas criminais contra exploradores do sexo, como Holanda, Alemanha, Nevada (EUA) e alguns estados na Austrália, a Nova Zelândia ajudou a tornar a venda de sexo respeitável e isenta de burocracia, como vender carros. O formulário de inscrição para abrir um bordel na Nova Zelândia tem apenas duas páginas, três a menos do que o formulário necessário para adotar um cachorro ou um gato no Centro de Acolhimento Battersea Dogs & Cats Home
Uma de muitas sobreviventes da indústria do sexo que conheci durante minha pesquisa foi Sabrinna Valisce, que trabalhou voluntariamente na NZPC por mais de 25 anos. Valisce militou, juntamente com suas colegas, pela descriminalização completa, mas agora se arrepende de tê-lo feito.
“Pensei que daria mais poder e mais direitos para mulheres” ela disse, “mas logo percebi que, na verdade, era o contrário”.
De acordo com Valisce, a descriminalização beneficiou os clientes e os donos de bordéis, ao invés daquelas vendendo sexo entre ambos.
“Donos de bordéis podem escolher seus preços, eles dizem tudo incluso [o que significa que o cliente pode fazer sexo com a mulher pela qual pagou quantas vezes quiser]” diz Valisce. “Então clientes entram no quarto, vêem uma garota e ela tem que lidar com eles querendo fazer qualquer coisa, tudo”.
Sob regimes de legalização e descriminalização, abusos sofridos por mulheres são, agora, considerados “acidentes de trabalho”, como uma pedra que cai no pé de um construtor. Em Amsterdã, que ostenta “vitrines” onde mulheres são exibidas a fim de que compradores de sexo possam escolher uma mulher a ser paga para penetrar, o turismo sexual é tão normalizado que até mesmo Thomas Cook costumava oferecer visitas turísticas com guia nas áreas do distrito da luz vermelha, nas quais crianças menores de três anos podiam ir de graça.
Por toda Holanda, mulheres têm sido importadas da África, do Leste Europeu e da Ásia por traficantes, para atender À demanda crescente. Existe pouco ou nenhum apoio para mulheres saírem da prostituição, e a perversidade inerente à indústria do sexo não foi lavada pela bênção legal. Como na Alemanha e em Nevada, a relação entre crime organizado e prostituição não foi rompida, e mulheres ainda estão sendo assassinadas por cafetões e clientes em taxas alarmantes.
Um artigo de 2012 no periódico World Development reportou que “países com a prostituição legalizada tem um número significantemente maior de incidentes de importação de tráfico de pessoas relatados”.
A descriminalização da indústria do sexo não faz nada pela proteção daquelas vendendo sexo. Sou uma de muitas feministas abolicionistas militando ativamente pelo fim da criminalização de pessoas prostituídas e para que o ônus seja deslocado para os consumidores. Durante o tempo que passei nos bordéis na Austrália, na Holanda, em Nevada e na Alemanha, chamados de “zonas de tolerância”, descobri que o efeito mais pernicioso da remoção de sanções criminais dos cafetões e dos exploradores é o modo como redefine a prostituição como uma transação meramente comercial, na qual, por sua vez, serve para esconder a verdade a respeito do dano e do abuso no centro da indústria mundial do sexo.
O livro de Julie Bindel “The Pimping of Prostitution: Abolishing the Sex Work Myth” [em tradução livre: “A recauchutagem da prostituição: abolindo o mito do trabalho sexual] foi publicado pela Palgrave Macmillan em 27 de setembro de 2017
