Baque

Não. A coragem não é isso. Pensa comigo. Esta não é uma questão que poderia ser definida pelo clichê de correr ao longo do penhasco e saltar. Sem paraquedas ou rede de proteção, num ato que talvez proporcione um caminhão de adrenalina que faça corações e músculos colapsarem. Mas e aí? O êxtase acompanha pelos trinta segundos da queda. Pedras, areia e árvores incrustadas passam tão rápido que os olhos não enxergam. É a emoção, é a emoção. A encosta é a pista de uma corrida que não tem volta. Feito o “eu te amo” que escapa da garganta e se recusa a voltar. Então, talvez o sensato seja gritar o mais alto possível. Mas e aí? O grito seca, a adrenalina se esvai e o chão está cada vez mais próximo. E chegará, de uma forma ou de outra: ou você alcança ele ou ele aparece primeiro. Ploft. Mas e aí? O que sobra da aventura é uma metade, uma parte, um talvez que não grite ou pule de novo. Porque o chão é este fantasma, o espectro do não foi desta vez, do tente de novo, do siga em frente. É isso: fazer, tentar e seguir. É mais fácil avançar na direção do desconhecido e experimentar, inovar, se entregar. Isso não é coragem. É sobrevivência. É escolher respirar e continuar. Coragem, de verdade, é desistir. É constatar que as amarras pesam e que é impossível levantar os pés concretados no chão. Coragem é respirar fundo, desconsiderar o que ainda não é e descartar o que nunca será. O verdadeiro ato de coragem é dizer não. Ao salto, à adrenalina, aos segundos que travestem a queda livre em lançamento às alturas. Coragem é aproveitar a paisagem. Mirar o horizonte como os fingidores, convencidos de que ele não vá provocar arrebatamentos ou pulsão. Porque é o que está longe que parece comum e estável, e o voo cego é turbulento e ventoso demais. Coragem é desistir. E se agarrar às ferramentas dos loucos sabendo que nada disso faz sentido. Mas que, pelo menos por enquanto, o melhor é evitar o baque. Sim.

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