Tua sempre cretina

Alô! Meu Deus, seu sumido! Te conto que liguei algumas vezes, mas ninguém atendeu. Sabia? Eu sei, eu sei. Não insisti. Então te pergunto: como insistir depois que entrei na tua casa, mexi no teu escritório e até dei risadas com a Loreta quando achamos um certificado teu de um curso para manusear cimento? Lembrança sensacional. Ficas em silêncio e me pergunta o que eu tenho. “O de sempre”, respondo. “O de sempre novo ou o de sempre velho?”, questionas. Sempre certeiro, né? Te conto que é o de sempre novo. As pessoas têm me achado melancólica. Ficam preocupadas, mas mantém a distância. “Melhor assim, não achas?” Tu me respondes que “sim”, porque eu acho que sabe que, no fundo, até escuto os conselhos de todos, mas decido por conta própria. “Exceto nos últimos anos, né?”, completo. Ficar mais velha é enxergar, nitidamente, a pilha de arrependimentos manter-se maior do que a de conquistas. E quando esta conta atinge o seu limite, e a saudade é maior do que tudo, fica muito mais fácil de dizer adeus. Não? Me dizes que sou jovem, que eu não devia falar assim. “Daqui a pouco vão dizer que tu está com problemas sérios, Lurdes.” Ah, Napp. E quem não tem problemas? Sérios ou não sérios. “Tua mãe vai te internar, guria!” Me dizes, quando tudo o que quero ouvir é: “se precisar conversar com alguém, me liga. Estou aqui.” Quantas vezes deixei a minha agenda atrapalhar e não te liguei. Sei que ficaste chateado muitas ocasiões. Deixei a vida me atropelar, conquistando coisas que não têm importância, me relacionando com pessoas que nem gostam de mim de verdade. Pra quê, no fim das contas. “Estou meio contestadora. De mim mesma, eu acho”. Te conto que te ligo muito mais agora. Às vezes várias vezes por dia. “Eu sei. Tu é uma cretina”, me respondes. Rio e choro de tanta saudade. Sim, é verdade. E eu também gosto muito de ti. Te ligo depois.