Um medo maior

Sabe do que eu mais sinto falta? Do teu silêncio. Do nosso silêncio. Era talvez o único que nunca me desassossegou. Porque, mesmo sendo raro, sabíamos que era essencial. Um tempo para recarregar as armas (quando éramos cruéis com os outros — muito cruéis), para recuperar o fôlego depois de uma sessão de tiradas hilárias (muito hilárias) ou para nos separarmos quando éramos ambos insuportáveis (totalmente inadequados e irritantes). Sabe do que também sinto muita falta? De mim quando eu estava contigo. Agora, que me parece ser o que chamam de “muito tempo depois”, sinto como se fosse outra era. Distante. E eu, que sobrei aqui, me concentro em manter a coluna ereta e a cabeça no lugar, mesmo sabendo que todo o resto é vazio. Aquele que olhar atentamente verá isso. Então, não deixo. Me escondo, me esgueiro nas curvas das paredes, fujo dos olhares. Inclusive do meu. E tento não prestar atenção. Porque sei que num próximo intervalo, entre uma brincadeira e outra com o Lucas, no semáforo com a luz vermelha encarando o motorista ao lado, ou na troca das músicas do CD que ouço eu casa, eu sei. O silêncio virá, e será cruel, dolorido e eterno. Eu vou lacrimejar um pouco e suspirar outro tanto. E deixar que essa força, que ainda não entendo e que me oprime o peito, me contamine lentamente. Pelo menos assim, sei que ainda me lembro de ti e de tudo o que eu gostava e odiava. Porque, no fim do dia, quando a noite acalenta e amedronta, esquecer é o meu maior medo.

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