Liberdade

Foi num longo banco de madeira que eu sentei para descansar, naquele pôr-do-sol de terça na rua Galvão Bueno, no bairro da Liberdade. Entre as calçadas, a rua era dividida no meio por uma sequência de pequenos postes: metade do espaço era dos carros, a outra dos pedestres. Aquilo era motivo de glória pra qualquer um que anda a pé por São Paulo. Ali alguém um dia falou que as calçadas não bastavam, queria mais, foi lá e separou a rua. Deve ter andado todo à pompa tirando sarro dos motoristas.

Mas pensa, para o carro tem quantas ruas na cidade? Claro que dá pra andar na calçada, mas olha o tamanho do carro e olha o meu. Se ele quiser, passa por cima de mim igual a China passou pelo Tibete.

E para o pedestre tem o quê? Cinco linhas de metrô, uns trens, ônibus e um par de pernas. Recentemente ele ganhou as linhas exclusivas de ônibus, agora passa dando banana para o motorista engarrafado na hora do rush.

Não dá pra competir com o carro em São Paulo. Mas ali, naquele espaço apertado entre grades vermelhas, eles passam devagarinho e de cabeça baixa, porque o pedestre é quem manda.

A vontade era de ficar sentado naquele banco até alguém vir me tirar, mas isso jamais aconteceria. Naquele assento confortável dava pra recostar, ler um Rubem Braga e se encher de inspiração sem incomodações. Respirando fundo até se esquece que está em São Paulo, do ar sólido e cinza, e sente-se aquele calma que todo mundo deveria sentir ao menos uma vez por dia.

Ali da Galvão Bueno você até que ouve um pouco os carros que passam embaixo pelo viaduto, mas não se vê eles, o que garante o clima. Se concentrar, dá pra esquecer que eles existem.

E quando cai a noite, só metade dos postes de luz vermelhos e orientais da rua se acendem. Os outros ainda não perceberam que é hora de acordar. Mas deixa, ali é o lugar deles mesmo.

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