Luvdeluxe
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Nov 3 · 3 min read

— Você vai cair. — Uma voz falou no pé do seu ouvido enquanto subia a passarela de uma avenida com oito pistas. Sentiu a vertigem passar pelo estômago e chegar até a cabeça, fazendo tudo girar. O vento fazia tudo balançar, suas pernas, seus braços, fez até os fios do cabelo arrepiar. Pensou em voltar mas sem tempo irmão. Chegou do outro lado da passarela e pegou sua condução.

Chegou na casa vazia e escura. Ligou todas as luzes e a tv e o pc e ligou também para sua mãe só para ouvir alguma voz que não fosse a da sua própria cabeça. Só chamava mas ela não atendeu. Com a teve ligada não se sentia mas tão só mas em compensação, só tragédia. O sangue espirra pela tela de led. Trocou de canal e colocou no mudo. Ligou o som do PC e colocou toda a pasta de música para tocar no aleatório. Tocou Nina Simone com sua voz mais solitária ainda. “Ai, meu deus! Vou colocar um som mais alto astral” pensou e colocou para tocar um Tim Maia. Agora sim! Foi tomar banho e enquanto cantava o refrão infinito de Ela Partiu, a luz acabou. Sentiu a água gelada percorrer a pelugem de suas costas que se arrepiou na escuridão.

Tateou a parede pelado até chegar na mesa do computador onde estava o celular. Ligou a lanterna e foi até o guarda roupas se vestir. E agora José? Só e no escuro. Os cachorros da rua começaram a latir todos juntos. Alguns uivavam alto e nem era noite de lua cheia. Colocou a cara no portão para ver o que rolava mas não viu nada, só escuridão. Ninguém na rua, que estranho. Tiraram o horário de verão, já era tarde então. Voltou para dentro de casa. Decidiu dormir mas sem ventilador nem rola.

Ficou jogando alguma coisa off line no celular enquanto a luz não voltava. De repente sente um arrepio. Uma voz conhecida diz ao seu ouvido. — Você vai cair. — Como? se está na cama? A bateria do celular estava nas ultimas e apaga a única fonte de luz da casa. Escuridão total e vozes na cabeça. Algo lá fora. Olha pela janela. Nem vento balança as folhas das arvores. Estrelas no céu. Acha que viu um ovni. Ou era um avião? Nunca andaria de avião com aquele medo de altura. Durante a infância não subia nem em árvore para roubar goiaba. Bela hora para ser abduzido pelas memórias. É melhor ficar quieto. Ah como se fosse fácil manter essa máquina calada. Cadê os exercícios de meditação que não davam resultado? Viu a sombra do que seria um gato preto no telhado. Vá de reto! Se benzeu mesmo não acreditando em deus. O gato fazia um grunhido estranho mas passou reto pulando por cima do muro da vizinha. Em falar nisso, que visita rabuda gostosa. Porque nunca a chamara para sair? Porque pessoas que escrevem “chamara” não costumam chamar ninguém mesmo pra sair.

Se sente

só.

Cabeça não para um segundo e imagina várias coisas que poderiam acontecer naquela noite. O mundo acabar. Um buraco negro se abrir e num instante sugar toda a galáxia (isso nem iria doer). Entrar num universo paralelo, num sonho ou pesadelo sem fim onde todos os seus medos se tornam realidade. Vergonha, altura, solidão, vaidade. Medo de viver. Agora sim, entra numa espiral de loucura. Deitado na cama olhando para o teto escuro, vê imagens para lá e para cá. Seu passado e seu futuro só vem para lhe atormentar. Não aguenta mais pensar. Vai pular a janela vai gritar!!! Levanta da cama de súbito e no mesmo instante a luz volta. O motor da geladeira pega força. A teve liga no canal mudo que estava. A luz lhe cega momentaneamente. Suas pupilas dilatadas voltar ao normal. Vai até a cozinha procura algo para comer.