
Seu corpo boiava imóvel na água infinita e salgada. Olhava a lua minguante no céu sem nuvens do fim de tarde. Um tanque de pensamentos também sem fim. Se acalmou. Zen. O que estou fazendo da minha vida? Eu preciso, eu tenho, eu necessito viver. Imagens vhs na sua tela mental mostram o que estava lhe impedindo de correr. Serão suas pernas tremulas? Levantou com atitude. Viu uma loira com um minúsculo biquíni na areia. Que sereia! Uma onda forte explode em suas costas. Caixote. Seu mundo vira de cabeça para baixo. Onde está? Quem sou eu? Que tempo estamos? Volta a superfície. Respira fundo, passa a mão nos olhos e nos cabelos. Preciso sair de mim, para firmar quem sou.
Será que estou vivendo ou apenas pegando carona no tempo? “Eu não sei nadar” ela disse baixinho com medo de boiar. O medo de nadar é o medo de viver e vice e versa. Não confiamos em nós mesmos. Ora, chega de existencialismo. “Me beija” Ela o agarrou com as pernas e um saxofone tocou alto alto alto no topo do mundo. Algumas gaivotas fizeram barulho lá longe e no ninho dalas nasceu outra ave que terá medo de voar até o dia que não poder mais aguentar todo o peso do céu azul.
O engraçado era que ele ensinava ela a nadar mas ele mesmo não o sabia. — É só boiar! É só deixar o corpo fluir, fácil assim. — Ele tentava e afundava na água. — O que você está olhando? — Ela perguntou. Nada, não. Novamente outra onda o acerta em cheio pelas costas. O porquê de tantas lembranças agora e aqui? Porque o futuro e o passado não lhe deixam em paz um segundo? E o escuro mar! E o escuro mar em que nadas de olhos fechados? Pode abrir os olhos, a água só incomoda no começo, mas depois a vista acostuma, ela disse.
Já era tarde. O sol já se punha e ignorava alguns otários de vida boa que batiam palmas para ele. A fome lhe roía o estômago, aliás, dos dois. Pegaram o busão para casa. Viram de longe a orla ficar para trás. Viram de longe o tempo ficar para trás. Ele jurou nunca mais deixar a onda lhe pegar por trás. Já que não tinha como fugir daquele mar imenso que era sentir e viver então melhor que fosse frente.
