
Sinto que a vida tem conversado comigo. Não com palavras mas silenciosamente através de acontecimentos que destroem os muros altos que num dia qualquer de sol eu construí em volta de mim mesmo. Ela fala comigo pela boca de outras pessoas, também com sumiços e aparições. Através de folhas que caem ao meu redor. Através de sentimentos e emoções. Ela diz coisas que eu não consigo entender porque estou preso nas mesmas palavras que uso para tentar compreende-la. Preso entre viver e não viver. Entre o medo e a coragem. Entre a dúvida total e a certeza absoluta. Tiro uma carta do tarô. Sempre ele, o enforcado. O pé segurado pelas próprias mãos inquietas. Eu estou me sabotando? Isso talvez não seja uma pergunta. Então porque me interrogo se sei todas as respostas? Ah! Para com essa merda agora! Você sabe o que tem que fazer.
A cidade parecia Silent Hill naquela manhã de novembro. Não fazia frio mas a neblina cobria cada metro de rua e a palma da mão na frente do nariz. Andei por aí como Cartola sem o violão nas costas mas não era alegre nem triste. Apenas cantava e a arte transbordava em cada metro cúbico de água condensada que passava por entre meu corpo. E por muito tempo eu não via, como todo mundo. Apenas vivia, ou melhor, sobrevivia como todo o mundo que gira gira e gira sem parar. Voltando sempre para me testar, como um jogo de gato e rato. Como um survival horror da vida real onde os monstros são nossos próprios medos e decepções.
Estava com fome e seguindo inconscientemente o caminho já conhecido foi até padaria que estava fechada. Engraçado, será que hoje é domingo? Estou perdido no tempo. Lembro de como vim parar aqui mas não de quem sou. Será que algum dia eu soube? Eu sou o caminho que me trouxe até aqui e o destino que me leva até acolá.
Continuei andando na neblina que me cegava pelas ruas do meu coração. Vivo, ferido e aberto, sentindo o frio e o calor de cada estação. Tropecei meu dedão numa pedra enquanto uma velha varria as folhas do chão. Ao passar por ela dei bom dia e ela me perguntou que horas são? Como vou saber? Eu só queria comprar pão. É hora de levantar ela mesma respondeu e completou com deus ajuda quem cedo madruga. Ah, eu to fudido então. Ela continuou a varrer as folhas e dentro do cume calmo do meu olho que vê se assentou a sombra sonora de um disco voador.
Voltei estarrecido pela neblina que foi se desfazendo com a luz do sol. Eu nem estava mais com tanta fome. Meu dedão ainda doía mas eu sei que vai passar. Cheguei na frente da padaria, agora aberta. O cheiro de pão quentinho invadiu minhas narinas, tinha acabado de sair do forno.
