Luvdeluxe
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Nov 5 · 3 min read

No interior as pessoas estão tão no interior que não conseguem enxergar nada que não esteja nas profundezas dos seus umbigos pra dentro. Um buraco não apenas no estômago mas também na consciência.

A velha vizinha tinha por volta de dez gatos e uns cinco cães. Pelo menos foi o que eu contei na última vez que passei na frente de seu portão. E o fedor… santa mãe de deus que fedor! E era uma casa linda de classe média mas dava para ver nas paredes de Suvinil as marcas de mijo de cachorro.

Certo dia pediu para eu olhar seu celular que não estava conectando no wi fi. Eu precisei entrar na casa para ver o modelo e senha padrão do roteador. O aparelho ficava na cabeceira da cama de solteiro do velho marido já derrotado pelo tempo perdido na usina e pelo AVC. Pedi licença para entrar no quarto e o velho resmungou alguma coisa sem tirar os olhos da TV enorme que ficava presa na parede em frente à sua cama. Olhei rapidamente a senha padrão e tentei conectar meu celular. A senha que velha tinha me falado era com maiúscula na primeira letra. Conectei o celular dela e voltei para sala. Ela queria me dar dinheiro por causa do roteador mas não aceitei, era um negócio tão simples. Eu a vi colocando de volta a nota no avental estilo dona Florinda.

Enquanto me levava até o portão a velha não calou a boca um segundo. Sem brincadeira, ela ficou bem uma meia hora falando sem parar sem cessar. Falou dos filhos que nunca vinham visitar porque estavam muito ocupados e trabalhavam fora da cidade. Falou da infância deles até a casamento. Falou dos cachorros e da ração cara que ela manda comprar todo mês. Aquela Premium pedigree. Realmente vi na cozinha dois sacos daqueles grandes que deviam valer mais que minha bolsa estágio.

Enfim, eu já estava tonto com a voz dela ora gritando com o velho que não parava de chamar, ora gritando com os cachorros presos que não paravam de latir. Minha cabeça estava latejando eu não sabia o que pensar. Até que uma voz no portão interrompe a dona rádio relógio. Era uma mulher com um carrinho de mão, daqueles de obra, vendendo mandioca e outras verduras já descascadas, picadas e prontas para cozinhar.

A moça aparentava ter mais ou menos a minha faixa etária. Cara de cansada, a pele preta chega estava rosada de tanto sol. Dava pra ver a vergonha descendo a seco pela sua garganta quando ela disse que estava desempregada e perguntou se a gente não queria comprar para ajudar. A velha disse apenas um “hoje não, hoje não, to sem dinheiro” e continuou falando dos bichos como uma matraca desgovernada, voz do Brasil.

A menina não insistiu, levantou seu carrinho de mão e foi andando. Eu meio que entrei em transe lembrando de várias coisas que já passei. A voz da velha foi ficando para trás para trás da minha consciência. Resolvi que ia comprar a mandioca mesmo nunca tendo feito mandioca na vida #saudadescomidadamãe.

Deixei a velha falando sozinha e fui correndo atrás da moça. Quando abri a carteira, surpresa! Era meus últimos dez contos que eu estava guardando para comprar cigarro. Já tava ali, né.. não ia dar para trás. Comprei dois sacos de mandioca descascadas que foram pingando leite até chegar em casa. E foi quando cheguei no portão de casa que lembrei: A velha desgraçada tava com vintão que era pra mim no bolso mas não quis comprar a mandioca da menina.

Coloquei a mandioca na geladeira e peguei a carteira de cigarro em cima da mesa. Fui até a janela e acendi um. O maço ainda estava na metade, dava para aguentar até o próximo pagamento. A fumaça era espelho de minha mente enquanto eu via os carros passarem na avenida lá longe. Nisso eu pensava se meu umbigo era pra dentro ou pra fora.

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