O coração e a pluma

Eu resolvi escrever sobre reciprocidade, porque esse tema tem brotado de tudo que é canto na minha vida ultimamente. Até aí, nenhum problema, mas eu acho que é um conceito meio subestimado. Não que não seja valorizado, mas eu só vejo as pessoas falarem de reciprocidade em um sentido romântico, e acho, sempre achei, que é mais que isso.

Na mitologia egípcia, existe uma deusa chamada Ma’at, que representa meio que a justiça divina. Supostamente, Ma’at tem uma balança, e quando você morre ela coloca o seu coração em um prato e uma pluma no outro. O objetivo é ficar em equilíbrio com a pluma, porque se o coração for mais pesado, pro inferno e danação eterna com essa sua alma suja. Se o coração for mais leve, você seria claramente uma divindade, e teoricamente isso não é possível.

Daí que seria a mesma coisa com a reciprocidade, né? Achar aquele ponto de equilíbrio onde ninguém precisa dar mais que o outro. Parece um conceito simples, e eu não entendo por que na prática não é. Acho que a gente geralmente cresce aprendendo que é importante ter uma vantagem, um higher ground pra tudo, e pode ser que na verdade isso seja em nosso detrimento mais que benefício em uma porção de casos, porque se eu recebo a mesma quantidade que eu dou, eu nunca fico sem, e nem você. Não existe desvantagem.

Eu passei um tempão pensando que isso era um conceito abstrato e que não seria possível ter reciprocidade em nada (especialmente em um relacionamento) porque, intencionalmente ou não, maliciosamente ou não, alguém acaba sempre tomando mais. Hoje…eu penso mais ou menos isso ainda, mas que essa inconstância não elimina totalmente a ideia. Na realidade, os pratos da balança nunca ficam completamente alinhados, eles vivem sempre oscilando pra lá e pra cá. Nesse conceito, Ma’at nunca ia conseguir dar um veredito porque os pratos nunca param de balançar.

Hoje eu levo mais, e amanhã é a sua vez. Essa troca constante, e não necessariamente um fluxo contínuo onde tudo tem que ser retribuído o tempo todo, isso constitui reciprocidade. Senão, sei lá, acaba virando uma obrigação, uma cobrança, e isso desgasta e altera o balanço das coisas. Acho que por isso que é tão difícil de achar, e eu sei o quanto eu tenho sorte. Quero louvar isso só um pouquinho. Por ora, não estamos pesando mais pra lado nenhum, e eu só tenho a agradecer.

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