Moda sem gênero acende debate sobre identidades

Ao tomar as passarelas da Semana da Moda de Londres, em 2013, a moda genderless reacendeu o debate sobre identidade de gênero e moda.

Peças sem gênero da Selfridges

As temáticas de gênero questionam a moda sobre a imposição de formas, modelagens, cores e estruturas distintas para homens e mulheres. O debate sobre moda sem gênero ressurgiu em 2013, quando o estilista Jonathan Anderson colocou homens vestidos com shortinhos e vestidos na Semana da Moda de Londres.

Tratava-se de retomar a discussão sobre o que é ser masculino ou feminino na moda, algo que Coco Chanel começara na década de 1920, revolucionando este cenário ao vestir mulheres com a calça pantalona e a camiseta bretão, peças inspiradas pelos uniformes da marinha francesa, tradicionalmente masculina. Da estilista, vem o unissex.

Desde então, a moda foi sendo influenciada por outros estilos. Yves Saint Laurent, Giorgio Armani, Ralph Lauren e tantos outros mantiveram um flerte constante entre os dois gêneros, mas a proposta agora é casamento. Trata-se de criar uma moda que não revela para quem foi produzida, vestindo igualmente homens e mulheres, além das referências de gênero e de quaisquer estereótipos. Mesmo a androginia não criou roupas sem gênero.

A androginia tornou-se constante presença na moda feminina. Nos anos 1960, o smoking feminino de Yves Saint Laurent, jeans e camisas sem gola, o estilo militar feminino e o uso de calças cigarrettes, minissaias e couro pelas mulheres mostrou que essas não temem em demolir padrões, na busca de autonomia e confiança em uma sociedade machista.

Infográfico: Maria Carolina Ono

Tal machismo explica a demora e a dificuldade dos homens em fazerem o percurso inverso. Isto explica a repercussão da campanha da Louis Vuitton com Jaden Smith, vestindo roupas femininas e dos desfiles de Alessandro Michele para a Gucci, em que os mesmos looks eram usados em modelos de ambos os sexos.

Entretanto, ao contrário de que muitos pensam, a moda sem gênero não é feita por homens vestindo roupas de mulher, e vice-versa. Para que uma roupa possa realmente ser chamada de sem gênero, a mesma estampa, tecido, e modelo de roupa, devem ser usadas em modelagens para estruturas corporais diferentes.

Colocada como uma nova “moda” (a ambiguidade de sentido da palavra é sua riqueza) a proposta de moda sem gênero ainda gera confusão mesmo no mundo das grandes marcas, como prova a linha Ungendered da Zara, composta por moletons, camisetas e calças jeans.

Coleção Ungendered da Zara

Para Matheus Carvalho, estudante de Comunicação na Universidade de Brasília, as marcas erram ou por medo de tentar quebrar paradigmas e serem mal vistas por seu público ou por falta de tato com o tema. Algumas marcas tentam emplacar esse conceito, mas muitas delas falham, seja por equívoco no termo ou por superficialidade no conceito. São necessários profissionais que tenham especialidade no assunto e sejam sensíveis ao modelo a reconstruir.

A proposta de uma moda sem gênero é incompatível com uma loja divida em seções “masculina” e “feminina”. Uma roupa passa a ser apenas uma roupa, sem se ligar ao homem ou à mulher. A roupa precisa ter uma forma que possa ser utilizada por homens e mulheres, sem que fique muito grande pra um e pequeno para o outro. Para Larissa Jéssica Oliveira de Sousa, 23 anos, interessada em moda, as roupas não definem orientação sexual e este é um tabu que deveria ser quebrado.

Moda genderless da YOUCOM

Para Fernando Demarchi, formado em Moda e funcionário da loja alternativa YouCom, o conceito de moda sem gênero está atrelado à questão de uma modelagem padrão e que possa ser utilizada tanto por homens quanto por uma mulher. “Não tem a questão de a roupa ser muito masculina e nem muito feminina”. Ele relata que atendeu “um rapaz bem masculino mesmo”, que lhe comprou uma “blusa regata feminina”, o que demonstra que a dualidade masculino-feminino persiste não apenas nas seções da loja quanto nos modelos mentais de quem nela trabalha.

Para os usuários dessa moda, porém, ela é uma maneira de se expressar. O estudante Matheus afirma que seu estilo é uma mistura de tudo que lhe brilha os olhos: “Adoro mixar umas peças tipo transparência, peças brilhosas com tênis do dia a dia. Meu estilo depende do dia, não consigo me definir em apenas um”. Matheus acredita que “moda sem imposição de gênero é você poder fluir entre peças, para que no futuro só exista roupa, sem o masculina e feminina” depois dela.

Criar roupas sem gênero implica considerar que mulheres e homens podem se sentir atraídos por cores, flores, estampa animal e frases impactantes. Entretanto, modelagens diferentes devem valorizar o que os corpos femininos ou masculinos têm de mais bonito.

Entrevista completa com Fernando Demarchi

Qual sua opinião sobre o conceito de moda sem gênero?
 
Fernando: O conceito de moda sem gênero é a questão da modelagem. Antigamente, se você pegar toda história da moda, você vai perceber que todo esse conceito foi colocado pela sociedade, porque tem as mesmas cores. O azul antigamente era uma cor masculina e o rosa era uma cor feminina. Então foi algo em que a sociedade impões em relação a moda. E a questão é que antigamente a roupa pomposa e o salto foram feitos para o homem, e ao passar do tempo a mulher foi tomando posse de algumas peças. Então hoje é possível recuperar essa questão da moda sem gênero. Mas a questão de uma modelagem padrão e que possa ser utilizada tanto por homens quanto por uma mulheres. Não tem a questão da roupa ser muito masculina e nem muito feminina. 
 
 Como a Youcom segue esse conceito?
 
Fernando: É uma loja alternativa e faz 3 anos que foi lançada. E tem uma proposta de atingir os jovens mesmo e hoje é muito forte. Antigamente, na minha época, essa questão do gênero já começou com a Coco Chanel lançando a boyfriend, ela vai até o guarda roupa masculino e coloca essa peça para mulheres, e ela lutou tanto para tirar o espartilho, roupas apertadas, para que as mulheres tenham mais liberdade e fiquem à vontade usando uma roupa mais larga. A Dior também lutava pelo feminismo, a questão de devolver a feminilidade da mulher. Uma feminilidade de certa forma um pouco meio que agressiva e porque exigia um padrão de beleza da época, pela questão de que a mulher já não estava sufocada. Então ela já começa lá trás na década de 30, essa revolução, esse pensamento da mulher e do homem também. 
 
 Você enxerga alguma resistência do público em relação a moda sem gênero?
 
Fernando: A gente percebe que ainda, um pessoal acima dos 35 anos, ainda tem uma dúvida. Você percebe que está tendo uma mudança no cenário, mas entre os jovens já não tem mais essa resistência, a gente percebe que as meninas vêm e os meninos também, e rodam a loja e se eles gostaram, eles levam. Um dia desses eu atendi um rapaz bem masculino mesmo, e ele viu uma blusa regata feminina, vestiu e se sentiu super bem, super desencanado, não tem essa questão de “não vou usar” hoje em dia, se o jovem veio e gostou, ele leva. 
 
 Você acredita que esse conceito de moda sem gênero já está consolidado?
 
Fernando: Eu creio que ainda não. É um processo que toda moda em si ainda é um processo de desencanar devagar. Contrapor a moda sem gênero tem a sua usabilidade da questão porque hoje a moda está tendo um novo cenário e acredito que esse ano vai decolar outras questões comportamentais na moda. Então a moda sem gênero está vivendo para isso, porque ela não mais limita, sendo assim eu produzo uma peça que pode ser usada tanto para o meu público feminino quanto para meu público masculino. Em contrapartida as grandes Maison estão trabalhando em desfiles unificados, onde não há a semana de moda feminina e a semana de moda masculina, e sim a semana de moda só. Com uma modelagem mais ampla, ou até mesmo ajustável aos dois gêneros. Então tudo é um processo. A moda é uma questão bem social e envolve muita cultura, então é a questão de querer dizer algo para o mundo. Então tem uma ciência humana que trabalha para isso, para todo esse processo. 
 
 Por que em algumas lojas essa moda sem gênero não foi bem aceita?
 
Fernando: Porque estamos trabalhando com moda, não podemos esquecer que não é a mistura dos dois, então acontece isso muito no cenário da moda hoje. A moda sem gênero não é simplesmente como a Coco Chanel fez de estilo boyfriend, que é você pegar uma peça masculina e colocar no guarda roupa feminino. Então a moda sem gênero vai muito mais além do que isso. A modelagem dela já é construída para atingir os dois públicos alvo, então não vai ser uma peça que o cara vai invadir o guarda roupa da mulher e pegar, ou vice-versa. Então é uma peça diferencializada, a da C&A mesmo mostrou uma coisa muito diferente pois eles trocavam de peça e essa não é a intenção. Moda sem gênero são peças que possuem modelagem ampla e ficam bem no homem e na mulher.

Ficha Técnica:

Laura Braga

Luíza Barboza

Maria Carolina Ono

Natália Carolina

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