Antikardec

Um dia de sol, um dia nublado, o entardecer e a noite longa. Essas são as variações de cor do céu que conheço. Não é nada do que vejo, esse roxo claro. Também não é o que essa cidade costuma ser, tão movimentada, e agora, muda. Eu gostava de me sentar de frente para a maior janela daqui de casa e fechar os olhos para ouvir centenas de ruídos ao mesmo tempo. Olho para a avenida do meu apartamento no centro e a vejo abandonada.

No sofá, a jaqueta da minha esposa. Mas não nos separamos? Se veio me visitar, esqueceu aqui. Não me lembro (ela nunca veio me visitar), eu dormi demais, como sempre acontece quando durmo depois do almoço. Tudo do jeito de sempre, exceto pela jaqueta, pela avenida vazia e pelo céu roxo. Vamos lá. Mesa, papel e caneta. Não estou tão preocupado quanto deveria, mas é melhor colocar as coisas no lugar.

17 de março. Sexta-feira. Pedrão pede o item mais caro da cervejaria, A Abadessa, que nos é servida pela garçonete como uma professora do maternal faria aos seus pirralhos alunos. Fala do gerente que contratamos, e depois da morte da avó. Ouço, não respondo, e me entrego ao aroma d’A Abadessa. Era o meu primeiro dia em casa depois de quase um mês entre hotéis e pontes aéreas. Na contramão do senso comum, Pedrão é um bom sócio, mas eu realmente não conseguia prestar atenção no que ele falava.

Me levanto e vou passear entre os tonéis. A visão escurece, como acontece quando a pressão cai. Não era culpa da única taça que tomei, e sim do meu péssimo hábito de me levantar depressa demais.

18 de março. Sábado. A pouca ressaca não me impede de ir correr. O sol não me esperou, e quando toquei o asfalto, o quarteirão já estava em brasa. Um forte cheiro de óleo, concreto e poeira me ataca a mente, mas não consigo escrever mais nada e já me cansei de forçar a memória.

O bom Pedrão estava tão feliz que me fez levar uma daquelas cervejas caras pra casa. Onde está você, minh’Abadessa? Ou era uma Cirilana? Ainda não almocei e uma de trigo cai bem. Antes de alcançar a geladeira sou desviado para atender a campanhia. Finalmente, uma alma viva. Um homem alto, camisa, cinto, calça e sapato. Todas as peças são brancas. Não é nenhum dos vizinhos e nesse prédio não temos porteiro.

“Nada melhor do que a casa da gente”, esse foi o seu cumprimento, acompanhado de uma risada e a expansão das grossas sobrancelhas. “Antônio, não é? Como foram os últimos dias?”, “Você trabalha aqui?”, precisei perguntar antes de confessar que não me lembrava direito dos últimos dias. “Eu estou sempre trabalhando — mais uma vez, a risada, que era até bem amigável — sou o Waldo — e aponta para si mesmo — Vamos dar um passeio, acho que você está de saco cheio desse apê.”

Waldo me garantiu que nem mesmo a minha carteira seria necessária no passeio. Atravessamos o corredor em direção aos elevadores, mas ele passou direto e acessou as escadarias. Pergunto se aconteceu algum acidente e precisamos evacuar o prédio, mas sua resposta me faz errar um degrau: “Não. Você morreu, é isso. Dessomou”. E dessa vez sorriu somente com um canto da boca, sem mostrar os dentes, os olhos vivos e as sobrancelhas grossas arqueadas, em algo que oscilava entre a compaixão e o divertimento. “Não adianta, vocês são muito desavisados. Já ouviu aquela? O corno é sempre o último a saber? Os mortos se parecem muito com os cornos.” E não riu, e tirou um chapéu de fazendeiro branco não sei de onde e o ajeitou na cabeça, que agora revelava tons de grisalho.


As escadarias do meu prédio deram para o quintal de uma casinha do interior de Minas (eu acho), e nessa casinha acontecia uma espécie de encontro de benzedeiras, com várias pessoas se aproximando pelas duas entradas. O céu continuava roxo e a fadiga de percorrer treze andares pelas escadas de emergência me fizeram desmoronar na grama seca e amarelada. Waldo olha de cima (sorri mais uma vez, é claro) e dispara mais um de seus gracejos: “Você gosta desse trem de desmaiar, hein”. E olha para o meu ombro direito como se estivesse lendo algo: “18 de março. Sábado. 11:47. Hora exata do desmaio. A dessoma deve ter demorado mais uma hora e meia. Soma, corpo. Dessomar… você imagina. Apesar disso, na crosta já é 23 de outubro. Mas tudo bem, tudo ótimo na verdade, já levei oito anos para encontrar um outro desavisado que nem você.” Crosta? Achei que esse homem fosse um médico, mas já estava falando como um geólogo.

“Você sabe que tem o mesmo nome do seu tio, né? É um homem que não pára de trabalhar desde que dessomou, e não pude negar esse favor a ele. Mas aquelas ideias suas, Tonim (você é o Tonim e o seu tio é o Tonhão, agora, tá?), aquela preguiça que te pegou depois do divórcio, te fizeram afundar na cama do hospital (não é figura de linguagem, o seu psicossoma praticamente derreteu no colchão), e precisei dar uma de Sherlock pra descobrir que você tinha voltado pra onde? Pro apartamento! Vai gostar de um sofá e duma televisão. Mas bem, está ótimo, como eu disse. Existem destinos piores, inimaginavelmente piores. Apruma o corpo, rapaz! Tonhão está chegando aí.”

A própria fala de Waldo me fez dar um salto e esticar as costas. Apesar de parecer ao menos uns dez anos mais jovem do que eu, se dirigia a mim como um senhor se dirige a um adolescente. O céu roxo claro já tinha escurecido bastante e eu imagino que estávamos em uma espécie de crepúsculo daquela estranha palheta celeste. A casinha estava toda iluminada por dentro e grandes filas de jovens, velhos, moças e senhoras, com trajes da roça e trajes da cidade, se enfileiravam em caracol ao redor da casa para tomarem parte em algo que acontecia do lado de dentro. Uma cantoria, que logo entendi como uma oração comunitária. “Não largam essas manifestações, mas é o jeito”, comentou Waldo como que para si mesmo, “chega logo, Tonhão”. Quando olhei para as luzes amarelas e trêmulas que transbordavam da casa, percebi que sentia muito frio e que o menor passo em direção àquela reunião me acalentava, mas Waldo me segurou pelo punho. “Não é a sua praia… Quem são eles? Dessomados e ressomados. Os que vivem chegam aqui por sonho. Todos com essa bobagem de igreja, de reza, de Ave Maria. Você já não era supersticioso e não vai ser agora que vai começar.”

“Pra mim era o sobrinho mais esperto, Waldo, mas acabou que foi o primeiro da família a dessomar saindo pra correr na rua dez e meia da manhã, com o sol rachando, de ressaca, dois meses depois do doutor ter avisado sobre o problema de pressão.” E o fim do carinhoso deboche me vem com um tapa nas costas tão forte que algumas pessoas do caracol de preces desviaram levemente seus olhares em nossa direção. “Tio Antônio”, e agora eu entendo, caindo de joelhos e com uma dor intensa no peito, que morri.

“Não se desespere”, me pedem os dois amigos, em uma só voz.


Braços e pernas tão pesados que já não os sentia mais. Mas o pior é o frio. Tá frio de mais aqui. Você é a enfermeira? Se parece tanto com a garçonete da cervejaria. Pára de rir da minha cara, sua desgraçada! Tá frio, tá frio de mais.

“O desespero é um pecado mortal, sabia? É a sombra, o oposto da esperança. Não nos é permitido largar a esperança, e isso é um sinal do amor do Pai.”

Centenas de enfermeiras-garçonetes desfilam agasalhadas ao redor da cama. Suas cretinas, saiam daqui! Ela não é mais minha esposa, mas vai sentir ciúmes.

“Não se desespere.”


Hoje é o meu aniversário de morte. Quase nada mudou, e na verdade, parece simplesmente que eu regredi à infância. Sempre ignorante, sempre dependente, morando não mais com os pais, mas com o tio. Um dos maiores mistérios, para mim, é o fato do Tio Antônio estar com a sua aparência de 30 e poucos anos (ele morreu aos 79), enquanto eu mantenho os quase 50. Estamos em Vespertina, o que eles dizem ser a maior colônia espiritual sobre o centro-oeste brasileiro, e na verdade se parece muito com Uberlândia. A maior diferença é a cor do céu e a ausência de qualquer veículo motorizado ou comércio. É também muito mais arborizada do que qualquer outra cidade grande que eu conheci. Nunca saí daqui, meu tio diz que preciso entender melhor essa situação para que possa ajudá-lo no “trabalho” que é feito fora da cidade. Mas dentro tem trabalho também, e há sete meses sou um garoto de recados que passa os dias cruzando ruas largas para levar mensagens e documentos para casas onde funcionam escritórios com nomes difíceis de serem levados a sério. “Escritório de Desocultação”, “Apoio aos Descaracterizados por Acidentes”. Morri empresário e me tornei um office boy da burocracia fantasmagórica.

“Acho que estamos no inferno”, disse uma vez ao meu tio, e pela primeira vez ele me respondeu com frieza, “não diga isso.” O meu incômodo com o estranho funcionamento da cidade o deixava impaciente e nessas horas eu via de relance o homem bem mais velho que ele foi uma vez. A explicação que ele e qualquer pessoa em Vespertina me dava era sempre muito parecida: todos nós iríamos nascer de novo, em um novo corpo, e seríamos outra pessoa. Na verdade, já fizemos isso incontáveis vezes. Todos esperavam por esse dia e todos diziam estar trabalhando humildemente para merecer a reencarnação. Faziam planos que envolviam familiares, amigos e até inimigos vivos e mortos, o que tornava o constante tom de saudade de Vespertina ainda mais melancólico.

A cada três dias, passava a manhã na companhia de um homem conhecido e respeitado na cidade, Lúcio, que com boa vontade me levava a diferentes locais e me oferecia palestras caminhantes em doses homeopáticas. Suas vestes eram muito parecidas com as de Waldo, mas parecia ainda mais jovem e não usava um chapéu, mas um lenço (branco) que circundava o pescoço. “Os budistas e hinduístas chegaram muito perto da realidade espiritual ao compreenderem o samsara. Eles erraram ao supor um ciclo de reencarnações aleatório, ou simplesmente guiado pelo karma mais recente. Não. Nós evoluímos, não há nada aleatório. Por mais penosa que seja a sua próxima vida, não duvide que estará em uma posição melhor do que essa última, porque é um oportunidade de crescer, de ser melhor, cada vez mais.” E esperou uma resposta minha, mas eu não disse nada. “Penoso está agora”, pensei, e imediatamente ele se virou e respondeu: “Era pra ser diferente? Se as coisas em vida não estavam no lugar, porque estariam aqui?”

Percebi que conversávamos por pensamento desde o início da caminhada, e antes que isso me surpreendesse, tive que concordar com o que ele acabara de dizer. “Vê aquela estrela amarelada? Não é uma estrela, e na verdade está na órbita da Terra, como nós. É outra colônia, chama-se Amanda. Eu morei lá por um bom tempo até que estivesse pronto pra trabalhar aqui. Assim como está em maior altitude, maior é o nível de entendimento e bondade daqueles que a habitam.” E me espantei por nunca ter visto essa imensa tocha amarela no céu. “Mas é normal que ela não apareça. Amanda está em festa, é uma ocasião especial. Ela brilha assim pois precisa alterar a sua forma para receber as visitas. Nos dias que virão, os mensageiros de Índica (uma colônia tão sublime que está a milhões de quilômetros da Terra) trarão instruções para os próximos passos de Amanda, o que significa também, os próximos passos de Vespertina, que está sob sua tutela.” Lúcio mexia os lábios ao mencionar Índica e percebi que esse evento o enchia de ansiedade e admiração. “Não duvido, meu amigo, que as notícias das cidades superiores farão um trabalho muito melhor do que o meu para desfazer a confusão que sente hoje”, completou antes de me deixar em casa.

A noite, me lembrava da minha ex-mulher. Não tivemos filhos e vivemos muito bem por cinco anos até que a esterilidade dela foi confirmada pelo terceiro especialista. Nunca consegui explicar para amigo, parente ou conhecido porque nos separamos, porque o motivo não era mesmo algo objetivo. (Da minha parte, podíamos adotar uma criança). Essa lembrança me fazia dormir, e era comum adormecer sem ter comido algo por toda a tarde. Aqui, a fome, a sede e o sono seguem regras ainda muito estranhas, mas já entendi que só sinto uma delas quando me lembro da Terra, ou mesmo quando imagino coisas sobre o mundo dos vivos. A menor distração alivia o sofrimento, fazendo com que os cestos de frutas e pães sobre a mesa sejam levados para outros lugares, onde parecem morar pessoas com menor facilidade de se desligar das lembranças terrenas. Eu mesmo já levei cestas de comida a outras casas da vizinhança, e em uma dessas visitas, conheci um senhor verdadeiramente decrépito, mas lúcido e conversador. Não era brasileiro, mas dominava o português com extrema fluência. “Sou francês, mas cresci na Inglaterra. Me chamam aqui de Hilário, é mais fácil, pode me chamar assim também”. Não se lembrava como chegou no Brasil, mas que foi somente depois de morrer. “Esse… mundo espiritual… é como uma paisagem que se alterna na velocidade do pensamento. O corpo físico torna nossa percepção lenta, mas aqui nada nos atrasa. Somos atraídos a situações, pessoas e locais pelo pensamento, e nada mais. O problema é que não conhecemos todos os nossos pensamentos, o que nos limita, e aí ficamos encalhados em um lugar por muito tempo”. Seu jeito de explicar as coisas era muito diferente do de Lúcio. Não havia entusiasmo, e era o único que nunca mencionava o retorno à Terra.

Hilário morava em um casebre e todas as paredes — até de boa parte do lado de fora — eram cobertas por folhas de caderno preenchidas inteiramente por sua caligrafia. Foi um historiador em vida e não conseguia largar o ofício. “Não escrevo sobre Vespertina, não há nada para ser registrado aqui. Essa cidade não existe. Eu escrevo sobre a Terra, a Terra existe. Tenho livros que nunca tive a chance de publicar por lá e vou me lembrando deles aos poucos, e vou melhorando os capítulos. Te interessa a chegada da língua latina à Hispânia? Está na cozinha, comece pela porta que dá pro quintal”, levantei a mão esquerda, como que pedindo para ele parar de falar, “Como assim, Hilário? Vespertina não existe? E Amanda? E Índica?”

“Não prestou atenção? Somos reféns do nosso pensamento. O desejo e o intelecto reunido de milhões de almas, direcionado para a necessidade de uma cidade, criam essas colônias. Já estive em Amanda, em Índica e voltei pra cá. Pude fazer essa viagem quando me esforcei para comprar a ideia desse movimento religioso e pseudocientífico tão popular no Brasil (mas o responsável é meu conterrâneo), e lá, compreendi que uma autoimagem de sabedoria científica e o esforço tardio em seguir os passos do Nosso Senhor de fato podem produzir cidades flutuantes belas e agradáveis. Mas é só isso. A morte continua como imperativo do que somos agora. Me partia o coração ver tanto esforço em ‘evoluir’ tentando cobrir o desespero de ter perdido o tempo precioso da Terra. Não me leve a mal, eu perdi o meu também”.

Percebi que ele atacava diretamente todo o conhecimento compartilhado pelo meu tio, Lúcio, Waldo e todas as outras pessoas que conheci em Vespertina. “São boas pessoas, Antônio, o problema está na crença de que poderíamos resolver tudo sozinhos. Em vida, somos autocentrados, até acreditamos em anjos e certos aspectos do Nosso Senhor, mas no íntimo os submetemos às nossas preferências e limitações lógicas. Na morte, carregamos o erro, como uma tatuagem moral. Achamos que só porque ainda falamos e andamos e viajamos e encontramos parentes nesses campos oníricos, que temos a capacidade de nos livrar, por conta de esforços próprios, da angústia de uma vida desperdiçada”. Deu de ombros e saiu do casebre: “Chega, já estou falando que nem eles e você não deve estar interessado no meu sermão.” E de fato, a minha estadia aqui era repleta de sermões. Parece que todos tinham decorado uma parte de um grande manual do mundo espiritual e se revezavam para me doutrinar. Não deixei de notar, entretanto, que Hilário era a primeira voz discordante, e a sua dupla menção ao “Nosso Senhor” também foi uma novidade nessa cidade.

Ao voltar para casa, encontrei o meu tio e Lúcio, com um semblante sério. “Hilário está em tratamento, pela caridade dos diretores de Vespertina. Agradeço por ter levado os alimentos a ele, mas ainda não é hora de você passar a tarde com enfermos, pois também é um”, disse Lúcio, com a anuência de Tio Antônio. “É claro que nossos esforços aqui contam, sobrinho, seria muito injusto se tudo se resumisse àquela efêmera vida que tivemos.” E ao olhar para o céu, não localizo mais Amanda, e percebo que, pela primeira vez, temos uma noite escura como um breu, e não mais aquela roxo de beterraba. “Meus Antônios, fiquem em casa hoje. Amanhã dou notícias.” e ajustando o lenço na garganta, saiu pela calçada. “Se eu não aparecer amanhã, sejam pacientes.” E eu não senti fome, e dormi.


Foi como uma noite na Terra. Estava na minha viagem de lua de mel, em uma cidadezinha no litoral da Bahia. Ana se ocupava da câmera fotográfica na pracinha de uma capela, e enquanto ela fotografava a minha caminhada, vi que uma porta lateral da capela se debatia por conta do forte vento litorâneo. Enquanto me afastava de Ana, um frio nada natural se intensificou, mas quando alcancei a portinha, ouvi orações do lado de dentro e o meu corpo recuperou a temperatura.

Não retornei, pois tinha certeza que o calor vinha do meu contato com a frágil porta de madeira. Ouvindo os cantos e orações, imaginei que a morte era um péssimo momento para ser ateu, e me dei conta de que nem isso eu era. Afogado pela vida prática, mal me dei o trabalho de ser, pelo menos, um simples ateu. “Vai querer casar de novo?”, me diz Ana ao me alcançar na capelinha, e me beija na bochecha.


Acordo pingando o calor da Bahia, mas estou no meio da madrugada de Vespertina. Olho para a cama do meu tio e o vejo velho, ainda mais velho do que o Antônio que estava no caixão que eu mesmo carreguei. Está tendo um pesadelo, com o pescoço em chamas, e nem em voz alta consigo acordá-lo. Do lado de fora, um grito de mulher que jamais vou me esquecer: “Eu não acredito!” e um grande tumulto toma a rua, descendo até uma grande praça a três quarteirões. Ao sair de casa, vejo uma procissão atordoada, com velas nas mãos, muitas delas apagadas, e antes de colocar o segundo pé na calçada, um senhor escuro e manco me puxa para o meio da rua. “Vem ajudar, menino!” Sigo a procissão que não canta ou reza, mas discute e grita com um interlocutor invisível. Todos são velhos, até as crianças. Olho para as minhas mãos e estão mais enrugadas do que nunca.

Uma figura baixa e ágil me empurra no sentido contrário dos protestos e ficamos abraçados como uma pedra que parte a correnteza de um riacho ao meio. É Ana, jovem, muito mais jovem do que quando a conheci. “Obrigado, garota”, diz Hilário, surgindo do nada, e me tira do meio da multidão, enquanto Ana desaparece.

“Eu já vi esse espetáculo mais de dez vezes. É sempre assim: acreditam que Índica determina quais são as próximas pessoas a reencarnarem e quando Amanda se ilumina no céu, se deixam tomar pela expectativa de boas notícias. Mas Amanda sempre se apaga, sem contato conosco, o céu escurece e a cidade é desfeita em revolta. Depois se esquecem de tudo, em um delírio coletivo, e armam o mesmo circo.” Suspirou, e nesse suspiro, pareceu jovem e belo. “Custa caro, Antônio, custa muito caro acreditar em uma mentira. Mas que bom que aquela moça estava orando por você. Boa sorte e fique com Deus, rapaz. Da próxima vez, peça pra ela orar por mim também.”

Enquanto assistia, sentado em uma mureta, Vespertina se tornar o lugar mais feio e arruinado em que já pisei, desejei de todo coração voltar para perto da capelinha baiana. E assim se encerrou a minha primeira temporada no Purgatório.

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