Espaço entre um acorde e outro

Zé Beto sentiu um arrepio nos braços e uma contração no tórax enquanto carregava a cela de um cavalo ao meio dia. Alguma coisa na teia diurna dos fatos aconteceu com alguém que ele gosta, alguma coisa ruim. Tinha um coração forte e algum cabelo branco para saber que o peito só doía daquele jeito como sinal de desgraça com amigo, parente ou amor antigo. Mal terminou de lavar a cela no tanque ao lado do estábulo que foi chamado pela mulher para atender ao irmão mais novo no telefone.

O sol sumiu, e sendo agora o único responsável por manter o corpo quente, o sangue subiu e girou em sentido contrário nas veias do velho. Com a mão esquerda segurou o telefone que ecoava a má notícia e com a direita quase partiu a mesa de madeira ao meio, esmurrando com toda a força que um destro pode ter. Xingou, ameaçou, jurou ao irmão que ia a Belo Horizonte resolver aquilo e depois fugia para outra roça que ninguém achava ele lá.

Vivia em uma pequena fazenda e como era o dono dos hectares ao redor podia gritar e esmurrar a vontade, disparando a correria de Marta (a mulher que juntou sua viuvez com a viuvez de Beto), que já buscava um pedaço de algodão para os dedos que sangravam em cima da madeira. Zé ouviu em silêncio o que o irmão terminava de contar e, com a voz fraca, concluiu a ligação com um grave “pode mandar pra cá”. Não quis contar a Marta o que aconteceu, só disse que era para preparar o quarto de hóspedes porque sua sobrinha chegaria na semana que vem para passar uns meses.

Se alguma coisa liga as pessoas além das ondas de rádio e dos impulsos elétricos encapados, foi através disso que Marta teve certeza de que era melhor não saber mesmo o que aconteceu. Algumas coisas são tão ruins que nos fazem perder a curiosidade só de chegar perto de alguém que já sabe. Algo como a perda súbita de apetite provocada por certos pensamentos. Até a chegada da garota, Zé Beto passou os dias de cabeça baixa, falando só o necessário e evitando os olhos de Marta e dos outros homens que o ajudavam na fazenda. Foi buscá-la na rodoviária e após uma longa conversa com o irmão, colocou as malas de Luísa embaixo da lona da caminhonete e pegou a estrada que levava de volta à sua propriedade.

Luísa não falava. Apesar dos dezesseis anos de idade, se curvava como se beirasse os noventa. Seus cabelos castanhos quase loiros caíam em uma franja despenteada sobre os olhos. Os olhos, por sua vez, eram de uma cor que Beto nunca soube que podiam colorir a íris de alguém: cinza. Não cinzentos, como um sobretom ao azul ou ao castanho claro, mas cinzas mesmo, como uma prata fosca. Sem perceber, Beto acelerava muito mais do que precisava e tropeçava por um monólogo desastrado para ganhar a atenção da sobrinha. Luísa mal respondia, olhava fixamente para a faixa contínua da estrada mas Beto achou que não olhava para nada. Achou que tinha ficado cega.

O mês de junho passou devagar para Beto e Marta, devagar porque doía ver a garota remoendo a dor em um silêncio agressivo. Luísa passava os dias no quarto sem dar trabalho algum. Comia pouco, mas não tão pouco que preocupasse algum médico. Dormia muito, e como passaria o resto daquele ano longe de qualquer escola, era difícil arrumar o que fazer numa casa cercada pelo mato. Trouxe nas malas meia dúzia de livros que lia tão devagar que parecia ter medo de cortar os dedos com o papel. Uma noite, teve um pesadelo e acordou todas as fazendas e roças da região. Não que tenha gritado alto assim, mas sonhou algo tão ruim que abalou a teia noturna dos sonhos. Reverberou o sono dos vizinhos como quando um moleque joga uma pedrinha em um poço. Quando Beto entrou no quarto, aí sim a mocinha berrou e se jogou na janela fechada, tateando a madeira escura a procura da tranca. Só se acalmou quando Marta a abraçou e ficaram sozinhas. A menina engasgava, ensaiando um vômito, em demonstração de nojo a um objeto oculto, e sua tia precisou acelerar a sua inteligência, desafiada ao limite, para perceber que a goela da menina só se acalmou após o cheiro de Beto ter se dissipado pelo quarto.

O mês de julho passou rápido. Quando Beto trazia doce de leite para a sobrinha, ela engolia uma peça por obrigação e abandonava o resto na mesa de madeira rachada. Quando Marta a chamava para aprender a cozinhar, ajudava sem interesse por mais que a receita contivesse altas doses de cacau. Tentou cavalgar, mas mal chegou perto do cavalo e teve pavor das formas da cela e não olhou para o estábulo de novo. O velho casal desistiu de tentar agradar e Marta desgostou de Luísa pois não conseguia evitar de a culpar por ter deixado Beto perdido pelos dias. Deixou o desgosto guardado, era velha o suficiente para segurar qualquer destrato, ou acabou ficando velha por ter segurado demais.


José Roberto nasceu na capital mineira mas assim que conseguiu juntar dinheiro para comprar uma casa e um pedaço de terra em volta no interior do estado, mudou-se. Mudou-se porque não gostava de cidade grande mesmo e não queria ver mais nenhum prédio ser construído, achava que prédios faziam um homem ficar mais alto do que o outro. A fazenda de Beto atendia as escolas públicas da região vendendo leite e alguma horta. Nessa de teimar com a velhice e abusar dos músculos, o fazendeiro começou a reformar o armazém sozinho, pois na semana passada tinha deixado de atender a uma creche pelo tempo que levavam para buscar as caixas de tomate em um depósito nos limites da roça. Na segunda manhã de agosto, a teia sem relógio da sorte arrebentou para o lado de Beto e ele caiu de costas em uma viga de aço, perfurando sua bacia.

Dizem os peões que, naquela roça, para um José virar Zé, tem que respirar muita poeira, carregar sua enxada com a maestria dos resignados, e o mais difícil: conquistar a simpatia daquele povo incapaz de delicadezas (“Nascem enrugados”, disse um qualquer que vivia de passagem pelo arraial). Para um Roberto virar Beto, então, tinha que servir para alguma coisa no meio daquela secura toda… Pra que encurtar seu nome se ninguém vai chamá-lo com urgência? Era Zé Beto, e a patente dupla fez com que todos os esforços de quem estava perto para socorrê-lo o levassem para o hospital no município mais próximo. Passou uma semana vestindo aquele uniforme trágico dos internados, recuperava-se rápido e só falava do bendito armazém que ainda não estava pronto.

Voltou para casa e tinha que ficar pelo menos mais um mês de repouso. Marta trabalhava em dobro para cuidar dos negócios da fazenda e tratar do velho, e andava tanto de um lado para o outro que deixava o chão da casa morno. Quando Luísa tocou os pés descalços no chão depois de acordar, sentiu o calor e gostou tanto que decidiu andar descalça o dia todo. Ainda sem falar muito, começou a ajudar Marta mesmo sem que a tia emprestada pedisse e em poucos dias surpreendeu os velhos com a vocação para enfermeira e fazendeira. O pai de Luísa foi à fazenda ver a filha e o irmão acamado. Um café com leite em uma copa improvisada ao redor da cama esquentou tanto o chão da casa que ninguém mais se importava com botas ou chinelos. “Vamos voltar pra casa, filha?”, “Não posso, pai… o tio ainda não tá podendo andar direito.” Zé Beto na verdade já estava bem e sabia que em breve se levantaria e terminaria de reformar o armazém sem maiores mistérios, mas riu e brincou com o irmão: “Não leva essa enfermeira linda que tá cuidando de mim”.

Marta engoliu o ciúme que a espetou (menor do que um girino, na verdade), e concordou. O pai de Luísa disse que tudo bem, e a garota, enfim, sorriu abertamente e abaixou a cabeça para que os cabelos cobrissem o rosto vermelho. Todo mundo se calou diante do milagre e sorriram também, de leve, como sorrimos de alívio.

Zé Beto reparou que os olhos cor de cinza escureceram até ficarem negros e brilhantes como uma jabuticaba. Cabelos de doce de leite e olhos de jabuticaba, essa era a Luísa que tinha sumido por uns tempos. Sabia que a garota ainda tinha muito o que cicatrizar, e que talvez aquele sorriso sumisse no próximo minuto e demorasse mais alguns meses para surgir de novo. Mas e daí? O sorriso não veio? Os olhos mortos não ressuscitaram? Beto e o irmão não podiam se importar com recaídas agora, pegaram seus violões e comemoraram o sorriso de Luísa em segredo, fingindo comemorar a recuperação da carcaça do velho. Não existem relógios parados na Terra, um acorde sempre leva a outro.