“O que aprendi em 3 meses na ThoughtWorks”

Em 2009, eu estava prestes a desistir do curso de Sistemas de Informação. Não estava gostando das aulas e, principalmente, do ambiente que “não era pra mim”. Cansada de ser sempre uma das únicas gurias. Nem precisa entrar no mérito do machismo e do preconceito sofrido, só o fato de ser sempre uma “estranha no ninho” já me deixava incomodada. Antes de entrar no curso, eu não tinha percebido que era algo “de homem”. Pasmem.

Mas neste ano de 2009 um professor indicou que eu experimentasse o processo seletivo de uma empresa muito massa, agile, que estava vindo pro Brasil. O processo seria em inglês, então resolvi me testar. Eu não tinha menor condição de passar, experiência nenhuma, mas queria saber como era o processo seletivo de uma empresa gringa. Durante este processo, uma inglesa chamada Suzy me questionou “o que poderíamos fazer para ter mais mulheres na TI?”. Foi a primeira vez que percebi que eu era representante de uma causa, que eu tinha uma luta a lutar, uma barreira a superar, que eu não estava no lugar errado, o lugar é que estava errado. Eu não passei pelo processo, mas me apaixonei pela ThoughtWorks. Acompanhei a empresa por anos, tentei algumas outras vezes mas, como não sou desenvolvedora, nunca tinha uma vaga pra mim. No entanto, se tem uma coisa que eu acredito, é que se a gente não desistir, se a gente se preparar, uma hora dá. E deu. Oito anos depois, oito anos prestando atenção em metodologias ágeis, em gestão de pessoas em equipes de TI distribuídas, em customer service, em padrão gringo de trampo, melhorando meu inglês e meus conhecimentos técnicos, até que uma recrutadora da TW fez contato pelo LinkedIn: “Acredito que o seu perfil tem tudo a ver com a vaga que temos em aberto. Estás interessada?”.

Eu ocupava um cargo público federal, mas prontamente respondi:

“Sim, to esperando por essa vaga há oito anos, ela é minha”.


3 meses trabalhando na ThoughtWorks, aqui estão algumas coisas que aprendi:

Não existem setores, mas pessoas que fazem coisas.

Claro que todo mundo tem suas funções, e claro que existem times. Mas todas as atividades dependem de PESSOAS fazendo coisas. Precisa de trabalho em conjunto e complementar. Você lança a flecha e acredita que o alvo será pintado. Todas as pessoas estão atentas para fazer o que lhes cabem. Não existe um processo definido, ninguém é obrigado a nada. As coisas andam a partir da certeza de que todas entendem seus papéis e farão o que é necessário pra tudo funcionar. Quando não funciona, o feedback é a ferramenta para resolver qualquer coisa.

É incrível o que se cria em conjunto.

Se você é como eu, é daqueles que acreditam já ter pensado em tudo diante de uma situação. Ledo engano. É em conjunto que se tem as melhores ideias, as melhores percepções. Quanto mais você compartilha, quanto mais você “joga no vento” uma ideia, mais força e qualidade ela ganha. Pessoas respeitando o espaço de fala um do outro, pessoas com um único objetivo de realizar um trabalho incrível, pessoas sem medo de expor seus pensamento e suas discordâncias, de uma forma objetiva, respeitosa e divertida. Na hora do café, por email, chat, num evento específico, no corredor, ou na mesa do bar. Isso tudo e mais um monte de post-its e é possível rodar uma empresa como a ThoughtWorks.

É esperado que você converse com as pessoas.

A ThoughtWorks é um ambiente de inclusão. Você chega em um novo escritório e as pessoas vão te receber, vão te convidar pra almoçar, vão conversar. Em outras empresas você só se sente convidado a conversar com pessoas do seu time, na ThoughtWorks todos estão receptivos. É como trabalhar em um Hostel.

Tudo se resolve.

Tudo é conversável e tudo se resolve. Os tomadores de decisão estão disponíveis para conversar, explicar, discutir e, até, mudar de ideia.

Você vai descobrir que não conhecia diversidade.

Mesmo que você seja a feminista número 1 do Brasil, ou a negra mais empoderada, quando você entra na ThoughtWorks você entra num ambiente onde cada pessoa é livre pra demonstrar sua individualidade, ninguém precisa esconder nada, e você nunca viveu em um ambiente tão diverso. O contato com pessoas com deficiência também vai ser uma experiência de vida e uma excelente oportunidade de exercitar a solidariedade e a gratidão – e entenda: não é nada além da sua obrigação. Você não vai ganhar uma medalha por fazer o mínimo.

Você vai aprender coisas novas todos os dias.

Seja porque as coisas evoluem muito rápido e a necessidade de melhoria contínua e de excelência técnica é imperativa, seja porque você está rodeada de pessoas que sabem muito e sobre muitas coisas, seja porque você vai estar em contato com pessoas tão diferentes umas das outras. Você aprende todos os dias.

Nem tudo são flores, algumas coisas ainda são sementes.

Toda fraqueza é uma oportunidade de ser ainda mais forte. Os problemas são resolvidos, as falhas são conversadas, as brigas são apaziguadas. Seu time é sua rede de apoio para enfrentar as dificuldades e, logo em seguida, você terá feito vínculos de afeto e confiança muito fortes.

Você vai se apaixonar pelo seu time.

Esteja pronta pra novas melhores amigas e amigos, por novas pessoas com quem você vai se preocupar e querer ter por perto. Prepare o coração para amar novas pessoas, pois é inevitável.

Uma empresa cheia de mulheres.

Fortes, lindas, inteligentes, poderosas, competentes, engraçadas, doces e determinadas. Onde prevalece a sororidade e nunca a competição. Onde uma ajuda a outra, com amor e respeito. Onde você tem absorvente nos banheiros, manicure no escritório, time de futebol, happy hour, banheiros sem gênero, grupos de discussão e tudo mais que faz sentido para nós, sim.


Muito me perguntam como tive coragem de largar um emprego “vitalício” por um emprego “incerto”. Oras, vitalícia é a experiência de trabalhar aqui, é a evolução pela qual estou passando e o orgulho de estar realizando esse sonho que está sendo ainda melhor do que eu imaginava.