Contagem regressiva: depoimento de um parto hospitalar

Quinze minutos.

Mais quinze minutos.

É muito ou é pouco, meu filho?

me diga porque esse tempo é seu,

eu sou a sua casa, guardo e aguardo o seu tempo.

Dez, novamente dez,

depois nove, oito, oito,

sete e dez.

Os minutos eu anoto como me mandou o doutor em um papel de rascunho, o verso de uma reunião de trabalho que ficou para trás.

Agora estamos em dez, ou oito, sei lá, acho que dá tempo de checar a mala azul há tanto preparada onde já adivinho seus cheiros.

É domingo, um som de futebol se anuncia, talvez Coríntians e Grêmio.

Cada tempo dura 45 minutos, mas aqui somos eu e você em sete, mais sete, mais oito e sinto seu corpo todo se apertando com medo da partida ou da chegada.

O doutor disse: quando chegar a quatro, vá para a maternidade, estamos em sete, mais uma fralda, a pomada que tinha ficado ainda sobre a pia da cozinha, numa sacola da farmácia que seu pai me entrega com um beijo.

O jogo vai começar, é mesmo Coríntians e Grêmio, o nosso jogo sobre o grama verde. Quem dera eu e você e o céu se abrindo para os seus primeiros olhos, o estádio vazio, eu, você e seu pai: eu bola, ele abraço, você choro. Mas não. É sobre os lençóis brancos de uma maca que sou colocada em quatro, mais quatro, mais três, mais cinco. Você vai chegar no dia marcado, menino-relógio-bola-estrondo.

Logo soro, mas ainda não. Deixam-nos a sós na sala de preparo, papai já volta, o doutor já vem e então você oito, mais oito, mais nove, talvez. E talvez você não queira (e se você não quiser ainda?!). Quem vai ouvir senão eu-casa, eu caixa-sonora de um você sentado e preguiçoso em nove, agora nove sim, parece que foi! e chamo, quase grito pelo seu pai, para dizer que afinal não é o dia, que você não quer, que é tão bom aqui dentro e sim, filho, essa é a sua casa, mas os procedimentos médicos, eles já se armam em torno de nós, e o enfermeiro destrava algum tipo de roda metálica e não me ouve. Movemo-nos pelo corredor branco e entramos: caixa cirúrgica, touca azul, os olhos azuis do doutor. Ele não quer mais, doutor, e agora me conta isso em 10 ou doze, que não é o dia, que não abram, que é bom lá dentro! Só que máscara e soro e uma seringa lancinante e azeda na coluna. Está sentado, é por isso. Preguiçoso, diz o pai, e eu choro em 3, 2, 1, agora que sei. É a sua hora, meu filho, não consegui que eles soubessem do seu tempo como eu, são homens, você sabe, ou ainda não, mas são. E agora sinto os solavancos. Já não conto. Seguro só a mão do seu pai e há um amor imenso onde submergimos eu, você, o doutor, a maca, o soro, o bisturi, a luz brilhante. Luz dos seus primeiros olhos.

Você demora a chorar, seu pai chora antes, eu espero você pousar no meu seio. Está tudo bem.

(conto produzido em oficina de escrita do #desacelerasp dentro da #revoluçãoartesanal. Memória de um parto que aconteceu há mais de 17 anos e que, com tempo, se fez presente).