Estrela, gato, buraco

Por trás dos óculos, as rugas e por trás das rugas, mergulhando cristalino adentro, está a imagem projetada que inaugurou a miopia. Eu o vi pela primeira vez através do buraco redondo do poste de iluminação da quadra. A forma como se sentava, os cotovelos apoiados nos joelhos, o suor abundante, os cabelos, erguidos depois que ele passou os dedos entre os fios, o corpo todo brilhando. Ele me olhou, eu desviei. Anos depois eu saberia que ele também tinha me visto através do buraco. Eu não era míope e ele ainda não tinha a cicatriz no supercílio que ganhou anos depois num outro jogo de handball. Eu o levei até a farmácia para um curativo de pontos falsos e seguramos as mãos, mesmo sabendo que não ia doer tanto assim.

Eu nunca fui boa em esportes, muito menos em handball. Mas enxergava longe e conseguia repetir no ouvido dele as melhores jogadas depois que tudo acabava e deitávamos na minha cama de solteira, pequena demais para dois, mas o melhor lugar para assistir como a tarde iluminava os desenhos do espaldar de ferro e a escrivaninha onde os textos tinham ficado esquecidos. Era preciso desperdiçar a tarde olhando para longe, e para dentro, e para cada curva do corpo um do outro. Só assim era possível desvendar de onde vinha o suor que empapava os lençóis antes que a noite caísse.

Quadrados de luz se projetavam sobre ele no dia em que tudo acabou. Fotografei e guardei na memória: as sobrancelhas arcadas, o rosto molhado, o peito nu e a falta de palavras. As dele e as minhas. Foi depois disso que começou o problema nos olhos. Ele não estava mais na sala nem no quarto nem na quadra, não adiantava procurar, por melhor que eu enxergasse. Então me atirei aos textos, que foram sumindo da escrivaninha e sendo substituídos por outros e outros até atingir a média de 9,15 (e na faculdade não havia aulas de educação física ou artes, então era 9,15 mesmo). Com orgulho, meus pais se convenceram de que a tristeza ia passar sozinha e disseram “quando casar sara”. Não sarou.

Na sala de espera, muitos idosos e umas tantas crianças aguardavam. Aos dezenove anos, quase ninguém tem uma novidade para levar ao oftalmologista. Ou já se sabe da própria miopia, hipermetropia, astigmatismo, ou ainda tomará um longo tempo até que algo atrapalhe a visão.

“O meu? É vista cansada, minha filha.” “Já eu vou operar, já decidi!” E havia aquele moleque com os olhos de inseto amplificados pelas lentes grossíssimas e várias pessoas de quarenta ou cinquenta anos atestando que a idade era implacável aos olhos.

Doutora, as letras, elas sobem umas sobre as outras. Elas se embaralham e depois voltam como se eu estivesse lendo em alto mar. Stress ocular, ela sentenciou me olhando por cima dos próprios óculos. Acontece. O olho perde a capacidade de focar.

Na prescrição, uma estrela e um gato impressos sobre cartolina branca. E ao aproximar do olho, o gato deveria guardar a estrela na barriga. Gato come estrela, estrela não come gato, estrela não pode sumir do papel, não vale estrela ou gato, tem que ser os dois. E depois, o exercício do papel furado: olhar os detalhes da cozinha através do furo, olhar o quarto através do furo, imaginar que ele ia surgir furo adentro, encostado na parede da sala, os cabelos erguidos com as marcas dos dedos formando gomos largos.

Fui aplicada. Um dia, gato e estrela fizerem as pazes e saí do consultório com uma receita de miopia, porque por mais que a gente faça, querida, as vezes o corpo não se recupera.

Comprei óculos redondos como os de John Lennon. Às vezes vejo diamantes no céu. Às vezes lembro dele.