Minha Mangueira fez 13 anos

(ou uma esperança vegetal)


No começo foi foda. Plantei com meu filho de dois anos na expectativa de que ela crescesse linda e eu pudesse lhe dizer como é bom quando a gente se dedica e veja filho que lindo. Mas nada. A árvore teimava em ser triste, frágil, se apequenava até diante de um bando de formigas. Toda a vez que eu a visitava na Casa da Montanha com o meninino, era aquela decepção. E agora mãe o que é que ela tem?


Cuidamos (com certa desesperança de fundo, mas cuidamos).

Dois anos depois (ele com quase 5), encontramos suas folhas carcomidas de alguma praga negra e passamos um veneno qualquer em cada uma de suas folhas. Sim, nossa mangueira usou drogas muito cedo. Não era ecológica, não era bonita, não era frondosa como as de livro. Minha mãe bem avisou que isso de plantar mangueira na Mantiqueira era uma aventura fadada ao fracasso, porque mangueira é coisa baiana, é outro clima. Mas eu achava que devia ensinar ao pequeno a arte da perseverança e mostrar que é possível amar mesmo uma mangueira semi-morta. E ir até o fim com ela.

Um ano mais tarde conseguimos o apoio incondicional do Djalma, vizinho nosso aqui na Serra, e a mangueira ganhou coroa, uma caixa de madeira para proteger a base, uma limpeza de todo e qualquer fungo e um menino de 7 anos que já olhava aquela coisinha hospitalizada com uma certa desconfiança enquanto me abraçava. Acho que tinha mais pena do meu projeto fracassado do que da árvore em si.

A vó dedicou um amor incondicional àquela vida débil desde o primeiro dia: acumulou preces, conversou com nossa mangueira e pode até ter tentado uma intervenção divina com a água benta que a Biza mandava em vidrinhos. E a mangueira sobreviveu engraçada: o tronco pouco desenvolvido gerando várias tentativas de galhos que lhe davam um certo ar ar de arbusto.

Depois, já nascido meu segundo filho, a Vó bordou uma enorme mangueira com menino, cachorro e bola num bastidor colorido e pendurou na parede. Era o encanto que faltava!

Hoje meu filho mais velho tem 15 anos. Não veio para a Casa da Montanha porque, enfim, está interessado em uma menina, que vai num churrasco, que é na casa da fulana, que mora na Serra da Cantareira. Estou eu aqui de guardiã do tempo das pequenas esperanças trazendo a tiracolo meu segundo menino, que na volta do banho de rio apontou a mangueira: estava bordada de pequenas flores brancas que nasceram bem ao lado de um ramalhete de jovens folhas vermelhas.

Vou correndo comprar linhas na cidade e um bastidor novo pra Vó fazer o retrato. Vou me convencer que o trabalho do tempo, ainda bem, tem uma lógica que me escapa.

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