caju e amendoim

A vida é como picolés de caju e amendoim.


Era uma sexta-feira muito ensolarada e, ao mesmo tempo, muito preguiçosa. Como de costume, me desloquei de casa até a rodoviária, e da rodoviária com destino à uma cidadezinha vizinha, lugar onde eu costumava ter aulas de redação. Aquela cidadezinha era o berço da flor de minha juventude.

Só para constar, não estava sozinha.

Fui acompanhada de um colega, meu recém-nascido colega de colégio. Gosto de dizer recém-nascido porque éramos colegas a mais ou menos nove meses. Ele me acompanhava em quase tudo (desde aulas extracurriculares à diálogos profundos). Frequentávamos o curso de redação juntos.

Justamente naquele dia mudamos nossa programação, decidimos desviar o caminho que ia em direção ao curso para passarmos brevemente em um bar. Você deve estar pensando que cabulamos a aula para beber, longe disso. Naquele bar se encontravam os melhores e mais baratos picolés do período inflacionário. O país passava por dificuldades econômicas e os estudantes, bem, os estudantes sempre passam por dificuldades econômicas.

Enquanto eu esperava pelo lado de fora, meu amigo comprava seu picolé, ou melhor, seus dois picolés.

Assim que saiu, ele me perguntou se eu gostaria de provar algum dos picolés. Antes que eu aceitasse, me adiantou que um era de caju e o outro de amendoim. Por curiosidade, provei dos dois. Ambos eram pitorescamente deliciosos! Sem questionar o porquê da escolha pelos sabores, recebi um breve esclarecimento:

— Toda vez que venho até aqui opto por escolher sabores que nunca provei antes. A vida é como picolés de caju e amendoim. São como experiências diferentes para as quais devemos estar sempre abertos.

Confesso que achei a analogia fantástica.

Seguimos em direção ao prédio do curso, tivemos duas horas de aula. Ao final, regressamos à rodoviária para que, assim, pudéssemos voltar para casa. Chovia muito, não era mais como a tarde ensolarada de antes. Conversamos alguns minutos até que o ônibus chegasse. Falávamos sobre coisas profundas, exercício comum em nossos diálogos. Por fim, contei para ele que o maior prazer da minha vida era escrever. Ele, então, me fez uma humilde sugestão que soou como um pedido:

— Escreva uma crônica sobre os picolés.

E cá me estou concretizando seu desejo de me ver escrever sobre seus picolés excêntricos e a beleza das pequenas coisas da vida.

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