a obsessão de Apolo

Apolo tinha a mania de pular as rachaduras da Rua Estêvão Almeida toda manhã em que ia para a escola, de contar quantos carros amarelos cruzavam a sua frente enquanto caminhava e, principalmente, de inspirar três profundas vezes a cada momento em que percebia que estava indo longe demais com essas (e outras) obsessões.

O menino vivia com seus pais, com a avó Benita, com seu irmão mais novo e, é claro, com o transtorno obsessivo compulsivo.

Apolo não sabia o que era isso, nem tampouco conhecia a sigla TOC.

— TOC? O que é TOC?

O único TOC do qual tinha conhecimento era a onomatopeia de quando alguém choca o punho contra uma porta a fim de produzir som. Ora Knock Knock, ora Noc Noc, isso não importava. O pequeno só conhecia mesmo o som.

Curioso e travesso, mas também muito engenhoso, Apolo adorava ler os livros que a avozinha Benita emprestava todas as quartas-feiras da biblioteca municipal para levar até sua casa na Rua das Laranjeiras. A cada semana um livro novo, uma surpresa diferente. Ele nunca sabia qual seria o próximo título que a avó traria.

Quando o jantar acabava, Apolo não queria saber de pudim, nem de canjica ou arroz doce. Subia quase que ofegante (e, certamente, contando os degraus) a escadaria longa e sinuosa em direção ao seu quarto, o santuário das boas aventuras.

Essa semana era Mark Twain que o acompanhava. As Aventuras de Tom Sawyer, Prefácio.

— “A maior parte das aventuras registradas nesse livro realmente aconteceu…”

O menino corria os olhos por entre as palavras, ia longe, longe demais…até que virou três páginas para trás e leu novamente o início do livro.

— “A maior parte das aventuras registradas nesse livro realmente aconteceu…”

Apolo tinha sempre que regressar as páginas para reler o que acabara de ter visto, ele nem ao menos sabia porque tinha essa necessidade tão forte em sua mente. Knock Knock? Ah não! Era o TOC!

— Que diabos! Por que não consigo ler em paz?

Ao final do livro, na semana seguinte, o garoto sabia de cor e salteado as aventuras do pequeno Tom que vivia à beira do Mississipi. E não era apenas com essa, mas com todas as histórias que lia. Apolo era um poço de narrativas.

Quando cresceu, o pequenino, que já não era mais tão pequenino assim, não se livrou do transtorno obsessivo compulsivo, nem tampouco tornou-se um astronauta ou aquele ator bonito da novela das sete.

Apolo viveu tanto que parecia querer chegar à eternidade. Toda uma longa geração teve a alegria de conhecer aquele que era o mais lúcido e sábio contador de histórias da Rua das Laranjeiras.

“Knock Knock”

— Quem é?

Não, dessa vez não era o TOC.

“Knock Knock” mais uma vez.

— Vovô, o senhor está aí? Pode me contar uma história?

(Nesse momento, avozinha Benita suspirava orgulhosa no céu).

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