invariável

Saí da sala de aula. Calei-me. Calei-me até chegar ao ponto de ônibus. Minha mente gritava.

Gritava palavras de culpa em um momento em que nem mesmo anjos de papel poderiam acolher meu corpo com delicadeza e me embalar até o profundo descanso.

As pessoas falavam sobre bancas de mestrado, meu “eu” falava sobre como chegaria em casa antes do almoço sem que meu estômago se preenchesse de angústia até que eu, infelizmente, não fosse capaz de fazer minha segunda refeição do dia.

Palavras.

Palavras preencheram meu vazio pois a escrita parecia, naquele momento, ser uma tarefa muito mais atraente do que estudar sobre cultura da Roma antiga.

Entrei no circular. Um velho senhor me olhou com indiferença.

Me olhou com a indiferença de alguém que, assim como eu, mexe no celular sem perceber que os polegares se movem quase que involuntariamente.

Talvez ele esteja escrevendo no bloco de notas assim como eu.

Como eu, todos nesse ônibus podem estar indo para um lugar horrível. Indo para um lugar em que suas camas tentam confortar seus corpos em vão, ao mesmo tempo que as escrivaninhas acolhem suas almas. E como acolhem.

Acolhe, chacoalha, balança, revigora. A escrita me revigora.

Vivo com a pulga atrás da orelha pensando no porquê de os meus pensamentos me incomodarem tanto. Pensamento compulsivo se chama isso.

Não estou nem perto da Avenida Quinze de Novembro, lugar onde fica minha pequenina casa de um cômodo só, e já posso dizer que refleti dentro desse ônibus mais do que em todas as consultas psiquiátricas em que estive.

O velho senhor sorriu para mim ao sair do ônibus, presumo que estávamos de fato fazendo a mesma coisa ao digitar no celular.

Naquele dia não almocei, não olhei para os lados ao atravessar a rua e nem mesmo me aborreci com a sujeira que a baba açucarada do morango que eu havia levado de lanche fizera em minha mochila. Tamanha era minha concentração com a reflexão que estava desconstruindo.

Não estou interessada em falar a respeito de um dia qualquer, nem tampouco sobre um regresso de vinte minutos até meu quarto-cozinha-banheiro. Essa é a invariável melancolia de uma jovem que não está suportando o peso da vida e teme que ela a esmague até a morte.

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