Kafka me ensinou a amar os livros

Franz, caro Franz, como gostaria que você estivesse lendo isso agora.


Era uma tarde muito, muito chuvosa. Saí do meu apartamento com o mesmo ímpeto que uma formiga sai das rachaduras da cozinha em busca de doce. Eu de fato estava à procura de açúcar.

Caminhei três quarteirões e violá, eis que surge na minha frente um sebo. Eu o havia notado em outras ocasiões, mas nunca me aventurei a entrar.

Pois entrei.

Meu nariz coçava por conta da rinite, eu sentia na pele a poeira de séculos e mais séculos de escrita de qualidade. Não dava a mínima importância à alergia.

Acredito que eu tenha passado mais de meia hora dentro daquele amável lugar. As paredes eram infinitas e os livros pareciam formar peristilos devido ao seu perfeito encadeamento.

Li títulos e mais títulos que pareciam interessantes, mas que não foram capazes de me despertar nenhuma vontade de gastar alguns dos trocados que tinha no bolso.

Abro livro, fecho livro, dou uma olhada, ando mais um pouco. Era impossível checar todos os exemplares com maestria e ao mesmo tempo rapidez.

Finalmente um livro me chama atenção, era Kafka, Franz Kafka. Um exemplar sujo e malcuidado de O Processo.

Era meu. Aquele livro era meu antes mesmo de sequer conhecê-lo.

Não era um livro bonito aos olhos de quem via, mas me parecia o mais agradável exemplar cor-de-rosa queimado que já havia visto em toda minha vida. Resolvi levá-lo para casa.

Comecei a leitura minutos depois de comprá-lo. Fazia muito, muito tempo que um livro não me fascinava como esse. A cada página que eu lia, precisava ler mais outra, e outra, e depois outra. Eu consumia ele assim como ele me consumia.

Depois de Kafka, comecei a planejar livros que gostaria de ler até o final do ano, e peguei-me questionando porquê nunca havia feito algo assim antes. George Orwell, Aldous Huxley, Winston Groom…a lista só foi aumentando.

Hoje, quando me deito na mesma cama em que devorei as páginas de O Processo, sinto orgulho de ter sido essa a obra que me abriu as portas para o maravilhoso mundo da literatura.

Devo muito a você, Franz. Meu eterno e querido Franz Kafka.