Papai Noel e Joyland

A gente acha que é alguma coisa e não pode mudar. Não sou uma pessoa afetuosa. Nem é por falta de vontade, mas porque fico travado com medo da reação dos outros. Que talvez me achem indevidamente carinhoso, exagerado, que certas palavras de afeto não casem com a relação que eu tenho com alguém, que me achem meloso, brega, etc etc etc.

Estou lendo Joyland, do Stephen King. O protagonista vai trabalhar num parque de diversões e uma de suas primeiras atividades é se fantasiar como um enorme cão de pelúcia. Não o instruíram, ele não sabe o que fazer, apenas o orientam que “as crianças vão saber o que fazer”.

Lembrei de um Natal. Ceia na casa do meu irmão, várias crianças da família da minha cunhada e os meus sobrinhos no meio. Cheguei lá, já me puxaram prum canto e falaram baixinho “você vai ser o Papai Noel". Oi?

Mães e pais faziam um ratatá pra contratar um Papai Noel nos anos anteriores, mas crise por aí, todo mundo meio duro e já me escalaram. Fora meus sobrinhos, eu era o adulto mais desconhecido pras crianças, então chance menor de ser reconhecido. Mas o que eu faço? Fala hohoho, senta e distribui presentes. Putz, senti que estava fodido. Fora meus sobrinhos, não levo muito jeito com crianças, especialmente as menores. Minha sobrinha tem 11, ja não acredita em papai Noel tem tempo, e meu sobrinho tem 6. Converso com eles, brincamos, nos entendemos. Mas criança de 2, 3 anos, eu não sei o que fazer. “Ah, é fácil, na hora você vai se dar bem”.

E lá fui eu me vestir num quartinho dos fundos pra sair pela cozinha e entrar pela porta da frente. É divertido, apesar daquela roupa nada condizente com o verão carioca e aquela barba pinicando. E a criançada naquela expectativa. Umas 8 crianças? Por aí. Qualquer barulho na porta já saíam correndo pra ver se Papai Noel havia chegado.

Lá fui eu já preparado pro corredor do prédio, me entregaram um saco enorme de presentes, me largaram lá, entraram no apartamento e falaram pra eu tocar a campainha. Socorro.

Toquei a campainha, gritaria de crianças, pais botando pilha “será que ele chegou?”. Aquelas pessoinhas, que mal alcançavam a maçaneta, abriram a porta e lá estava eu, o Papai Noel tímido, já empapado de suor e forçando uma voz HOHOHO OLAAAA, CRIANÇAS!

Elas ficaram estáticas. Olhos arregalados. Não acreditavam. Algumas vieram abraçar minha perna, outras começaram um chorinho emocionado e chegavam devagar, sussurrando, “é o Papai Noel…”. Fico até embargado escrevendo isso, relembrando aquele tanto de amor. Amor de criança né. Não era pra mim, mas quem se importa? Vou aproveitar.

Eu lá, o travadão que mal consegue abraçar a própria mãe, me soltei. Abracei todas, abracei apertado mesmo, pedi beijo na bochecha, distribuí beijos na testa, brincava, ganhava mil sorrisos de volta, perguntava se queriam presentes, afinal eu tinha vááários! Mas não queriam presentes. Tá, claro que queriam, mas depois. Agora elas queriam Papai Noel, então Papai Noel elas teriam.

Fui coberto de amor e eu retribuía com meu amor. Não era do personagem, não era inventado. Como não amar crianças que derramam amor em cima de você? Foi mágico e posso falar que foi um dos momentos mais bonitos que vivi. Ser a encarnação do sonho de tantos pequenos.

O personagem de Joyland sente o mesmo na fantasia de cachorro. Dança e diverte a criançada, rola com elas pelo chão, é coberto de amor. E as palavras do King cabem melhor que as minhas.

Mexi as patas para conseguir abrir espaço, rolei e me levantei antes que elas me esmagassem com tanto amor. Embora, naquele momento, eu também as amasse.
Papai Noel e sobrinha já descrente nos bastidores.
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