Ela tinha cara de puta cansada de esperar. Abalroada num poste do decrépito porto de Cartagena das Índias, deitava um olhar perdido no tédio que cada homem rude trazia para sua cama todas as noites. Seu corpo desatado pelo tempo era indiferente ao calor daquela noite. Nem o mar do Caribe se perdendo no negro à sua frente conseguia amainar aquele abafado de quarto fechado.
Sua roupa não condizia com seu ofício. Não havia a vulgaridade das concorrentes que disputavam território e combatentes. Trajava um vestido solto, do mesmo roxo desbotado que esvaziava da taça com goles indiferentes. Seus movimentos lânguidos eram a marca de uma batalha que jamais venceria. Virava o rosto vagarosamente para acompanhar os passos de potenciais negócios, os olhos piscavam lentamente, numa mistura de embriaguez e desalento, emoldurados em maquiagem desleixada, distantes de serem confundidos com uma tentativa sedutora de comércio. O destino gravado a ferro quente no seu ventre deixava claro: já havia passado por todos os bordéis da cidade desde seus 12 anos. Não havia homem casado que não tivesse procurado seu colo quente, seus lençóis mais secaram lágrimas do que se molharam do suor sôfrego dos solitários.
Desencostou do seu porto, jogou o resto de vinho ao mar numa oferenda sem fé e juntou-se a um velho pescador que a maré lhe trouxe. Deixou-se apalpar nas nádegas outrora firmes e caminhou com os últimos passos arrastados de criança que nunca quis ser bailarina.
