Eu tinha acabado de entrar na faculdade, era 2005, tinha aquele olhar tonto que todo calouro ostenta, de criança aprendendo com os olhos. Tinha um grupo de meninas gatas, sentavam juntas, saiam juntas. Aquele grupo que eu e meus amigos comíamos com os olhos e pensávamos “ah se eu tivesse uma chance…”. Tínhamos medo até, aquele grupo de garotas inalcançáveis, que intimida os casca-fina de vida. Um delas era a Aline, uma loira magrinha, com um sorriso que me elevava um centímetro do chão, juro, eu devia levitar um pouco, a sensação era clara de me desprender um pouco do chão. Mas ela tinha namorado, havia entrado na faculdade já namorando há uns quase dois anos, aqueles relacionamentos que começam no colégio e vão tomando caminho pela vida devagar e sempre.

Então aceitei aquela fatalidade e fui tentando me distrair com as solteiras, mas sempre com um pensamento mais a frente, “é natural dos namoros acabar, uma hora acaba”, numa paciência de urubu sobrevoando carniça (sutil né), à espera do namoro findar. Mas eu sequer falava com ela, não éramos amigos, apenas dividíamos a mesma sala e eu era o lerdo com vergonha da própria sombra. Como iria falar com ela? pra pelo menos plantar a semente de uma amizade que pudesse ser desenvolvida no momento certo.

Era época de MSN e o ócio dos calouros era forte nas férias, sem estágio e grandes preocupações… a galera criava chats pra falar besteira, fizemos um da nossa sala. Alguém a convidou, ela apareceu, “putz, é uma chance”. Falei um oi, a língua travou pelos dedos no teclado, ela logo ficou offline. Puta merda. Mas fiquei sabendo o email dela, então… quer saber? Adicionei e vamos ver no que dá. Não me lembro ao certo, mas em alguma das madrugadas online e após outros chats, criei coragem e comecei a puxar papo numa janela privada.

Aí que o barraco desabou né, gamei. Ela era a simpatia que aquele sorriso revelava, curtíamos as mesmas coisas, o humor dela encaixava certinho com o meu. Aí não dá pra segurar a onda, como resistir à uma mulher que te faz rir solto? Porém, mal as aulas voltaram, eu tive uma crise “quero mudar de curso” e larguei a faculdade. Pessoalmente tínhamos falado pouco, mas o suficiente para jogar gasolina na fogueira em que me meti.

Continuei conversando com ela pelo MSN e era sempre aquele mesmo ânimo e vontade de se perder nas horas conversando. Longos meses se passaram, as conversas ficaram esparsas… esses problemas que a distância e o tempo causam. Até que o barraco desabou uma segunda vez, ela conta que terminou o namoro. Aquele namoro que parecia interminável, porra, obrigado São Judas Tadeu! Tentei incrementar as conversas com toda a graça e a habilidade de um hipopótamo de saia dançando balé. Mas ela pelo menos achava graça e assim íamos, até que surgiu um bom gancho.

Ela morava em Niterói, falava de uns lugares bacanas na cidade, o Museu de Arte Contemporânea, o Forte Santa Cruz, eu disse que não conhecia, mas que tinha vontade… por quê você não me leva lá? Seja a guia do carioca perdido além ponte Rio–Niterói! E ela topou toda animada! Putz, ela 1) TOPOU! 2) ANIMADA! É agora, Luiz, bola quicando na frente do gol, é só empurrar pra dentro! Marcamos sábado.

Aguardei pelo final de semana numa contagem regressiva de Réveillon, olhava previsão do tempo toda hora com um tremendo cagaço de bater uma chuva, buscava sinais nos longos papos pra me sentir confiante de que ela também queria algo mais, fantasiava o já eminente namoro, eu lá indo pra Niterói todo final de semana, fazendo a travessia de balsa com a paixão de um marinheiro voltando pra amada. Treinava conversas imaginárias pra, na hora H, não soltar nenhum balde de água gelada na fogueira que tava típica de São João hardcore!

Mas não foi São Pedro, São João, nem São Judas quem me atrapalhou, foi o Felipe, irmãozinho que ela teria ficar de babá naquele sábado, já que os pais viajariam e sobrou pra irmã mais velha. Puta que pMAS tudo bem, bola pra frente, marcado sábado que vem? Claro! Topou animada ainda, TEMOS UM JOGO.

A ansiedade batendo forte em mais uma semana arrastada até que… na quinta-feira ela me avisa que voltou com o ex. Oi? Como? Tá de brincadeira né? Não… daí pra frente tive um apagão na memória. Não lembro dela explicando a volta, de como acabamos desmarcando o encontro… minhas memórias seguintes são nebulosas, essas memórias doloridas o coração tem a bondade de arrefecer alguns detalhes.

Até que um belo dia, talvez um pouco mais de um ano depois, eu estava bêbado e mandei uma mensagem pra ela me declarando. Essas merdas que a gente faz na fossa, bebendo com os amigos e lembrando “cara, eu tive uma chance com ela…”, e aquele seu amigo amigão bota pilha pra você mandar uma mensagem. Foi um email, na verdade. Ela respondeu um longo texto, falando de como éramos bons amigos, como era gostoso conversar comigo, como queria ter saído comigo, pois estava bem interessada em ficar comigo (“me confessando! hehe”, ela disse). Porra, meu mundo caiu. Preferia morrer com a dúvida. Preferia ser enterrado cogitando a possibilidade de ser apenas uma friendzone. Preferia levar pro túmulo esse arrependimento de não ter tido coragem suficiente pra ter chamado pra sair um final de semana antes. Doeu, tratei de esquecê-la e me afastei.

Uns seis anos atrás fui procurá-la no Facebook e me deparo com uma foto linda, ela vestida de noiva, beijando o marido, aquele mesmo ex com quem reatou. Mas doeu de novo e doeu soco no estômago, viu… porque, ainda por cima, ela estava absolutamente linda naquela foto, num beijo de cinema, de quem era, está e será muito feliz. Antes eu sabia disso, com a ciência do fato, agora eu torço: que ela seja muito feliz.

https://youtu.be/qtsNbxgPngA

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