Lembro de um término de namoro que ficou se arrastando um tempo. Terminamos, mas continuamos ficando volta e meia. Eu já estava saindo com outras pessoas, mas ela me procurava e a gente ficava. Eu achava que bastava ser sincero para me eximir de qualquer culpa: “transamos de vez em quando, só isso, não tenho intenção de voltarmos a namorar”. Não era o que ela queria, mas aceitava a situação, até que perguntou se eu estava ficando com outras pessoas e aí minha sinceridade foi pro cacete. Incrível como nós enganamos pra nos sentir menos mal com as babaquices que fazemos aos outros. Pra ela havia importância, media a esperança de que pudéssemos voltar. E eu dizia que não estava ficando com ninguém, achando que não devia essa satisfação a ela, que falar a verdade a magoaria de maneira desnecessária, “o que os olhos não veem o coração não sente”. Não havia mais relacionamento sério, então estava dentro da “legalidade”.

Continuamos nessa mais um tempo e ela me botou na parede, enfim contei que estava ficando com outras pessoas, desde antes da primeira vez que ela perguntou. Acho que nem preciso contar o quanto ficou irritada comigo né, mas ainda assim continuamos ficando. Ah, isso foi em 2010.

Pequeno parênteses: anos mais tarde, saí pra tomar uma cerveja com uma amiga que contava um término de namoro sofrido que teve. E lembrei que eu me eximia de culpa enquanto falasse “estamos só ficando”. Tomei bronca, ela achava que eu tinha responsabilidade e que devia me afastar, por mais que ela aceitasse minhas condições, pois era a parte fraca que estava se subjugando na esperança de que algo mudasse. “Mas eu não mentia, não fazia chantagem, não obrigava… eu era sincero e ela escolhia aquilo”. Mas ela ainda estava envolvida demais pra escolher algo. Eu sabia disso e não assumia a responsabilidade, uma responsabilidade que não acaba porque o namoro acabou. Cativamos aquele sentimento e não podemos nos abster dele porque não nos interessa mais.

Bem, fecha parênteses, eu e a ex continuamos nos anos seguintes ainda nessa de transar, mas sempre havia uma briga e nos afastávamos. Minha conduta após o namoro deixou um rancor grande que sempre aflorava e as brigas eram certas. Certa vez, já em 2015, tentando aparar as arestas desse problema, ela me contou detalhes do que havia se passado naquele 2010. Eu me recordava pouquíssimo. Momentos que fui bem babaca e eu não lembrava de nada. Como assim? Tem aquele ditado né, “quem apanha nunca esquece”. Eu que bati, então pouco ligava que alguém estivesse “apanhando”.

Não fiz isso só com ela e percebo o quanto eu pouco lembro das vezes que fiz alguém sofrer quando achava não ter culpa do que acontecia. Eu deveria assumir responsabilidades por mais que achasse não ter feito nada errado. Era alguém que gostava de mim e não estava bem, eu devia ter cuidado e me preocupar. Falando agora parece tão óbvio, mas na época não era nem um pouco. E a roda gigante gira, um dia você tá por cima, depois está por baixo, ultimamente passei várias vezes por isso, muito porque as pessoas se escondem atrás do celular e ser babaca a distância é muito cômodo. Galera sequer responde hoje em dia, o tal ghosting. Mas nos resta fazer nossa parte e se afastar de quem pouco nos valoriza. Se isso aflora digitalmente, apenas significa que uma hora ou outra ia acontecer na real.

Mas é isso, cuidem dos outros, por mais que pareça exagero, que você não tem culpa, que aquilo parece não estar sob sua responsabilidade. Talvez mais a frente você consiga refletir e perceba que errou. Quem sabe.

Oh, great! Of course! Here it comes! You can’t keep doing this! You can’t keep doing shitty things, and then feel bad about yourself like that makes it okay! You need to be better! … No! No, BoJack, just stop. You are all the things that are wrong with you. It’s not the alcohol, or the drugs, or any of the shitty things that happened to you in your career, or when you were a kid. It’s you. All right? It’s you.
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