Mais uma vez encarava a noite, procurava estrelas no céu poluído da cidade. Assistia o jogo num bar, respirava o sereno e torcia para que, a cada gol do Flamengo, o gosto de vitória na vida subisse um pouco pela sua garganta. O jogo terminou empatado e tomou um caminho diferente de para casa.
Foi pela orla, procurando algo para se entreter, mas a noite fria havia espantado qualquer que fosse, só restavam os corajosos corredores e os vendedores solitários de quiosque. Percebeu que não teria sucesso e retornou para o meio dos prédios, agora em busca de um boteco qualquer. Estava doente, não deveria beber, mas aquela noite fazia necessário um gole.
Sentou em algum boteco que não fosse conhecido, não queria a sensação cômoda da familiaridade. Desistiu da cerveja, pediu um maço de Derby, uma garrafa de Dreher e ali ficou, no balcão, acompanhando na televisão de 14” as últimas notícias da noite. Tentava acompanhar as notícias, a tevê estava no mudo, o som que tomava o ambiente era de alguma dessas músicas não muito animadoras que tocam na rádio nas noites de domingo. Apesar de não querer familiaridade, a música combinou, sentiu desgosto e se restringiu a acender seu cigarro.
A febre estava voltando, sentia a fronte esquentar e o frio correr pelas suas pernas. Fechou o casaco, mas manteve-se guerreiro na missão de beber a garrafa. Começou a puxar papo com o garçom escorado na pia e cara de poucos amigos. Falou sobre a mulher que o abandonara. Ela dizia que não mais tinha motivos para deixá-lo continuar atrasando sua vida, que tinham planos distintos, que a vida era outra. Ele contava como se a dor fosse uma ferida aberta de dias recentes, sem qualquer noção de realidade e tempo, já que Carolina havia seguido sua vida há mais de 20 anos. Mas continuava a falar dela. Sentia que se falasse do amor que sentiu, do carinho que apenas encontrava naquela voz, tudo aquilo que lhe dominara por duas décadas sairia finalmente do seu corpo, o abandonaria de vez, a febre cederia e então deixaria o delírio de um final tão óbvio.
O rádio ainda tocava entre chiados, a garrafa já estava na metade, mas brincava com o copo seco, sorvendo o vazio e tocando o gelo na ponta dos lábios. O maço já havia se esgotado, fumara todos pela metade. Ergueu-se, aceitando que não era nem derrota, muito menos vitória, mas aquele sentimento de quem busca resposta em sonhos.
Chegou em casa, tirou os sapatos, fugiu de ver no espelho seu rosto achincalhado pelo tempo e deitou-se. Sabia que aquele leve torpor da bebida traria o sono imediatamente. E quem sabe também traria o mesmo sonho que sonhara por 20 anos, independente de delírios de febre. O sonho que a linda Carolina lhe sussurrava: “Está tudo bem”.
