Quando garoto, eu viajava até o interior de Minas com meus tios e primos. Era a viagem certa de férias: visitar minha avó em Patrocínio de Muriaé, uma pequenina cidade na divisa com o norte do Rio de Janeiro. Mas miúda mesmo, quatro mil habitantes, praça com igrejinha, cachorros vadios e magrelos, barro seco, “tarrrde, dona Almerinda”.

Após aquele almoço cruel com costelinha de porco, ovo caipira frito e doce de goiaba, éramos derrotados pelo sono no tapete da sala, numa falsa tentativa de fazer a digestão assistindo “Sessão da tarde”. Aos poucos, a casa ia despertando e um passeio rápido para esticar as pernas se fazia necessário numa caminhada até a venda para comprar queijo. Na volta, o final de tarde já se anunciava no cheiro de chuva porvir, na brisa fresca dançando as árvores da praça. Chegando em casa, ia até a cozinha, onde minha avó preparava um suco de carambola fresquinha do pomar. Deixava o queijo em cima da mesa e me sentava na soleira da porta, olhando as nuvens acenando pelas costas da montanha e escutando o aconchegante sotaque da minha avó contando casos da vizinhança.

Então ela me dava aquele copo de suco de carambola, naturalmente doce, com um toque ácido na medida certa. Voltando a mirar as nuvens ao longe, tentava saborear ao máximo aquele frescor, com longos e pausados goles. Aqueles goles tenros que condensavam todo o ar de familiaridade e paz que só reencontrei novamente 20 anos mais tarde nos lábios de Beatriz.

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