São cinco da manhã, acordei de um pesadelo e não consegui mais dormir. Minha respiração ainda pesada vai se aprumando quando vejo sua paz dormindo. Seu cabelo cobrindo o rosto, sua boca entreaberta, seu hálito inundando o quarto é uma luz quente de abajur.
O pânico do pesadelo ainda não se foi, o sal repuxa a pele do meu rosto e minhas pálpebras parecem áridas. Na verdade não sei se foi um sonho ou uma premonição. Não sei se escrevo isso no presente ou se é apenas uma recordação perdida nesse passado estranho que teremos.
Sei que você vai acordar, naquela frieza já anunciada, vai comer algo como se eu não devesse estar ali e verei a porta da rua como única opção plausível. O gelo do seu olhar pro chão, pro canto da parede, pra xícara suja de café.
Mas nada disso acontece agora. Eu saio da cama e sento no chão, num canto do quarto, olhando pra curva do seu quadril subir e descer.
Não sei se volto pra cama e te abraço, não sei se pertenço ao chão e ali faço minha oração pra que a noite não se vá.
Se eu me levantar e for embora? Nunca fui bom em despedidas e seria melhor do que te ver apenas acenando de longe. Como se eu fosse um conhecido que cruzou seu caminho pra padaria. Isso dói e sei que pouco te faz diferença. E dói ainda mais.
Se isso fosse o futuro previsível que há, palpável nas arestas que teremos, seria mais fácil. Mas tudo isso acontece agora e fico perdido no que fazer. Então apenas encolho e te olho dormir. Um sol descendo atrás da uma montanha, numa contagem regressiva pra última ponta de luz no céu.
Está amanhecendo e não voltarei a dormir. Sua respiração persegue os minutos. O tempo não passa. Ou passa tão rápido que me sinto parado em algum lugar entre o peito e o estômago. O que é certo é que tudo vai acabar e vamos nos odiar pra sempre. Previsível.

