Uma viagem pro frio de Teresópolis em junho, eu e você passamos 3 dias na casa de outro casal. Estávamos juntos há pouco tempo, então ainda havia aquela fragilidade trôpega do começo. Mas era uma viagem em velocidade de cruzeiro, tranquila, sem turbulências ou desavisos.
Até que naquele dia você acordou estranha. Me evitava, pensativa na mesa da sala, batendo os nós dos dedos na madeira daquela enorme mesa. Nós ficamos rijos naquele som seco de contagem regressiva e não sei se algo poderia mudar.
O dia foi se passando e me coloquei num estado de espera. Numa ansiedade comedida, de quem estava apaixonado, de quem é inseguro, de quem pressente a perda quando nem ao menos houve algo que eu tivesse ganhado.
No final da tarde entrei no banheiro, precisava de um banho. Eu estava limpo, mas precisava me livrar de algo, do que te afastava de mim, tirar na água gelada, esfregando uma crosta invisível que não te deixava me enxergar. Resolvi fazer a barba. Sai do banheiro com o rosto lisinho e você sorriu, se aproximou e me deu um beijo gostoso, passou a mão no meu rosto e senti seu cheiro. Naquele dia falei que seu cheiro era muito bom, me confortava. Te contei que seu cheiro me dizia “está tudo bem”. Você me abraçou, com seus braços pequenos e mãos frias.
Quando fomos dormir, tentei me aconchegar e você virou de lado. Encarei o teto, preto, inerte. Sua respiração enchia o quarto, seu cheiro, o peso do seu corpo ao meu lado estava carregado. Não aguentei e me levantei, fui para a sala, sentei no sofá. Você veio logo atrás, me chamou pra cama, perguntei o que havia de errado e, sem pestanejar, abaixou as sobrancelhas e disse que havia sonhado com seu ex. Que gostava dele. Que ia voltar pra ele. Aquele mesmo que te bateu, te xingou, que numa briga tentou enfiar o dedo em você. Na imaturidade da época eu tinha pra mim que você preferia apanhar dele do que estar comigo. Tremenda besteira, hoje sei disso, desculpa.
Naquele seu dia distante, a Julia, ótima fotógrafa e munida de sua câmera, chegou a registrar um momento introspectivo seu. Vocês estavam no gramado, sentadas numa canga, esquentando o peito naquele sol leitoso. Você sentada com as pernas cruzadas, séria, olhando pra baixo, pra grama, prum espelho do que te torcia numa resolução da noite tardia. Guardei bem a imagem dessa foto porque você a usou de perfil no Facebook por longos meses. Meses que eu via aquela foto e tentava imaginar o que você estava pensando naquela tarde. Naquele dia que seu cheiro me enganou e nada terminaria bem. Voltamos pra casa, o ônibus descia aquelas curvas da descida da serra, você dormia ao meu lado e eu chorava.
Hoje eu estava assistindo a série The Young Pope e quando o papa falou do “silêncio infinito de Deus”, eu sabia exatamente do que se tratava. Era o silêncio dos nós dos seus dedos na madeira, varando um teto lavado de escuridão.
