Orai e vigiai

Sou uma mulher de fé. E devo isso à minha mãe. Ela quem me apresentou e incentivou a frequentar a igreja católica, desde pequena. Tem gente que tem tradição brasileira de casar, batizar, mas minha mãe foi além e matriculou as filhas assim que pode na catequese.

O místico e o sagrado sempre me encantaram e eu adorava escutar as narrativas da bíblia e as histórias dos profetas, anjos e santos e tudo aquilo era para mim tão natural, que não me questionava, cresci considerando tudo aquilo parte da realidade da vida e do mundo.

Com o tempo fui crescendo e aprendendo novas histórias, outros olhares e pontos de vista, outras práticas e formas de demonstrar a fé e acreditar no divino, mas não renego a tradição, sabedoria e cultura que adquiri na igreja católica, nem minha fé cristã. Muito mais que a escola, este foi o espaço onde construí minha consciência social e humana.

Por isso, não abandono esta religião, apesar de todas as críticas históricas e atuais que devidamente devem ser feitas a ela. Acredito que sua teologia, e não a instituição, vale a pena ser seguida. Muitas pessoas consideram que hoje em dia ter uma religião é fora de moda, e mais moderno ser apenas “espiritualizado”, ou então promovem algumas práticas para parecerem legal, transformam as religiões de matrizes africanas em algo “cool” (e eu tenho críticas a essa apropriação), mas eu defendo que só vale a pena seguir uma fé, seja qual for, se for com profundidade e verdade.

Mas este texto não é sobre práticas religiosas, mas sobre a relação que estabelecemos com a vida e a morte. Como já disse, foi pela educação e exemplo da minha mãe que eu passei a frequentar a igreja. E a igreja foi o último lugar para onde fui com ela antes de sua morte.

Sexta feira, 24 de junho era dia São João Batista, dia do padroeiro da comunidade do meu bairro, onde cresci humana e espiritualmente. Eu hoje não frequento a igreja como quando fui criança e adolescente, mas no dia do santo sempre vou à missa, não só por devoção, mas também porque acho linda a tradição popular. Gosto de ver o povo, escutar as canções, participar da procissão.

Como faço parte dessa mesma comunidade há mais de vinte anos, tenho um carinho muito grande por todas as pessoas que também a compõem. E todas as vezes que chego na igreja, fico procurando por elas. Sempre me vinha na cabeça o pensamento temeroso de que talvez algumas destas pessoas queridas tivesse falecido, pois a maioria são senhoras idosas. Uma delas é a dona Quitéria.

Dona Quitéria é um doce de pessoa, pequena estatura, cabelos brancos, óculos, voz aguda e baixa, sempre feliz, sempre nos cumprimentando e abraçando. Idosa, frágil, mas sempre disponível para orar, fazia visitas a pacientes enfermos em hospitais, além de outras atividades na comunidade.

Toda vez que ia à igreja, procurava por ela, para abraca-la, como que para pedir a bênção, para me sentir mais protegida, para me contagiar de sua energia positiva. Naquele dia de festa de São João, não a vi.

Minha mãe faleceu naquela madrugada, vítima de um infarto. Ainda não consigo narrar tudo que vivi naquelas horas, entre tentar socorre-la, acalmar meu pai, e compreender que minha vida nunca mais seria a mesma. Mas, enquanto a família resolvia as burocracias que nos ferem nesse momento para encaminharmos o corpo para um cemitério, dona Quitéria, como um anjo, foi à minha casa.

Ela foi quem mais conseguiu me confortar e com ternura me passou uma mensagem que nunca vou me esquecer. Ela citou uma passagem da bíblia que afirma “orai e vigiai”, porque nunca sabemos qual será nossa hora. “Temos que estar sempre preparados”, disse ela, afirmando que minha mãe foi abençoada por ter ido à igreja antes de partir, e se santificar fazendo a última comunhão. E com lucidez e sabedoria de sua idade avançada, disse que ela mesma sempre se lembra e se conscientiza disso.

O fato é que é muito difícil a gente se dar conta de que um dia vamos morrer. Acho que a dor de perder os pais vem um pouco disso, passamos a sentir que parte de nós já se foi, pois pela família transmitimos a nossa tentativa de eternidade.

Orar e vigiar pode ser interpretada de forma literal, de forma bem ortodoxa, como quem se prepara por temer o inferno, mas eu prefiro pensar que este é um alerta para que façamos a nossa existência valer a pena a cada instante.

Sou muito grata por ter tido a oportunidade de ir à festa de São João no último dia de vida da minha mãe aqui na terra, pois todos os momentos com ela foram sempre plenos, verdadeiros, foram sempre os melhores. Minha mãe sempre teve muita fé e espero fazer valer a dedicação que ela atribuiu a nos ensinar a acreditar, e espero continuar sua tradição e, assim, garantir sua eternidade. E espero não me esquecer de “orar e vigiar” sempre, valorizando toda a experiência, oportunidade de aprendizado, encontro com as pessoas, como se fosse o último. Porque um dia será.

Foto: Carolina Pontes (Flickr)