Carne nova em casa azul

Honrando meu pertencimento ao Reino Animalia , Filo Chordata ,Classe Mammalia e Ordem Primates, vivo esgotando o cálcio dos ossos alimentando meus sonhos de rua. Curiosamente, meu maior sonho de rua é justamente transformar uma casa antiga em morada. Uma casa antiga, azul, com portas estreitas e janelas singelas. Uma morada que do Céu não imitasse nada além da cor. Mortais me protejam do castigo de ser obrigada a morar em casa tão imensa. Logo eu, que preciso mesmo é transbordar. Preciso e só faço porque meu corpo é tão pequeno que aceita delírios.
Pela lógica do “se podes olhar vê. Se podes ver repara” o querer descansar carne nova em concreto antigo pode significar tanto um pedido de segurança quanto um pedido de aventura. A segurança de poder olhar para um retrato preto e branco com rostos compostos por seriedade e posturas devidamente ensaiadas: homem atrás e mulher na frente. Os penteados, os acessórios e a combinação de cores, tudo atribuindo imensa dignidade e responsabilidade para a moldura que enfeita sinônimos de credibilidade, durabilidade, certeza e sucesso. Tudo fruto do tempo e da paciência.
Depois de colocar o casal na posição de sábios, vem a voz vadia de Chico Buarque cantando “por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz” a aventura chega em forma de dúvida. Afinal, não existe ser humano confiável que não possa ser derrubado por um verso de Chico e o silêncio que a fotografia deixa, alimenta aflições dignas do sorriso e olhar de uma Mona Lisa.
Uma casa antiga pintada de azul é exatamente o que eu quero. Deixo que a rinite me incomode enquanto passo os dedos nos retratos empoeirados buscando decifrar rostos de sentimentos sem destinatários. No final das contas empoeirado mesmo é meu coração, esse maldito comboio de corda reprimido por um cérebro paranoico. Prazer, sou Lívia, aquela que tem nas duas últimas vogais do nome a desinência modo temporal do pretérito imperfeito do indicativo. Tempo referente a um fato ocorrido no passado, como as fotografias preto e branco na sala de estar, mas que não foi completamente terminado. Como as tentativas de tentar interpretar qualquer forma de amor sem cair no choro ou sentimentalismo.
