Memórias da manhã de 4 de setembro

Esse texto é um trabalho de pós-graduação. Sua finalidade é desconhecida. “Tragam para a próxima aula um texto de três páginas com memórias de vocês”, limitou-se a pedir a professora.

Posto-o aqui.

Não tenho muitas memórias dignas de serem anotadas. Se recorrer aos escaninhos de minhas reminiscências, só encontrarei fatos corriqueiros, daqueles que passam sem deixar grandes marcos. Talvez seja um quê de niilismo essa ótica sobre meu passado. Ou, ainda, um pouco de pragmatismo na forma de ver a vida.

Há quem tenha vivências cuja importância mereça retrato. Uma de minhas melhores amigas, por exemplo, aos 21 anos de idade, a caminho da USP, foi surpreendida e atirada ao chão por um sujeito maltrapilho. Com violência, arrancou suas roupas e partiu para as investidas de estupro. De tanto lutar com o fulano, acabou recebendo uma tijolada na cabeça. Tonta, sem mais poder combatê-lo, ficou à sua mercê. Duas são as lembranças que ela guarda disso tudo: o cheiro que emanava da roupa do sujeito, um misto de fezes, urina e suor; e de um cachorro preto surgido do nada, que atacou o fulano, impedindo a consumação do estupro.

Livre da ameaça, desfaleceu, tendo acordado momentos depois no hospital com seu pai ao lado.

Até hoje, o cheiro de fezes, suor e urina, quando inalado, a faz lembrar-se daquele dia. E o cachorro, bem, ela nunca mais teve notícia a seu respeito. Mas foi por ele que virou uma grande militante da causa do direito dos animais, tornando-se, inclusive, vegetariana. Nessa luta, participou de empreendimentos memoráveis: invadiu centro de magia negra para resgatar bodes destinados a sacrifício, interceptou navios pesqueiros na Amazônia que pescavam ilegalmente, montou um sítio para cuidar de animais vítimas de maus tratos (tem de tudo lá: gato sem um olho, coelho sem orelha, cachorro de três patas…), entre outros.

Eis aí uma memória apropriada de ser enegrecida no branco. É verdade que o fato que motivou essa lembrança não é nada nobre. Não tem sua gênese na fortuna, mas no infortúnio. A ideia, ao sublinhar o advento, não é lançar juízos de valores sobre o acontecimento, mas sim destacá-lo como relevante ou não.

Nos 24 poemas da cantata Carmina Burana, musicalizada por Carl Orff, fora a boa dose de erotismo orgíaco, lê-se como a roda da fortuna pode ser cruel. O problema da roda é que ela…roda!!! E o que está em cima agora, logo, certamente, estará embaixo. “Oh, Fortuna[1],/ És como a lua/ Mutável/ Sempre crescendo/ou decrescendo;/ Vida detestável/ que ora oprime/ e ora cura,/ Para brincar com a mente;/Miséria,/ Poder,/ Ela os dissolve como gelo[2].

Se estivesse dentro dessa roda, minha vida oscilaria ora para um pouco inferior ao meio e ora para um pouco, mas bem pouco, acima do centro. É a tal da vida medíocre, em stricto sensu.

Por essa razão, por não conseguir destacar uma memória que perfaça o todo deste trabalho, optei por durante uma manhã registrar o que faço ao longo das horas. Pode ser algo extraordinário ou comezinho, tanto faz. Mas o que importa é que o objetivo será cumprido — espero.

Como ocorre na maioria das segundas-feiras, desperto automaticamente por volta das 5h10, sem o auxílio do celular. E pensar que já fui notívago. Era na época em que trabalhava na TV Bandeirantes, produzindo os jornais noturnos. Das 17 horas à meia-noite, Datena, Boechat e Cabrini eram meus colegas de trabalho. Chegava em casa depois de uma hora manhã, jantava e ia ler alguma coisa para dar ao estômago a oportunidade de, competentemente, lançar sobre o alimento ingerido o suco gástrico encarregado de despedaçar as proteínas para, depois, projetar o bolo alimentar para o intestino delgado, onde, novamente, o dito-cujo será banhado por mais um monte de líquidos produzidos pelos pâncreas, pelo fígado e o pelo próprio intestino. Um nojo só!

Pois bem, uma vez em pé, lá fui eu pro lanche pré-treino: uma banana nanica com mel e aveia. Depois disso, fui treinar.

Faço Crossfit. Trata-se de uma modalidade de esporte nada convencional se comparada às academias tradicionais. É uma junção de força, explosão, equilíbrio, consciência corporal, intensidade… Tudo aquilo que uma vida hedonista abominaria. Não pratico isso por voluntarismo, mas sim por necessidade. “O sapo não pula por boniteza, mas por precisão”, disse Guimarães Rosa sobre o sapo. É mais ou menos minha causa. Descendo de uma família de pessoas de panças notáveis, especialmente pelo lado de minha mãe. Minha avó era italiana legítima, nascida na Bologna, cidade conhecida por sua gastronomia excepcional. É claro que o quilate bolognes nada tem a ver com o corpinho de minha avó. Aos três anos, foi despachada aqui para o Brasil, país onde se casou e formou família. Ocorre que, como boa italiana, era boa de cozinha. E boa de garfo. Segundo minha mãe, minha bisavó já era rechonchudinha. E, claro, minha avó e minha mãe seguiram a mesma sina. Eu, em vez de puxar a magreza portuguesa e brasileira da família de meu pai, acabei por introjetar as banhas do lado materno.

Se tendência a engordar fosse literatura, eu seria Shakespeare. Se tendência a engordar fosse pintura, eu seria Rembrandt. Se tendência a engordar fosse música, eu seria Mahler. Se tendência a engordar fosse filosofia, eu seria Eric Voegelin. Cheguei a pesar 120 quilos com menos de 20 anos de idade. Ainda bem que, ao menos, eram bem distribuídos e não ficavam concentrados na barriga. Logicamente, na época colegial, fui apelidado pelos meus pares com um sem-número de alcunhas, todas muito criativas, registre-se. Lembro-me que, ao lançar os apelidos em referência a mim, não o faziam apenas pelo sarro, pelo viés lúdico da coisa. Via-se evidentemente que o achincalhamento lhes provocava uma satisfação interior, um regozijo. Ver o próximo sendo, em coro, chamado de “tio coxinha”, “colchão amarrado”, e por aí vai, além de risos, arrebatava a todos em uma espécie de espírito coletivo de descarrego. René Girard, que cunhou, na Antropologia, a teoria do bode expiatório como fenômeno abonançador das tensões sociais, talvez especularia sobre o buylling como prática alusiva aos arcaicos. Claro, com todas as atualizações da modernidade e com uma atenuante: em vez da morte, o escolhido como bode é relegado ao isolamento. Se o sujeito é transformado em uma ilha, fica mais confortável pôr em perspectiva suas imperfeições, uma vez que o liame com o infeliz é líquido. Crianças são selvagens por natureza. Rousseau, ao dizer que o homem é bom por que é bom e seus desvios são derivados da sociedade, mostrou-se um completo idiota. Não à toa, o sarcástico Voltaire enviou-lhe uma cartinha após ter lido a obra Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, do próprio Rousseau. “Quando se lê seu trabalho, dá vontade de sair andando sobre quatro patas”, assinalou Voltaire. Gênio!

Rotina de exercícios aliada a uma alimentação regrada me fez perder em gordura o equivalente a 27 latas de óleo no prazo de dois meses. Amainaram-se com isso uma série de sintomas de quem tem sobrepeso. Antes, bastava dar 20 passos até a esquina para começar a me liquefazer. Ou subir nada menos do que 20 degraus de uma escada. Pizzas enormes surgiam embaixo das axilas. Gotículas mil banhavam meu peito e minha barriga, umedecendo a camiseta que vestia — nessas horas, roupa preta é um alento. Tal fato me fez pegar um ranço, um ódio de calor, que perdura até hoje. Gosto mesmo é de frio, daquele de fazer com que os dentes de cima colidam-se com os de baixo em ritmo molto vivace, prestíssimo. No calor, o corpo perde o vigor, tendendo a se estregar à prostração. As pessoas na praia torrando num sol a pino — dourando a retaguarda sem nenhum senso de propósito, perfazendo uma languidez que se confunde com felicidade — ilustra esse quadro. Hoje, pelo menos, minha vida é mais seca.

A esses eventos, seguem-se outros tão ou menos prosaicos. Café da manhã, trabalho, almoço, trabalho, café da tarde, faculdade, jantar, cama. Os interstícios entre um e outro fato são preenchidos com insignificâncias da vida. Trazê-las à ciência nada acresceria ao leitor, ocupado com suas próprias significâncias e insignificâncias. Seria como surrupiar-lhe mais tempo, para que, ao fim, percebesse que o naco de atenção dedicado a esta leitura poderia ser melhor investido em qualquer outro afazer.

Assim, despeço-me.

[1] Em algumas traduções do latim, “fortuna” é traduzida como “sorte”. Para os fins destas memórias, faz todo o sentido.

[2] Vale a pena assistir à apresentação da Filarmônica de Berlim, sob a batuta de Seiji Ozawa, interpretando Fortuna Imperatrix Mundi, tema de abertura de Carmina Burana. Veja em https://www.youtube.com/watch?v=ReRH5K8yFwI.

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