O cúmulo da ingenuidade: acreditar no fim da corrupção

A ampla maioria das pessoas que tenta desqualificar as manifestações contra o governo recorre à desculpa que os manifestantes dão por estarem nas ruas: todos querem o fim da corrupção.

Isso é de uma ingenuidade supina, obviamente. Não que o desejo não seja legítimo. Quem de nós não quer um mundo justo, belo e perfumado, não é mesmo? Ocorre que, para que isso se viabilize, o Estado brasileiro teria de ser refundado. Missão impossível, claro. Depois de mais de meio milênio de patrimonialismo (leiam Os Donos do Poder, de Raymond Faoro; é leitura obrigatória a quem quer entender o Brasil), acreditar que um simples impeachment resolve tudo é um brinde à asnice.

A corrupção sempre existiu. Antecedeu Dilma, Lula, FHC, Itamar, Collor, a ditadura.. O PT foi — e é — o partido mais criticado por dois grandes motivos.

1) A vilania atingida por Lula-Dilma alcançou patamares nunca antes vistos na história do mundo. Só da Petrobras — enfatizo: só da Petrobras — foram usurpados R$ 14,5 bilhões. Isso de um partido que, desde a redemocratização, pôs-se acima do bem e do mal, como se sua candura fosse inabalável. Falando diretamente ao coração dos pobres — a quem questões como honradez sensibilizam mais do que tocam a elite, é verdade — , construíram uma história do partido que luta pelo social e combate a corrupção. Hoje, 13 anos depois, deixaram o Brasil na capa dos maiores jornais do mundo pela corrupção e minaram todas as conquistas sociais auferidas ao longo de todo o governo Lula-Dilma. Praticamente toda a classe média que ascendeu com o PT já voltou às classes D e E.

2) O Brasil está ficando pobre. O desemprego aumenta. Fazer compra fica cada vez mais caro. Combustíveis estão nas alturas. Inflação corroi o poder de compra da população. O empresariado não investe. Todos temem parcelar qualquer coisa, pois não sabem se estarão empregados amanhã. A poupança das pessoas está se esvaziando para que possam pagar dívidas. O nível de endividamento aumenta (o que não quer dizer que o de inadimplência siga o mesmo caminho). O varejo cai (as pessoas não compra mais como antes). A indústria despenca…

Eis aí o que fomentou o turbilhão contra o PT. O discurso contra corrupção é só um pano de fundo que permeia o imaginário coletivo e, por conseguinte, se materializa com mais notoriedade na grita geral. Se houvesse dinheiro no bolso das pessoas, talvez a indignação contra o governo não seria tão proeminente. Isso porque, no fundo no fundo, independentemente de quem esteja no poder, sempre haverá canalhas de plantão para assaltar nossos bolsos. Berrar contra a corrupção, nesse cenário, é um motivo bastante original para, indiretamente, demonstrar sua insatisfação com o próprio bolso.

Se Dilma cair — e ela TEM de cair por ter desrespeitado reiteradas vezes a Lei nº 1.079, não por ser uma asna no comando do País — teremos um sopro de confiança que dará um alento à economia. Sai ela, entra o Temer. Compõe um governo de coalização com a oposição, costurando um apoio suprapartidário. As medidas de emergência para que o Brasil volta a andar são implementadas. Blá blá blá.

E, nos escaninhos do poder, depois que tudo voltar à normalidade, continuarmos sendo roubados.

Essa corja que nos governou, nos governa e ainda virá a nos governar não tem jeito.

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