Ladies, Wine & Design RIO: Liderança Criativa

No dia 27 de agosto nos reunimos no apê da Flora. Às 19:30 em ponto já estava lá a Julia Hirszman, linda, ruiva e cacheada. Ela, toda Foda-se, jogada no sofá, rindo e reluzindo, e a gente colocando as taças na mesa: assim começava mais um encontro do Ladies, Wine & Design Rio.

É um ato de confiança abrir a sua casa como aconteceu naquela quinta — e entrar, tirar os sapatos, tomar um vinho e um lugar na roda, na casa de uma estranha, é confiar em troca. Assim, já começamos quase amigas: descalças, entre plantas, livros e redes. Nesse climinha de calor humano recebemos treze mulheres.

O tema da noite foi Liderança Criativa e quem segurou na nossa mão pra receber as líderes cariocas foi a Isabelle Lavigne. Isabelle abriu os trabalhos contando como de estagiária chegou a sócia e gestora de equipe do Estúdio Modo. Para ela, líderes do futuro pensam como designers. Enquanto tudo parece ficar cada vez mais rápido e complexo, estratégias de negócios precisam ser não definitivas, mas adaptáveis. O design sempre aprendeu da experimentação, e é esse mindset de projeto que torna possível navegar o imprevisível.

Isabelle Lavigne só jogando os ensinamentos de vida

Uma a uma, contamos nossas histórias, procurando responder e expandir o que pra nós é liderança. Para Flora de Carvalho, designer que acaba de inaugurar uma nova fase como chefe de si mesma, a liderança que interessa é a de gente: saber gerir pessoas, entender as suas qualidades e oferecer os recursos para que elas façam o seu melhor trabalho.

Priscilla Paranhos concorda, dizendo que a empatia é imprescindível. É se colocando no lugar do outro que aprendemos a ensinar. Liderança para ela é troca, é um processo de crescimento para ambas as partes. Priscilla aprendeu muito com líderes bons e maus — porque o exemplo do que não fazer também é um exemplo. Como líder ela faz questão de que seu processo seletivo abra lugar para quem mais precisa, construindo a sua equipe com diversidade como pilar. Se ela, que contra todas as chances se tornou líder, não der oportunidades para outras como ela, quem vai dar?

Pode chamar a Fernanda Negrão para ser planner da vida?

Fernanda é Planner — um título que, até ano passado, nem ela mesma conhecia. Trabalhos como o dela são cada vez mais comuns, diz Isabelle. Nossos filhos terão profissões que ainda não existem e isso é lindo: cada vez mais vamos poder nos qualificar em habilidades humanas, e não em trabalhos. A habilidade de Fernanda é a organização. Foi um amigo empreendedor quem percebeu o talento — sempre um olho de águia para encontrar falhas de processo, sempre um conselho para tornar as operações mais eficientes. Mas ela precisou de um empurrão para abraçar o seu destino: o tal amigo indicou Fernanda para organizar as coisas na Relâmpago e agora ela se encontrou. Hoje, controla o vira-tempo que permite que a equipe de designers faça o que faz de melhor, ainda melhor.

Paula Cruz, uma das designers dessa equipe, acha que nós mulheres sofremos muito com a falta de confiança. Não é nossa culpa, fomos treinadas para recusar graciosamente todo e qualquer elogio, para achar que 100% de si não é nunca suficiente. Ela aprendeu a acreditar no seu trabalho e responder a elogios e críticas com a mesma confiança. Sempre vai ter alguém pra se sentir ameaçado com o seu sucesso, mas ele é fruto de muito esforço e merece ser comemorado.

Dani Tavares pensa o mesmo. Demorou muito pra que ela aceitasse que era uma líder nata, mas hoje o título reflete a qualidade que sempre teve: Lead UX. Ela conta que muita gente confunde o estilo de liderança feminina com instinto maternal. Uma coisa não tem nada a ver com a outra: somos sim, em geral, mais humanas, compreensivas, educadoras. Mas um homem com as mesmas qualidades não é chamado de paizão no trabalho, é chamado de líder. Merecemos o mesmo. Hoje na Huge, ela trabalha para trazer mais mulheres para o design de interação e a engenharia.

Victória Molgado: phyna

Victória Molgado, sentada ao seu lado, é uma das novas mulheres nesse mercado. Para ela, liderar é saber construir, juntos. Ela fala da importância que o feedback tem para quem está começando e comenta que é muito raro um estagiário receber uma resposta atenciosa, uma crítica construtiva, um conselho ou uma dica, infelizmente.

Julia Hirszman, a ruiva, acha que liderança é chegar junto. O jogo de cintura é importantíssimo porque você precisa acomodar o outro e também se acomodar às situações, às limitações. Quando ela começou como gerente de marketing na Garimppo, ainda não tinha nada para gerir. Aprendeu na marra e agora tem a sua própria empresa, a Ruiva Branding. Tudo o que ela faz ela quer poder fazer do seu jeito, metendo a cara, falando palavrão, deixando a sua marca. Com essa cabeça começou o blog Foda-se, Virei Blogueira.

Dominique constroi sua carreira a partir de suas paixões

É do nosso jeito, com a nossa combinação única de habilidades e interesses, que a gente molda o nosso mundo. Dominique Kronemberg, pelo menos, acha que seguir as coisas que te tocam traz bons resultados a longo prazo. Estudando um pouquinho de tudo que ela gosta (culinária, cinema, literatura, antropologia) está começando a se sentir apta pra assumir o seu estilo de liderança: o de quem está alí costurando, alinhavando os talentos dos outros, liderando não de cima, nem da frente, mas do meio.

Liliane Prohmann, mãos nos bolsos, até então olhava tudo com um ar tranquilo. Com uma voz baixa e séria começa a contar de si e logo comanda toda a atenção da sala. Somos todas fãs de Lili, do coletivo feminino de DJs Freeda Baile. Como se não bastasse o trabalho “noturno”, a empresa de Lili, graças a ela, é pioneira no Brasil em reaproveitamento de água de banheiros químicos para a agricultura. A sua qualidade de líder é a visão panorâmica. Não é fácil, mas se aprende, é preciso descentralizar suas ideias e confiar mais no outro.

Aline Ribeiro não pode dissociar a sua trajetória de quem é: mulher e preta. Na publicidade, ela diz, de 1000 profissionais, 35 são negros. A maioria homens, com certeza. Você precisa se provar o tempo todo: onde os outros entram com facilidade, sendo uma mulher negra você só entra com o triplo do esforço. Mas ela persiste: especialista em branding, ela toca a sua própria empresa, a Âmbar, além de ministrar palestras e workshops. Todos os líderes que ela admira são, acima de tudo, acessíveis. Estar sempre disposto a trocar, a ensinar e a aprender, é ser um líder de verdade.

Aline Ribeiro e Larissa Coelho Rabin: cada vez mais poderosíssimas

Larissa Coelho Rabin completa dizendo que um líder não é um líder sem uma equipe. É diferente ser uma líder e ser apenas uma chefe, uma líder é melhor junto, e por causa, dos seus “liderados”. Ela ressalta a importância de se conhecer e saber onde estão as suas forças para que você possa investir nelas e perseguir o que realmente quer, sem perda de tempo. Mesmo assim, comenta que auto-confiança ainda é um problema. Mulheres precisam primeiro se sentir confortáveis com as suas habilidades para depois conseguirem se considerar dignas de uma promoção (que nada mais é ocupar o cargo cuja função já estavam exercendo). Homens, por outro lado, miram mais alto do que as suas habilidades e só depois pensam em pagar o pedágio, aprendendo o que ainda não sabiam fazer. Precisamos apostar mais em nós.

Gabriela Pessoa sente na pele a dificuldade que é confiar em si mesma. Depois de um tempo tentando se adequar ao que esperavam dela, parou, pensou, foi lá e exigiu mudança: quer trabalhar fazendo o que gosta. O esforço de comunicar o seu descontentamento compensou, e agora ela repensa todo aquele sofrimento para conseguir colocar pra fora o que sentia. Essa situação ensinou que temos mais do que direito de pedir o que queremos, sim. Seja um cargo, um aumento, uma mudança de área. Gabi acha que uma líder faz o melhor que pode para domar situações e sempre olha o outro com humanidade.

Elaine Rodrigues é treinada na arte de botar a cara a tapa. Desde a faculdade aceitou assumir a liderança, tornando-se responsável pela infra-estrutura do Pavão, a mostra de design dos alunos da ESDI. Naquele ano o Pavão foi um evento enorme, não só uma mostra, mas uma troca, recebendo designers de várias universidades do Rio. O sucesso do evento foi uma ponte para o seu primeiro trabalho, no Catarse. Com o tempo, a viagem diária de Nova Iguaçu para o Rio foi um dos, mas não o único, motivos que levaram Elaine a decidir abrir o seu próprio estúdio, o DesignLinhadas. Com uma amiga como sócia, ela agora atende clientes na sua terra, na baixada. Em paralelo toca projetos de valorização do design popular, procurando evidenciar o trabalho invisível de quem produz diariamente, na garra e na intuição, a paisagem gráfica da baixada.

Ísis, linda e pró ativa

Ísis Daou, acostumada a se apaixonar cada hora por um projeto diferente, acha que liderança criativa é um privilégio, uma resistência no mundo fechado de hoje. Ela, que não pode ver um problema e já quer resolver, diz que pensar sistemas é o que ama. Por isso, liderar, para Ísis, é desenhar as forças do sistema para que as pessoas façam melhor o que gostam de fazer.

Se Ísis descobriu o que ama tentando de tudo um pouco, Nathalia Meireles encontrou o seu propósito numa adversidade. Hoje oferece seu conhecimento em User Experience para o Portal SuperAção, que assiste pacientes com câncer. Ela planeja seguir criando formas de conectar mulheres com o seu corpo e a sua saúde para que, como ela, descubram cedo se houver algo errado. Liderança para ela é estar aberto. É ouvir, dar apoio, dar suporte e deixar que o time seja incrível.

Nathalia nunca teve dificuldades em se relacionar com outras mulheres, mas reconhece que o machismo institucional instiga a nossa competição, promove a nossa separação. Estar entre mulheres, ela acredita, é sagrado. Existe uma força que vem de de trocar entre nós interesses, conhecimento, histórias que a sociedade tenta nos roubar. O LWD tem nos ensinado isso acima de tudo: para sermos mais fortes, juntas, basta abrir a porta de casa e convidar nossas amigas para entrar.


Participantes do encontro:
Aline Ribeiro, Danielle Tavares, Elaine Rodrigues, Fernanda Negrão, Gabriela Pessoa, Isabelle Lavigne, Ísis Daou, Júlia Hirszman, Larissa Coelho, Lili Prohmann, Nathalia Meireles, Priscilla Paranhos, Victória Molgado.

Os amigos queridos da Relâmpago patrocinaram os comes e bebes e a Ana Franco, que esteve com a gente no encontro sobre Processo, fez as fotos da noite.

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