52hertz
existem mais de sete bilhões de pessoas no mundo inteiro e por isso soa estúpido dizer que me sinto sozinha,
mas de todas as pessoas que escutam meus desabafos e oferecem seus ombros pro meu choro e seus ouvidos para meus pensamentos atormentados, sinto que nenhuma é capaz de realmente me entender,
uma amiga me disse uma vez que a incompreensão é a consequência da singularidade, e enquanto ela acha isso maravilhoso — a ideia de que só você é capaz de entender o que pensa ou sente — eu só consigo pensar que é uma existência solitária
quando eu falo que me sinto só, não falo da falta de amigos ou família, falo sobre como no fim do dia, no breu do meu quarto, o som da minha respiração ofegante e o meu choro são as únicas coisas que eu posso ouvir e isso nunca falha em lembrar de cada dor que eu sinto
e quando eu falo que to sofrendo não é por causa das mulheres que quebraram meu coração, é sobre o mundo e a minha existência serem a minha destruição, é sobre como acordar todos os dias me quebra porque eu não vejo mais sentido nisso tudo, e talvez nunca tenha visto, mas eu resisto e levanto da cama todas as manhãs, sigo meu dia como se fosse só mais um dia
e talvez seja esse o problema: é só mais um dia, sempre é só mais um dia
eu falei ontem que era a pessoa mais solitária do planeta terra e um cara me falou que isso lhe fazia lembrar da baleia dos 52 hertz, tive que pesquisar pra recordar que ela é conhecida por ser a baleia mais solitária do mundo: seu canto é numa frequência maior do que o normal e ela é a única da sua espécie, mesmo assim, dia após dia, ela canta nas profudenzas do oceano com esperança de encontrar companhia
eu disse pra ele que essa história me entristecia, ele disse que queria tatuar 52 hertz no braço, eu falei que era uma boa ideia e quis perguntar se era porque ele, assim como eu, sentia-se tão solitário quanto ela.
