Quem sou eu na fila do pão feminista?
ou ‘a que vertente você pertence?’
Nos últimos anos todos nós vimos o feminismo crescer nas redes. A internet e as redes sociais se mostraram um excelente método de nos encontrarmos, nos unirmos, discutirmos nossas condições, nossas frustrações, nossas dores, e assim, nos identificarmos.
Não se engane, não tem mortadela nem lei rouanet, ninguém “financiou” as hoje grandes páginas feministas. Elas cresceram pq algumas mulheres — como eu — um belo dia descobriram um conteúdo feminista numa página e se identificaram com aquilo que estava sendo dito. E foram compartilhando, e a rede foi crescendo. Se cresceu assim, é porque infelizmente, o machismo ainda reina, e nós mulheres — por sermos mulheres- ainda enfrentamos um very large amount of bullshit. É bem difícil uma mulher não se identificar com alguma história de assédio, bem difícil nenhuma mulher ter tido sua habilidade em alguma área questionada/desafiada, bem difícil uma mulher nunca ter se sentido privada de algo ou tratada diferente.
Nesses anos de militância virtual — que pode ou não ter se tornado externa- a mulherada foi lendo conteúdo feminista, se informando, conhecendo as mais importantes filósofas, sociólogas, cientistas políticas e ativistas em geral. E quanto mais você lê, você percebe que ainda que o feminismo tenha um objetivo bem claro e geral — combater as opressões de gênero e buscar uma sociedade mais igualitária- existem formas bem diversas de pensar essa luta. Tanto na forma de lutar (didática e paciente, ou revolucionária e incisiva?), quanto a respeito de onde os homens entram na brincadeira (podem ser feministas, devem ser só apoiadores, ou nem devem se meter na conversa?), quanto às soluções (reformar o sistema vigente ou destruí-lo?), e até em relação à origem da opressão (papéis e estereótipos ou a própria noção de gênero?)
Só que depois de ler um monte de teoria e ouvir as vivências de diversas mulheres nos espaços de discussão, quando fui me posicionar nessa história, percebi que eu não me encaixava 100% em nada! Será que quando nasci veio uma anja torta e disse “vá Lygia, ser isentona na vida!”?
Então esse texto tem uma função dupla: destrinchar com bastante honestidade meu posicionamento na militância feminista, e talvez fazer com que outras feministas “freestyle” como eu se identifiquem e não se sintam sozinhas. Ou talvez seja pra mim mesma, porque eu sou prolixa e esse texto vai ser quase um livro. rsrs
Eu acredito que homens e mulheres hoje -em geral- se comportam de maneiras diferentes em vários aspectos, e que isso se deve principalmente à socialização que damos a eles desde criancinhas. O ser humano é um ser social, é por mais que uma criança tenha pais feministas que busquem criá-la de forma igualitária, sempre haverão influências externas (familiares, escola, televisão, livros, internet) que acabarão por encutir alguns estereótipos de gênero na cabeça dela. O que não invalida AT ALL a atuação de pais feministas, inclusive eu acho que essa é uma das formas mais efetivas de mudarmos o sistema — quando todos os pais pararem de impor papéis limitantes a seus filhos, realmente acho que teremos um mundo bem melhor! Mas meu ponto é: todos os seres humanos criados em sociedade seguirão — em maior ou menos grau- o padrão do que a sociedade é: machista, racista, homofóbica, classista. Não sê-lo dependerá de um esforço individual de desconstrução, que não é nada fácil.
Voltando à socialização: acredito que ela seja o fator principal que gera as maiores diferenças que hoje vemos entre homens e mulheres. Sim, até essas que vc está pensando agora, provavelmente não são biológicas, e sim tradições sociais. Você pode achar que eu estou muito louca, mas uma infinidade de cientistas e estudiosos da área concordam comigo: não há “cérebro masculino” e “cérebro feminino”, e sim uma variedade louca de tons de cinza aí no meio. Exisem algumas predisposições mais comuns em mulheres do que em homens e vice-e-versa, mas elas são pouco representativas e pasme: esse “mais comuns” não são características neurológicas que se detecta em 90% da mulheres de 10% nos homens, as porcentagens são mais 60%/40%. Ou seja, quase nada — em termos de comportamento- pode ser justificado do ponto de vista biológico/científico. Existem, claro, diferenças físicas, mas todo o resto que poderia ter origem em algum instinto já está tão enterrado pelo nosso diferencial evolutivo (somos seres racionais! yei!) quanto nosso instinto de fazer cocô na rua ou matar nosso rival romântico.
Aqui, eu me distancio do feminismo liberal — que aceita muitas diferenças como naturais, e acredita que seguir ou não alguns estereótipos são mera questão de escolha individuais. Por exemplo, o libfem acredita que performances de feminilidade são pura escolha e nenhuma mulher deve ter sua escolha contestada: como se depilar ou não, usar vestido, saia e salto alto ou roupas largas e tênis, ser mãe, esposa e dona-de-casa ou solteira sem filhos com uma grande carreira. Eu concordo com elas no sentido de que nenhuma mulher deve ser acuada/julgada por sua escolha, e muito menos culpabilizada por ela. Mas também acho que o senso-comum sempre deve ser questionado, e cabe a nós, enquanto feministas, analisarmos quais estruturas influenciaram essas escolhas. Eu já escrevi sobre escolha antes, mas resumindo: se somos ameaçadas de alguma retalhação pela sociedade se não cumprirmos determinado papel, cumpri-lo deixa de ser uma escolha livre. Se você escolher ser solteira e nunca ter filhos, passará sua vida inteira ouvindo de familiares, amigos, colegas e até estranhos que sua existência enquanto mulher não está completa, que você fraassou de alguma forma. Se você escolher não se vestir “como menina”, sofrerá bullying na escola, será isolada de círculos sociais, rejeitada nas relações afetivas, preterida em entrevistas de emprego, e corre até o risco de ser agredida verbal e fisicamente por aqueles que acham que você “precisa de uma pica pra virar mulher”. Então acredito sim que algumas coisas nos são impostas, é muito dolorido negá-las, e aí que tá: não tem problema se você não quiser se livrar de todas essas amarras porque a retaliação seria um custo alto demais. Só é importante que você entenda e reconheça que sua “escolha” não foi tão livre, e portanto reconhecer a dor de quem sentir maior necessidade de quebrar essa estereótipo.
Até aqui a única coisa que concluímos é que eu não sou libfem, certo? Mas péra, e os homens? — iuzomi! Eu tenho uma visão bem libfem a respeito do lugar dos homens no feminismo! Eu acho que eles são necessários no processo de mudança sim, nós precisamos que eles mudem com a gente, e se nós conseguirmos “convertê-los” de forma pacífica será bem melhor do que via confronto. Eu não tô nem aí se ele quer se entitular feminista, pró-feminista ou machista em desconstrução, contanto que ele entenda que o mundo sempre inferiorizou as mulheres, que isso precisa acabar, e AJA para corrigir essa desigualdade! Eu acho que é importante ter uma noção de protagonismo e local de fala: um homem, por mais bem-intencionado que seja- nunca vai entender o que é ser uma mulher tão bem quanto…uma mulher. É preciso aceitar que o fato dele não “entender” 100% um problema não quer dizer que esse problema não existe. É preciso, ao buscar apoiar o feminismo, aceitar que em toda sociedade a voz do homem vale mais que a voz da mulher, então no feminismo isso preciso ser invertido. Geralmente quando um homem acha que algo está 50/50, é porque ainda está pelo menos 70/30 — favorável pro lado dele. E não necessariamente é por mal, mas da mesma forma que nós mulheres fomos socializadas para nos calar e estamos acostumadas a ser ignoradas, eles estão acostumados a serem uma voz relevante e a terem razão. Meninos, no feminismo a palavra-mágica é: ouvir. Antes de fazer textão, compartilhe o textão da amiga. Antes de querer ensinar uma mulher a ser feminista, ensine um amigo homem a não ser machista. Você nos é mais precioso “lá fora” do que aqui dentro, e quando uma mulher diz que você está sendo machista, você provavelmente está.
E olha só, só o fato de eu ter dedicado um parágrafo inteiro da minha militância para falar sobre/com homens já faria de mim uma libfem. Oh well.
Aí tem a questão das outras opressões. Eu precisei (olha que egocêntrica rs) descobrir a opressão de genero que me afetava primeiro, para só assim descobrir e entender as outras. Pra entender o quanto, ainda que eu fosse oprimida por ser mulher, eu era privilegiada em termos de raça, padrão estético, sexualidade, identidade de genero e classe social. E ao entender essas outras lutas como de igual importância que a “minha”, ao entender que eu também precisaria desconstruir a racista dentro de mim por exemplo, eu me identifiquei com o feminismo interseccional. Essa vertente busca fazer todos os recortes dentro da sociedade, para entender que ainda que nenhuma opressão seja maior que outra, elas podem se acumular, deixando algumas pessoas em posições cada vez mais vulneráveis na sociedade. Nessa visão, não adianta nada dizer que “homem não deveria querer ditar o que é ou deixa de ser machismo, pois não sente na pele”, e depois querer definir o que é ou não é transfobia por exemplo.
Essa identificação com o interseccional -e qualquer identificação com o libfem- me distanciaria totalmente do feminismo radical por exemplo. Mas aí vamos falar de teoria. Eu acredito que se gênero não existisse, se nós simplesmente nascêssemos com genitais diferentes mas nada diferente acontecesse por isso, não haveriam pessoas transsexuais. Pois se cada um de nós pudesse fazer qualquer escolha de comportamento, de habilidades, gostos, estética, sexo, sem os papéis de gênero nos limitando, não só nos acabaríamos com o machismo, como acabaria a homofobia (sem indicadores sociais e estéticos óbvios, você geralmente só descobriria o genital de uma pessoa depois que já se sentiu atraído por ela, então definir sua sexualidade nem seria algo muito necessário), e logo com a disforia de gênero — já que uma pessoa não teria porque não se identificar com o papel que lhe foi designado porque não haveria papel designado at all, ela poderia ser livre pra ser quem é sem precisar “mudar” nada. Eu acredito que essa seria a solução mais completa para muitos preconceitos. Também acredito que o que me faz “mulher” é a socialização que recebi aliada à minha biologia, e não nenhum dos estereótipos de feminilidade. O fato de eu acreditar nessa teoria acima não só faz de mim uma radfem, como pode parecer transfóbico — estou me expondo à sérias críticas de amigas feministas ao escrever isso aqui.
A razão pela qual eu “rejeito” esse alinhamento com o radfem é a relação que eu tenho entre teoria e prática. O radfem é conhecido por invalidar a existência de pessoas trans, dizer que mulheres trans são “homens de saia”, e que aderir à diversos estereótipos de feminilidade não só não fazem de um homem uma mulher, como é ofensivo à mulheres as reduzir a estes estereótipos. E é aqui que eu coloco um limite: esse mundo sem-gênero da teoria ali em cima não existe. Seria lindo, opa, mas ele não existe e não está nem perto de existir. Portanto, uma pessoa que nasce com genitais masculinos, mas se identifica com tudo o que constitui o mundo feminino (porque infelizmente na nossa sociedade, isso existe e é o pensamento hegemônico), se sentirá deslocada, e se encaixará melhor como uma mulher. Quem sou seu pra dizer que essa pessoa não deveria buscar o que lhe parece corresponder à sua essência? Essa pessoa sabe muito melhor de si do que eu. Essa sociedade cheia de estereótipos de papéis de gênero prejudica essa pessoa tanto quanto ME prejudica, e eu não vou duvidar do seu sentimento, e vou respeitar a forma com a qual ela quer se identificar. E vou entender, que da mesma forma que todas as outras opressões, essa faz de mim uma privilegiada — ainda que como mulher eu seja oprimida por uma estrutura parecida, mas não igual. Para mim, não há ideologia no mundo que justifique passar por cima da existência de alguém, e eu jamais faria coro às inúmeras humilhações que as pessoas trans já sofrem na nossa sociedade. Falamos que piadas e expressões machistas também contribuem para a violência contra a mulher, então é apenas lógico entender que, mesmo que não sejamos nós a matar transsexuais, palavras que deslegitimem a existência delas também são transfobia. Essa parte do texto me faz uma interseccional anti-rad. A verdade é que eu acho que existe um belo punhado de meio-termo que não está sendo entendido por nenhum dos lados. Eu acredito que tenho o direito de entender minha mulheridade da forma que eu quiser, acreditar na teoria que eu quiser, falar de menstruação e gravidez nos espaços feministas, mas não tenho direito de invalidar a existência e identidade de ninguém. Esse meio do caminho anda meio perdido, mas é nele onde eu me encontro.
Por fim, ainda que eu respeite muito quem busca mudanças de formas mais revolucionárias e “agressivas”, e também respeite aquelas que buscam mudança através do pacifismo, sem entrar em cofronto, eu me encontro mais uma vez no caminho do meio. Eu procuro mudança de forma estratégica e política. Acredito que o embate é necessário, pois estamos combatendo uma ideia hegemônica, e portanto encontraremos resistência. Sempre haverão os homens que lutarão até o fim pelo seu “direito” de humilhar e silenciar mulheres através de piadas, expressões, comportamentos banalizados. Sempre haverão homens que insistirão que transar com uma mulher desacordada está ok, que sua namorada tem a obrigação de lhe fornecer sexo, que uma mulher deve cuidar das crianças e da casa. Sempre haverão os que acham que sabem melhor sobre a luta das mulheres do que as mulheres (quer sintoma maior de machismo?). Que estes não contem com o meu silêncio, pois eu não deixarei de enfrentar, incomodar, questionar e confrontar. Mas medirei minhas palavras, escolherei minhas lutas, entenderei quem é o inimigo real, e sempre que possível, serei didática e paciente.
Esse é o meu feminismo.
Uma mistura de várias vertentes.
Ele não busca invalidar o feminismo de ninguém, ou mesmo servir de exemplo. Só busca ser respeitado, e constribuir para o objetivo de todos os feminismos: uma sociedade sem desigualdades, com respeito às diferenças, com menos violência, menos padrões e mais dignidade para todos.