Um resposta à Camille Paglia
E porque sua entrevista à Folha em 2015 é cheia de falácias
Camille Paglia deu esta entrevista para a Folha de São Paulo em 2015:
E desde então eu vejo esse link pipocar nas redes sociais vez ou outra, ora através de pessoas que se entitulam anti-feministas ou que não acreditam na necessidade atual do feminismo; ora através de pessoas que eu considero bem esclarecidas/inteligentes — e toda vez esse artigo me deixa irritada. Já tentei reler respirando fundo e tentando gostar, juro. Então resolvi pontuar aqui porque essa entrevista deixa eu (e a maioria das feministas) virando os olhinhos. Poderíamos resumir em três características principais: falta de conhecimento (ou desonestidade intelectual) a respeito do que de fato é o movimento feminista contemporâneo, determinismo biológico, e a insistência em classificar a visão de mundo dela como universal. Vamos às frases mais problemáticas:
“Eu admiro demais essa geração de mulheres. Porque elas não atacavam os homens, não insultavam os homens e não apontavam os homens como fonte de todos os problemas das mulheres. (…) Hoje em dia, as feministas culpam os homens por tudo! Elas exigem que os homens mudem, querem que eles pensem e ajam como mulheres, almejam que o protagonismo dos homens seja reduzido.”
Aqui ela fala sobre as feministas da segunda onda, e diz que as feministas atuais atacam/insultam homens, os colocam como fonte de todos os problemas e exigem que eles mudem. Veja, eu não sei que teoria feminista contemporânea ela anda lendo, ou que grupos anda frequentando, mas aqui vale um disclaimer que já está até poído de tanto usado: o feminismo é um movimento, não um dogma. Dentro dele existem diversas vertentes e nessas vertentes, diversas mulheres que pensam de formas distintas. E posso dizer que as feministas que se comportam como ela diz nesse trecho são um número minúsculo perto da completude do movimento. E veja, quando o feminismo coloca os homens como fonte de diversos problemas, e portanto responsáveis diretos pela mudança, não estamos sendo loucas histéricas, estamos usando dados e sendo factuais. É FATO que a imensa maioria dos homicídios, estupros, casos de violência doméstica e agressões são cometidas por homens. Isso é um fato numérico, e apontá-lo não é “culpar os homens por tudo”. É deixar claro onde está o problema. E quando um problema está claramente nos homens, este mesmo feminismo prega que isso não é diretamente “culpa” dos homens, e sim de uma cultura machista e patriarcal, criada e mantida por homens à centenas de anos. Uma cultura que criou uma noção da masculinidade extremamente tóxica e agressiva. Num mundo como hoje, sério que parece ruim pedir que os homens mudem?
“ As mulheres precisam se responsabilizar por suas vidas e parar de culpar os homens por seus problemas, que têm mais a ver com questões e estruturas sociais, e não são fruto de uma conspiração masculina.”
Mulheres precisam se responsabilizar por suas vidas — correto. Porém quando homens são os responsáveis diretos por suas mortes, não só é difícil como é simplesmente errado tirar essa responsabilidade deles. Se eles que matam a agridem não devemos ficar pensando o que nós mulheres fizemos para merecer, e sim que tipo de homens a sociedade está criando para ter resultados tão ruins. Que os problemas tem a ver com estruturas sociais e não conspiração masculina? Corretíssimo. Não quer dizer que não devem ser combatidos.
“ Mas, em toda a história da humanidade, as mulheres viveram entre si e os homens viveram entre si. Eram dois mundos separados. A mulheres cuidavam das crianças, da casa, da alimentação, e os homens caçavam e faziam o trabalho pesado.”
Nossa, gata, não. Tem tanto estudo que mostra as mais variadas combinações de atividades nas tantas civilizações antigas, que essa colocação é pura falta de conhecimento.
“É muito frustrante para os dois porque, neste ambiente neutro (o ambiente de trabalho), em que as mulheres ganharam muito poder, a sexualidade do homem ficou neutralizada. E essas mulheres querem se casar com um homem com quem seja fácil se comunicar. E fora do ambiente de trabalho, qualquer homem que se comporte como homem provoca reações negativas.”
A sexualidade do homem dependia de ser o único no mercado de trabalho? Ahn? É absurdo que mulheres queiram estar com homens que se comuniquem? Eu acho que é saudável, inclusive, um dos melhores “ensinamentos” da vivência feminista é que é melhor estar sozinha do que mal acompanhada. E o que seria um “homem que se comporte como homem”?? Aqui ela começa a mostrar que acredita num determinismo biológico bizarro, que hoje em dia só tem base em religiões, pois os saberes científicos e sociológicos já refutaram que exista um “cérebro masculino e outro feminino”. Como Beauvoir já dizia, não se nasce mulher, torna-se. E isso quer dizer que a imensa maioria das diferenças sociais e comportamentais que observamos em mulheres e homens são fruto da cultura e da socialização. Não existe um pensar como mulher, um pensar como homem, existe uma forma de olhar o mundo, que é geralmente condicionada pela cultura, que determina formas masculinas e femininas de ver o mundo.
“ E os homens heterossexuais jamais serão capazes na arte da análise emocional”
Oi? Novamente, um determinismo biológico que ESSE SIM inferioriza o homem. Eu (e a maioria das feministas, e a comunidade científica) acreditamos que o homem é tão capaz emocionalmente quanto uma mulher, ele só foi menos condicionado a desenvolver esse lado durante sua vida — e portanto precisa praticar e aprender.
“Há uma terrível desconexão para as mulheres entre suas vidas profissionais e amorosas. Para os homens não é tão difícil porque eles encontram sexo mais facilmente. Eles não precisam casar com uma mulher para fazer sexo com ela. Para mulheres, é um período terrível de infelicidade, porque elas têm muita dificuldade em ajustar a mulher do trabalho, que tem poder e conquistas, com a mulher emocional, uma arena na qual as habilidades exercidas no escritório não funcionam.”
Aqui já parece que estamos lendo um panfleto dos anos 50. Não sei em que mundo ela vive, mas definitivamente não é mais fácil para homens encontrarem sexo, e as mulheres também não precisam casar para fazer sexo. A dificuldade que a maioria das mulheres sente em conciliar trabalho e carreira é de fato real, mas não vem de uma suposta “essência” feminina que seria “natualmente” conflituosa. Ela vem de alguns fatores também comprovados por estatísiticas: 1) as mulheres ainda são deixadas com a maior parte do serviço doméstico e do cuidado com os filhos (o que cria uma dupla jornada e torna o dia mais exaustivo para ela) — e isso acontece não porque homens são incapazes de tarefas domésticas, e sim porque existe uma cultura enraizada que os livra dessas funções; 2) ainda que as diferenças emocionais entre homens e mulheres sejam fruto da cultura e da socialização, elas são reais, e as caracterísicas que são moldadas como femininas são menos valorizadas no mercado (basicamente quer dizer que condicionamos mulheres para terem caracterísicas que vamos subvalorizar posteriormente); 3) a licença maternidade ainda na maioria dos países é apenas para a mulher, o que além de tornar menos vantajoso empregar mulheres — fazendo com elas tenham receio de engravidar- , as deixa como únicas responsáveis pela criação dos filhos. O ideal aqui seria uma licença conjunta, que o casal divide como achar melhor — como já é feito em diversos países mais desenvolvidos em questões de gênero. Isso tudo considerando é claro, mulheres que QUEREM ter filhos. Camille parece não considerar que existem mulheres para as quais essa simplesmente não é uma questão.
“ Para os homens é frustrante porque, se o trabalho que eles fazem pode também ser feito por uma mulher, no que consiste sua masculinidade, afinal? Se antes o homem tinha o trabalho pesado, braçal, hoje, eles estão se perguntando quem são.”
Sempre dizemos que o machismo é pior para mulheres, mas também é ruim para os homens. E isso se manifesta justamente nisso: nessa noção tóxica de masculinidade. Nesse conjunto de regras que determina “o que é ser homem”. Não é a falta de oportunidade de “poder ser homem” que deixa os homens frustrados, e sim o fato deles sentirem que devem cumprir essa tabela. Mulheres e homens devem ser livres para ser quem são, e sua essência não deve obrigatoriamente depender do trabalho ou da “aventura”. E mais importante: o que constitui a essência de um não pode ser exclusiva, uma atividade não pode ser boa SOMENTE se ela só é praticada por homens. Esse tipo de pensamento prejudica o mundo todo.
“ Hoje, suas vidas são como as de prisioneiros: presos nos escritórios, sem oportunidade para ação física e aventura.”
NEWSFLASH: mulheres também ficam entendiadas, mulheres também sentem falta de ação física e aventura. Aqui temos um problema de como a sociedade de trabalho se desenvolveu, nos afastanto da natureza e dos nossos corpos, que nada tem a ver com questões de gênero.
“ O feminismo cometeu um grande erro ao difamar a maternidade. Quando a segunda onda do feminismo começou no final dos anos 60 e início dos anos 70 e foi piorada pelas ideias de Gloria Steinem, que pregou a desvalorização da mulher como esposa e mãe, e a valorização da mulher profissional como aquela que é realmente livre e admirável.”
Aqui confesso que me surpreende que uma pessoa inteligente como Camille tenha essa leitura tão falaciosa. O feminismo não difama a maternidade. O feminismo (ah seu eu ganhasse 1 centavo cada vez que digo isso) luta para que cada mulher seja livre para fazer suas escolhas. Dentro de um contexto em que A REGRA é que toda mulher deve experimentar a maternidade, é necessário mostrar que isso não é obrigatório. Quando dizemos que mulheres podem ser felizes sem a maternidade não estamos dizendo que não podem ser felizes sendo mães. Da mesma forma que quando a REGRA, o status quo dizia que mulheres deveriam cuidar da casa, era necessário mostrar que ela poderia ser bem sucedida no mercado de trabalho também. Mostrar opções diferentes do que prega status quo NÃO é a mesma coisa que dizer que o status quo é errado. Isso é interpretação de texto básica.
“ Há todas essas pessoas com ideias estúpidas, que derivam de Michel Foucault (1926–1984), negando a existência dos gêneros. Dizem que o gênero é algo imposto pela sociedade, que não há base biológica para a ideia de gênero. Essas pessoas estão malucas? Elas não sabem que toda e qualquer pessoa que está na face da Terra nasceu do corpo feminino?”
Linda, ninguém nega as diferenças biológicas dos corpos. O que se nega é o conceito de PAPEL DE GÊNERO, de que porque se nasceu com genital y se deve comportar de tal forma.
“ As mulheres que têm sucesso com os homens são aquelas que mantém uma certa qualidade maternal e entendem as fraquezas dos homens. E têm pena deles por isso. Elas tratam homens com humor e conseguem entender as necessidades dos homens e nutri-los de certa forma.”
Oi? Eu sempre tive muito “sucesso com os homens”, muito bem obrigada, e nunca os tratei como inferiores, incapazes emocionais e muito menos me senti na obrigação de nutri-los. Companheira/esposa NÃO É mãe/pai.
“ A mulher tem de escolher entre carreira e maternidade? — “Sem dúvida”
Essa acho que nem vou me alongar, outro comentário que parece saído do século passado. Se o pai divide igualmente a responsabilidade pela cria, ambos podem prosperar em outras atividades.
“ As universidades têm que ser mais flexíveis na oferta de cursos para mulheres e de berçários nos campi para que elas deixassem seus filhos por algum tempo. Deveria ser possível para uma mulher jovem decidir ter filhos cedo e continuar a estudar meio período ou fazendo uma disciplina por vez, levando mais tempo para se formar.”
Acho que esse é o único trecho que eu concordo com ela rs. Realmente, deve ser dada a oportunidade da mulher ser mãe SE ela quiser e QUANDO ela quiser.
“ De repente, a realidade vai bater: no momento em que deixarem seus empregos, elas não terão nada e serão rapidamente esquecidas. Poderão ter uma aposentadoria financeiramente confortável, mas é só. Enquanto as classes mais populares terão as crianças já crescidas e os netos e os bisnetos. E isso traz um novo sentido à vida.”
Aqui Camille novamente está mostrando que impõe seu juízo de valor pessoal como regra para todas as mulheres. Tem mulheres que querem uma família? Tem. Tem mulheres que vão chegar na terceira idade e vão ser felizes com sua liberdade? Tem. Fingir que não tem é querer estabelecer um dogma que todos devem seguir.
“ Eu apoio a união civil, mas nunca apoiei o casamento gay, por exemplo. Não acho que o governo deve se envolver em casamento, um termo circunscrito à Igreja. Perante a lei, deve haver igualdade de gêneros e orientações sexuais. Mas deve haver mais respeito por religião. Se você quer se casar, vá a uma igreja que aceite casá-lo.”
Aqui ela novamente destila preconceito e desinformação. O casamento NÃO É apenas um conceito religioso. Também é um conceito legal e social. Se homossexuais podem casar na igreja, é uma escolha da própria igreja. Agora se eles querem casar peranto o Estado, eles devem ter esse direito.
“ No entanto, essas meninas são totalmente incoerentes ideologicamente. Femen não faz o menor sentido, é algo fabricado que não tem nenhum sentido político”
Aqui ela fala mal do Femen. Ótimo, TODAS as feministas que eu conheço também falam, e este movimento nunca representou o feminismo pra ninguém além de pessoas que queriam difamá-lo.
“ Se você vai provocar e usar roupas para demonstrar que está disponível sexualmente, porque é isso o que você está fazendo. Está dizendo: sou uma mulher que gosta de sexo e estou pronta para receber ofertas. Mesmo que as mulheres demandem o controle masculino, sempre vai haver um psicótico ou um criminoso que será impossível controlar. Não dá pra pedir para a sociedade a proteger o tempo todo. Se você é uma mulher livre, você tem que aceitar que, toda vez que se vestir de modo convidativo, está enviando uma mensagem e tem de se defender se for necessário.”
Socorro, tanta coisa errada. 1) qualquer pessoa que estuda os significados da moda e da vestimenta sabe que existem muitas variáveis aqui, não existe isso de “essa roupa significa x, essa outra significa y”. Não existe uma roupa que diz “estou disponível para sexo”, e mesmo que existisse, o conceito de CONSENTIMENTO é tão básico e tão necessário que não faria diferença a roupa. Sim, homens devem se controlar pois não tem direito ao corpo alheio, FIM. Podem haver psicopatas e é bom saber se proteger? Sem dúvida, mas quando protestamos contra assédio e estupro não estamos falando dos casos raros de psicopatas e pessoas com problemas mentais, e sim da REGRA, que é homens socialmente e culturalmente criados para acharem de tem poder e direito sob o corpo feminino. Esse conceito deve sim ser combatido.
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Resumindo, Camille nessa entrevista tenta impor sua visão de mundo e dizer o que as mulheres devem ou não fazer. O que definitivamente não tem NADA de feminista.
