Diga aos lobos, que eu estou em casa.

Pouco depois do crepúsculo, em uma noite de lua cheia, chegava à uma silenciosa cidade do interior o último ônibus do dia. E dentre os pouquíssimos passageiros, havia uma garota que aparentava estar no fim da adolescência. Levava consigo apenas uma mochila. Ao descer do veículo, ela avistou um pouco ao longe, nos limites entre cidade e floresta, uma criatura quadrúpede e de uma pelagem branca que lembrava neve. Era um lobo que a observava, imóvel como ela. O motorista ao descer também, e sem notar a presença do animal, alertou:

— Nessa época a cidade se recolhe cedo. Melhor ir para casa senhorita, a temporada de caça começou há pouco, então ainda tem muitos lobos por aí, e eles podem estar irritados. Às vezes entram nos limites da cidade.

Ela apenas concordou com um movimento de “sim” com a cabeça, e caminhou em direção à uma rua qualquer. Ao se distanciar, olhou ao redor e percebeu não haver pessoas na rua, não naquela rua. Virou uma esquina e se direcionou à floresta, ignorando a recomendação do senhor. Adentrou à mata iluminada pela lua e quebrou um galho de uma árvore baixa. Andava usando o galho como cegos usam uma vara. Se assustou levemente quando o pedaço de madeira enroscou em uma armadilha escondida sob folhas, que prendeu o objeto como era esperado que agarrasse a pata de um lobo ou outro animal. Desmontou o objeto de metal, e seguiu seu caminho, desfazendo as armadilhas que ia encontrando.

Chegou à uma parte da floresta em que havia mais espaço entre as árvores e ouviu um quebrar de galhos no chão que não vinha de seus passos. Se deparou com o lobo que anteriormente à observara, mas desta vez, ele baixava um pouco a cabeça e estendia uma pata à frente, que diferente da pelugem branca do restante do corpo, estava avermelhada. A garota abaixou-se, colocou a madeira de lado e pegou a pata machucada entre suas mãos. Fechou os olhos e respirou fundo lentamente. Abriu os olhos, e ao abrir as mãos, o membro estava curado e o pelo não estava mais manchado de sangue. Levantou-se, e anunciou:

— Diga aos lobos, que eu estou em casa.

E o lobo uivou.

Peeira ou fada dos lobos é o nome que se dá às jovens que se tornam guardadoras ou companheiras de lobos. Elas são a versão humana e feminina do lobisomem. A peeira tem o dom de comunicar e controlar alcateias de lobos.

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