Entrevista marcada

Quando foi a última vez que você, desempregado e desiludido, que depois de tanta procura acha que o lixeiro dos não-recicláveis é o melhor lugar para o seu currículo recheado de carga horária, saiu esperançoso após uma entrevista de emprego?
Esperança: sentimento que surge logo após a entrevista de emprego.
Você não sabe, mas eles vão olhar o seu currículo como se estivessem olhando o próprio papel higiênico sujo. Já você, observa seu currículo como se fosse uma obra de arte inacabada, como se precisasse de mais algum retoque, uma outra formação, mais uma horinha complementar, mas, olha, se bem que um cursinho profissionalizante cairia bem aqui em Formação, não é?
Então a gente paga o conhecimento que o nosso currículo merece, estuda e constrói um muro de livros concretizado de ismos e logias, enche o computador com artigos que você nunca leu por inteiro, na tentativa de um dia a leitura científica vir a ser um hobbie.
Num belo dia você acorda com uma energia estranha que faz com que você cadastre seu currículo em todos os sites de emprego — inclusive aqueles que você ridiculamente paga para ter acesso às vagas. A probabilidade de alguém te chamar é 0, já a probabilidade de você receber um e-mail publicitário…
A sua última entrevista de emprego rendeu planos e ansiedade. Antes da entrevista você estava nervoso, não comeu muito e ficou monologando como se fosse participar de um documentário autobiográfico. No dia E (entrevista), você esperou alguém enquanto sentava numa cadeira-banco estofada e fabricada em série, um clássico das recepções. O entrevistador apareceu, vocês se cumprimentaram e entraram em uma outra sala. Você se esforçou o máximo pra ser tão natural quanto a pessoa a sua frente, que olhava para o seu currículo fingindo que nunca havia visto nada igual.
Acabou. Ele vai esperar mais algumas pessoas mandarem currículo, mas ele gostou de você. Você saiu da entrevista todo cheio de ressentimento. Mas, calma, lembre-se: ele gostou de você!
Desesperança: sentimento que surge semanas depois da sua última entrevista de emprego.
O tempo passa e ninguém te responde. Você começa a crer que deveria ir junto com o seu currículo pro lixo dos não-recicláveis. O otimismo é engolido pelo pessimismo. O que você fez de errado? Seria o seu admirável currículo? Ou a sua falta de experiência na experiência que você nunca teve oportunidade de adquirir profissionalmente? Seria a sua péssima dicção? Seus vícios de linguagem, né?
Bem, não é nada disso. A verdade é que a partir do momento em que você se levantou da cadeira fabricada em série e cumprimentou a tal pessoa, você estava cara a cara com o seu “desempregador”.
