Falar sobre ciência fora da universidade

Moacir Antonelli Ponti

A necessidade de divulgação científica e o festival Pint of Science

  • Essa é uma iniciativa individual, as opiniões aqui descritas não refletem necessariamente as da instituição para a qual trabalho

Em 24 países o “Pint of Science” leva pesquisadores para bares, restaurantes ou espaços informais, onde esses falam sobre ciência e respondem a perguntas. No Brasil são mais de 80 cidades, e São Carlos foi a primeira a realizar esse festival em 2015.

Semana de 20 a 24 de Maio de 2019

Nessa semana, além das aulas e atividades regulares, ainda tive uma reunião da Comissão de Cultura e Extensão Universitária, na qual discutimos sobre novos cursos que em breve serão abertos à comunidade, sobre novas maneiras de melhor administrar grupos de extensão, entre outros assuntos. Também realizei reuniões para orientar alunos . Mas nada me consumiu mais do que a organização do “Pint of Science” São Carlos.

Divulgando ciência

Na língua inglesa: “pint” significa uma dose de 568ml e seria o equivalente do nosso “chopp”. Essa é uma pedida bastante comum nos bares do Reino Unido (onde o festival se originou). Assim, o festival propõe substituir a bebida por dose de ciência. Divulgar a ciência num ambiente descontraído, aproximando temas científicos do público geral interessado.

A divulgação científica é uma necessidade. O isolamento da academia faz com que a sociedade não entenda o papel das universidades e centros de pesquisa na construção de um mundo melhor. E o evento cumpre parte desse papel, trazendo as pessoas para o bar ou outros espaços mais informais, e atraindo interesse da mídia, que amplia o alcance do festival.

Quem foi aqui em São Carlos descobriu que futuras teorias poderão ser criadas por cientistas que hoje são adolescentes surdos participando de experimentos espaciais. Enquanto isso, cientistas de dados criativos melhoram a produtividade no campo com ajuda de tecnologia apenas possível com a ciência básica feita por Einstein há mais de um século.

Participantes fazem um exercício no memorável bate-papo sobre o “Mito da Criatividade”.

Só uma ideia de como o evento traz coisas interessantes e diversas: num dos bate-papos o Garatéa-ISS foi apresentado — o líder do projeto e estudantes do ensino fundamental falaram sobre o impacto desse projeto de ciências espaciais no ensino. Infelizmente não assisti, pois estava responsável por outro local. Como a ciência ainda não inventou uma tecnologia de bilocação para meros mortais, não vou falar sobre todos os 9 bate-papos. Se quiser saber mais, dá uma olhada no evento Pint of Science 2019 São Carlos no Facebook.

Da esquerda para a direita: Lívia e Victor, da escola Olga Benário Prates, viajaram desde Diadema para dar seu depoimento por sua participação no projeto Garatéa-ISS; outros estudantes de São Carlos também marcaram presença.

Dia 21 (terça) — O Mito da Criatividade

No segundo dia do evento a Profa. Patrícia Schelini falou sobre a criatividade e o pensamento imaginativo, trazendo conhecimento que destrói mitos, mostrando o que se sabe hoje sobre o processo criativo. Descobrimos que o momento visionário, ou o insight, não ocorre do nada, mas apenas quando estamos preparados.

O talento criativo em uma área é transferível a outra? Não diretamente!

Aprendi também que o contato maior num certa área e a maior experiência nos dá maior capacidade criativa naquele domínio, já a transferência para outros domínios é mais restrita.

Também foram apresentados conceitos como fluência, que é saber não apenas reproduzir, mas lidar com diferentes temas dentro do domínio, flexibilidade que é adaptar conceitos a diferentes aplicações, entre outros.

O bate-papo foi ótimo e incluiu abertura com tema do Star Wars e exemplos de criatividade do brasileiro, que se vira quando tem que fazer acontecer com poucos recursos — o cientista brasileiro que o diga!

Dia 22 (quarta)— Apertem os cintos: o cientista de dados sumiu

A ciência de dados é uma área que coleta, processa, analisa e visualiza dados de forma mais sofisticada para apoiar a tomada de decisões. Nesse dia, eu e o Prof. Gustavo Nonato — meu colega no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) — falamos sobre o profissional cientista de dados, que deve ter boa formação em computação, matemática, estatística, além de conhecer o domínio de aplicação.

Esse é um profissional raro pois há poucos cursos de formação nessa linha e os que existem ainda estão em constante modificação. Foram mostrados exemplos de aplicações que envolvem o estudo de resultados educacionais relacionados a dados urbanos e de violência, bem como uma aplicação de análise de dados que envolve políticas públicas para o sistema único de saúde (SUS), auxiliando agentes de saúde no atendimento a idosos. Esses projetos são desenvolvidos no contexto do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CEMEAI), que é sediado no ICMC.

Você tem um tempo para ouvir a palavra de Bayes?

João Guilherme e do Gustavo Sutter, ambos alunos do grupo de extensão DATA, mostraram uma rede neural para detecção de objetos rodando ao vivo.

Depois tivemos uma discussão bastante interessante, que envolveu aspectos éticos da ciência de dados, e até conceitos como o colonialismo de dados.

Dia 20 (segunda) —Einstein não morreu

Acharam que eu tinha pulado o primeiro dia? Deixei por último porque foi o mais difícil, mais tenso. A semana anterior tinha sido de muito trabalho e preparação, e antes de saber que seria um sucesso, estava na expectativa — será que as pessoas vão aparecer? Será que vai dar tudo certo? Bom, deu tudo certo, e vou contar como começou.

A casa estava cheia já próximo das 19h00 e tivemos a presença da EPTV registrando e entrevistando (mãe, olha eu na TV), que colaborou na divulgação do evento, mas me deixou um tanto ansioso. A apresentação e bate-papo envolveria ciência básica (matemática, física, biologia, química e também ciências humanas).

A ciência básica pode parecer tolice ao primeiro olhar. Qual seria a finalidade, por exemplo, de se estudar a composição química e molecular do ouriço da castanha-do-pará? Qual seria a necessidade de se fazer um ensaio sobre a liberdade? Para quê estudar o espaço e o tempo, se as leis de Newton já dão conta de quase tudo?

Einstein fazia ciência que em curto prazo não teria impacto na economia ou na indústria. Não traria melhorias para o sistema de saúde ou para governança. No entanto, suas descobertas mudaram o mundo e o colocaram como uma figura icônica, um “santo”, nas palavras do Prof. Nelson Studart, que contou como os experimentos dos anos 1910 foram importantes para confirmar a Teoria Geral da Relatividade, e canonizar Einstein.

Prof. Nelson conversando sobre Einstein e suas descobertas, mas relembrando que o Niltão — também conhecido por Isaac Newton — continua atual

Verdadeiros milagres ocorrem quando se investe em ciência, e a ciência básica é uma das mais importantes pois seus resultados, ainda que não sejam imediatos, tem uma cauda longa de impacto. A melhoria de tecnologias de sistemas de posicionamento (como o GPS), do laser, entre outras, devem em muito a essa ciência básica. Toda uma nova área de pesquisa se abre com as teorias de Einstein, que eram confirmadas há 100 anos tendo como palco principal a cidade de Sobral no Ceará.

Agradecimentos: ficam as palmas para os organizadores e colaboradores do evento: Denise, Marcelo, Karina, Thaís, Stefhanie, Letícia, Raquel, Letícia 2, Paulo, Sara, Fer, Wanessa, Carolina, Thaís Carvalho, Juliana, Eder, Neylor, Marília, Fernando, Edilson e Ana (acho que não esqueci ninguém!). Fica também a sensação de dever cumprido, de ter aproximado um pouco mais a ciência do público geral, e a vontade de continuar.

Palmas entusiasmadas após o bate-papo “Einstein não morreu”, no primeiro dia do Pint of Science São Carlos 2019
E que equipe! Tá faltando muita gente aí, mas essa era a foto mais completa que eu tinha.

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