“A Sangue Frio”: mesmo após 50 anos de sua publicação, o livro continua aclamado por sua mescla de jornalismo e literatura

Malu Rodrigues
Aug 22, 2017 · 6 min read

Por: Maria Luisa Rodrigues

1959, Holcomb no Kansas. Uma família. Quatro assassinatos brutais. Uma busca incessante pelos suspeitos. A chocante morte dos membros da família Clutter, Herb, o patriarca, Bonnie, a mãe, e os filhos Kenyon e Nancy, foi relatada pelo jornalista Truman Capote no atemporal “A Sangue Frio”, (“In Cold Blood”, no original), de 1966. Todo o processo de descobrimento da chacina pelos moradores da cidade interiorana, a trajetória dos assassinos e até a conclusão do caso são contados minuciosamente por Capote após seis anos de uma investigação e apuração consideradas por alguns como licenciosas e por outros como grandiosas.

Truman Capote começou sua carreira, com 24 anos, na década de 40 escrevendo contos para diversas revistas como The New Yorker e The Atlantic Monthly. Um de seus trabalhos mais reconhecidos foi o romance Breakfast at Tiffany’s (1958), que logo se tornaria um icônico sucesso filmográfico em 1961, denominado no Brasil como Bonequinha de Luxo. “A Sangue Frio” foi seu livro que virou best-seller e tornou Capote um dos grandes jornalistas literários de todos os tempos. Com essa publicação ele afirmava que havia inaugurado o “romance de não ficção”, ou seja, um novo gênero literário e uma reinvenção do jornalismo.

A história de “A Sangue Frio”, dividida em quatro partes, insere os leitores de maneira misturada em dois focos principais: a vida da família Clutter, mostrando sua relação com os moradores de Holcomb, e a vida de Dick e Perry. Desde o começo do livro o autor deixa claro que os membros do clã Clutter haviam morrido e que Dick e Perry estavam envolvidos na chacina. O grande do mistério do livro, que prende até o final, é saber como eles haviam planejado e matado e o porquê de tal motivação.

A forma como o enredo é contado entre seus tantos detalhes, que chegam a lotar duas páginas seguidas (se não mais), deixa ainda mais profunda e interessante a leitura. Quem lê se sente a par de tudo o que aconteceu, há um evidente objetivo de aproximar e fazer o leitor se sentir na cena.

A forma como todas as personagens são construídas, mostrando as diversas facetas de cada uma, inspira no leitor a expressão de vários sentimentos condensados. É quase impossível ser indiferente nesse cenário para com todos os envolvidos. A escolha das palavras por Truman torna qualquer parte da trama um momento delicado e faz o leitor tomar uma posição sobre tudo e todos.

Capa do livro “A sangue frio” na edição de 2003
De cima para baixo: Bonnie Clutter; Dick Hickcook; Perry Smith;Nancy Clutter; Herbert Clutter; Kenyon Clutter

O livro com as suas longas, interessantes, mas as vezes cansativas 432 páginas é dividido em quatro partes. A primeira parte, Os últimos a vê-los com vida, apresenta a pacata cidade de Holcomb. Toda essa caracterização é usada para o leitor se inserir na contradição do crime: uma cidade tranquila foi o cenário para um crime brutal que acometeu uma família respeitada do lugar.

Como se todo o capítulo fosse um flashback, Truman, que é o narrador da história, teve o cuidado de descrever minuciosamente toda a rotina de cada um dos Clutter e de Perry e Dick em situações pouco anteriores aos assassinatos. Com uma descrição que chega a arrepiar por sua profundidade, como diálogos da família entre si e ações específicas que poucos saberiam, parece que o autor estava presente em cada cena. Por essa pormenorização, o leitor cria uma conexão com as personagens. Fica se perguntando como tudo aquilo aconteceu, como aqueles passivos moradores de Holcomb foram mortos e como os criminosos conseguiam ser tão frios quando decidiam por exemplo quantos metros de fita usariam para o crime.

Um dos pontos mais incríveis desse primeiro capítulo acontece logos nas primeiras páginas, quando Truman faz a transição de apresentação dos envolvidos na tragédia. A cena é simples, o café da manhã. Mas a forma como a rotina de cada um é apresentada é singela e ao mesmo tempo impactante. Por um lado, Herbert acorda cedo todos os dias e apenas come uma maça e uma toma um copo de leite na sua casa, ao mesmo tempo que pensa ser contra a qualquer estimulante. Por outro, Perry estava em um café na estrada bebendo root beer, tomando três aspirinas e fumando cigarros Pall Mall. Essa comparação feita é importante para mostrar a diferente realidade das figuras.

Conforme as narrativas de todos avançavam, Truman chega a noite do crime apenas contando o final da noite dos Clutter e Perry e Dick estacionando no lugar do crime. A partir daí ele deixa o suspense crescer ao interromper a revelação da resolução do crime, e continuar a contando a história com os moradores da cidade descobrindo o crime e reportando as policiais.

A segunda parte, Pessoas desconhecidas, se inicia logo após o leitor se deparar com a triste cena do namorado de Nancy, Bobby, chorando e descobrir que os assassinos voltavam a rotina normal como se nada tivesse acontecido. A leitura do segundo capítulo é quase involuntária, pelo desfecho do primeiro capítulo trazer uma euforia e uma indignação, há uma necessidade de se saber como tudo irá terminar.

A partir daqui, é narrado as investigações e teorias que o Kansas Bureau Investigation (KBI) tinham em mente, e como os detetives se entregavam totalmente para resolver o caso. Além da apreensão dos moradores da cidade e das diversas especulações que tinham.

Também, as facetas de Perry e Dick começam a ser desenroladas, e o leitor se vê diante eles sem um total olhar de reprovação. Isso porque há um total de 20 páginas, além das que narravam a relação dos dois depois do crime, em que a história de Perry é contada por meio deste ou por meio de sua irmã. Elas se concentram na história de modo a ser desgastante por travar a continuidade do enredo e a resolução do crime. Mas o interessante é que elas chegam a criar em alguns leitores uma certa compaixão por ele, ou até raiva do autor por dar tanto foque no assassino do que no assassinato.

Resposta, a terceira parte da obra, começa a literalmente e finalmente dar uma resposta para o leitor e para as personagens. Há a aparição da figura de Floyd Lewis que decidiu o rumo das investigações e levou aos investigadores a acharem o paradeiro de Perry e Dick. Nesse capítulo também há a possível continuação da construção da imagem dos dois. Em trechos menores que prendem mais a atenção é perceptível ver as reais características dos criminosos frente as acusações os leitores creem que já tem uma visão formada deles.

O Canto, última parte do livro, traz o desfecho completo do crime envolvendo a família Clutter. Em um final de tirar o fôlego, o leitor não consegue se desprender até a última palavra. Após a leitura, há uma mistura de sentimentos que não podem ser explicados. A visão que antes já era formada, depois do final, torna-se vazia e necessária de uma outra leitura.

“A sangue frio” revela a combinação de toda uma investigação cuidadosa que traz à tona uma extraordinária matéria construída por Truman. O aparentemente relato simples de quatro homicídios se transforma em um texto de imensa importância, pela inteligência e atenção na interpretação do perfil psicológico e pela preocupação na seleção dos fatos e o que eles representariam. Apesar de ter sido publicado a mais de 50 anos, a forma como o livro se desenrola e a linguagem objetiva e cativante que mostra, tornam esse romance não-ficção atemporal e de extrema influência. Ele alcança uma originalidade, uma mescla de recursos literários ao mesmo tempo que mostra uma escrita jornalística impecável, que ao todo, imortalizam essa obra.

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