O jornalismo e o desafio de trabalhar na era da pós-verdade
Por: Maria Luisa Rodrigues
Diante de diversas plataformas de comunicação que trazem matérias rápidas, mas algumas vezes sem fundamento, Marcelo Cabral, renomado jornalista econômico, cria um debate com futuros jornalistas sobre como a era da pós-verdade atinge a profissão.

A era da pós- verdade tem se tornado um dos maiores desafios do jornalismo contemporâneo. As pessoas passam a acreditar mais em matérias que contenham traços parecidos com suas concepções pessoais, ou seja, crenças e ideologias já pré-estabelecidas, do que em fatos realmente confirmados. O jornalista Marcelo Cabral falou sobre esse assunto de forma descontraída e bem-humorada para os alunos do primeiro ano de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.
Formado em 2000 pela PUC-CAMPINAS, Cabral se especializou na área de jornalismo econômico. Atuou em veículos de comunicação nacionalmente conhecidos como G1, Época Negócios, Estadão, Exame e Veja. Atualmente trabalha como Consultor em Comunicação Integrada e se dedica a escrita de um livro sobre o delator da Lava-Jato, Marcelo Odebrecht.
Para ele, o modo como se deve combater as chamadas Fake News (notícias falsas) é a maior pergunta dos dias atuais, uma vez que elas se manifestam muito rápido pela sociedade. É imensa a quantidade de matérias que testemunham dados fictícios, seja para criar uma teia de mentiras apenas para chocar os leitores, ou pelo escritor não conseguir separar o que é informação e o que é opinião. E os atuais meios de comunicação são os que mais divulgam tais notícias, e por terem um grande alcance, muitos passam a acreditar nelas.
Marcelo afirma que as pessoas tendem a julgar uma notícia baseado se a escrita formada apresenta aspectos semelhantes aos seus pensamentos. Surge assim, uma corrente que promove no âmbito social a ideia de que a notícia deve concordar com quem ler, isto é, a reportagem precisa ter o mesmo ideário que o leitor e é exatamente por essa razão que ele continuará a lê-la. Suas concepções não são indagadas e então o leitor se acostuma e se conforta na sua posição que não é a de ser questionado, mas é a de questionar.
É evidente a existência marcante na atual sociedade de mídias que divulgam materiais com significante visualização. Marcelo as vê como importantes para mostrar e propiciar ao público uma diversidade nas fontes de informação. Tal variedade surge como uma fórmula para a democratização da informação. No entanto, ele contrasta que ao mesmo tempo em que há esse fenômeno, alguns canais informativos não tem uma estrutura jornalística adequada. Por terem uma demanda de uma divulgação rápida, os fatos não passam por uma análise mais aprofundada e não são verificados. Ou até por ultrapassarem o limite entre opinião e dados. Assim, há uma distorção do que é verídico. E é a partir de todo esse cenário que os boatos se tornam mais populares do que o fato em si. A verdade, então, torna-se uma demanda secundária.
“A melhor defesa é a qualidade da informação”. Essa frase explicita o foco de Cabral quando ele aborda o tema sobre as notícias falsas. Afirma que é exatamente nesse momento que a figura do jornalista é essencial e singular para que a informação seja transmitida de forma verídica para os leitores. Os profissionais da comunicação precisariam buscar sempre a coesão do que é discutido nas matérias. E para chegar nesse contexto, deveriam tentar fornecer a notícia da melhor maneira possível, seja pela escolha da linguagem, seja pelas fontes entrevistadas, ou até o canal que irá repercutir a informação. Deve haver a preocupação em transmitir para os leitores uma visão sóbria, que segundo Marcelo, necessariamente precisa ser mais precisa e correta todas as vezes que algo é publicado.
Outro ponto recorrente que Marcelo cita é a importância e o significado da referência no mundo jornalístico. A referência aqui tem como base a procura por personalidades com autoridade sobre determinado assunto e que consequentemente possuem propriedades para debater sobre ele. Dito isso, ele afirma que ela é o grande diferencial para separar o jornalismo de uma escrita que dificilmente propaga a verdade por completo. Ela garante a matéria e ao jornalista que a escreve um “selo de qualidade e credibilidade”, isso porque sempre há um teste quanto a veracidade e a qualidade da informação a partir dela.
Completando sua fala, Marcelo acredita que o jornalista sempre deve dar lugar a um trabalho 100% profissional. Ou seja, é necessário que ocorra a separação do que o jornalista acredita e do que ele deve transmitir, para que não haja nenhum conflito de interesses, além de nenhuma precariedade no formato da informação que o leito vai ler. É necessário ser cético o tempo inteiro. E o mais importante de todos, um jornalista tem que sempre colocar suas convecções a prova, por meio da leitura de matérias de veículos confiáveis ou questionando grandes figuras nacionais por exemplo, para passar transparência e garantir aos leitores uma informação completamente confiável.