É Possível Vencer em um RPG, Sim! (Ou, o Quê Pode Ser Vitória em Jogos Narrativos?)

Sabe… desde que me entendo por gente (e, principalmente, por Jogador/RPGista/Rolista/o termo que você preferir), me deparei com incontáveis definições sobre RPGs e jogos narrativos. Sua maioria se destinava ao público que não joga, ou que gostaria de conhecer nosso estimado hobby mais de perto.

Entre variações de analogias e descrições, encontrava sempre um ponto em comum nelas:

“Não existe vitória no RPG, porque não se trata de um jogo competitivo”.

Essa definição sempre me quebrou a cabeça. De me envolver com jogos (em especial, os eletrônicos), me acostumei com os conceitos de “vencer” ou “perder”. Mesmo quando um jogo desses não envolve competição direta (como um jogo de luta, ou de esportes), fala-se em “vencer” o jogo quando chega ao seu final — o momento em que o desfecho dele é revelado ao jogador. Inclusive, isso se aplica também em jogos digitais cooperativos!

Então, por que diabos não se fala em vitória no âmbito dos jogos narrativos?

Vamos explorar esta questão, a partir da raiz principal do conceito: cooperação.

Unidos, Venceremos…?

Primeiramente, vamos nos aprofundar no contexto de “cooperação”. Tomando a sua representação literal, temos a seguinte resposta:

Ato ou efeito de cooperar; 
Forma de ajudar as pessoas a atingir um objetivo; onde duas ou mais pessoas trabalham em função de um bem
”.

Em jogos analógicos, de modo bem semelhante aos jogos digitais, a cooperação se resume em unir forças para enfrentar um desafio em comum, ou alcançar um objetivo pré-estabelecido. Seja uma horda crescente de zumbis (Zombicide), uma epidemia brutal que se expande mundo afora (Pandemia) ou um inimigo temível a ser derrotado (a maioria dos jogos “Dungeon Crawl”, como Talisman ou Mice and Mystics), o jogo é desenvolvido para oferecer esse desafio a seus jogadores — para ser a oposição direta a eles, ou ao que eles desejam alcançar ingame.

Em essência, os jogos narrativos não fogem dessa premissa; em seus contextos e sistemas, eles oferecem desafios para seus jogadores, ao mesmo tempo que oferecem subsídios para construir objetivos (e, consequentemente, permitirem o avanço da história). O que muda é a forma como isso acontece — um diálogo entre os jogadores.

A partir de minhas vivências como Narrador, consegui observar e pontuar três possibilidades de vitória em jogos narrativos. Eu publiquei essa perspectiva já faz algum tempo, e você pode conferi-la neste post aqui, caro leitor. Eu recomendo a leitura dele antes de dar prosseguimento a esta análise — portanto, pode ler com calma que não tenho pressa…

“Mas Jairo, você não definiu nada de mais. Os seus ‘estilos’ de vitória não se diferem um do outro”, você provavelmente deve estar pensando.

Em parte, você está certo. Afinal, o conceito de vitória dentro de um jogo diz respeito à satisfação alcançada em superar o desafio. A diferença está, mesmo, no escopo dessa satisfação: do pessoal, ao coletivo (parcial, ou integralmente), nessa ordem.

Isso nos leva a um outro ponto, que penso ser correlato…

Experiência de Jogo

Impossível analisar um jogo sem pensar neste conceito: o que o jogo tem a oferecer a seus jogadores? Que tipo de sensação, e/ou comportamento ele promove com suas regras e contexto?

Uma vez que, repito, todo jogo entrega desafios aos seus jogadores, a condição de vitória pode ser prevista em um comportamento, previsto por seu autor — algo que possa ser recompensado à altura.

Assim, um jogo focado em customização e aprimoramento de Personagens pode recompensar a busca por recursos que facilitem este acesso (dinheiro e “pontos de experiência” por enfrentar aventuras perigosas, por exemplo). Um jogo cuja vitória é focada em Triunfo pessoal, no ponto.

Tá… mas o Quê Isso Muda no Jogo?

Saber qual é o tipo de vitória que um jogo oferece pode facilitar o contato com a experiência que o jogo de fato propõe. Como Narrador, alinhe a proposta do jogo com a pretensão de seus jogadores, e você provavelmente alcançará efetivamente a experiência.

Como autor, comece justamente por este ponto — antes mesmo de estabelecer um contexto, ou base de regras. Estabeleça o que os jogadores devem alcançar em seu jogo, ou o que deve ser superado, e trabalhe os detalhes a partir desta premissa. Tenho certeza que isso será um caminho mais fácil para elaborar o seu projeto.

Em suma, basta entender que jogos narrativos pode ser tão passível de vitória quanto qualquer outro jogo. A compreensão sobre eles irá mudar, com certeza.

Que Luna os ilumine, e até a próxima!

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