00 — Ponto Morto

“Assumam suas posições!”

Ao ouvir o sinal, a menina se ajeitava no assento, grande demais para alguém da sua idade. Tinha dificuldades para ajustar o cinto de segurança, pois dividia suas atenções entre o aparelho e a postura do motorista, bem ao seu lado.

-”Está difícil de se ajustar, minha filha?”

Com atenção ímpar, ele tira as mãos do volante para ajudá-la. Os pés permanecem firmes, como ela própria tinha percebido; segurando a embreagem para manter o motor ligado.

Depois de pronta, ela resolve abrir a janela. Um jato de ar quente toca-lhe o rosto, junto com a fumaça dos outros veículos. Alinhados, ela via criaturas de todo tipo: de triciclos a grandes camionetes, moldados em metal e ferrugem. Mais impressionante que suas formas, eram os rostos de quem as domava. Alguns retribuíam o olhar com bravatas e caretas, enquanto que outros (os mais perigosos, segundo sua intuição) a encaravam com olhos de gelo.

“Não olhe para eles, Bolt. Feche essa janela, e concentre-se na pista.”

Agarrando-se nas palavras de seu pai, fechou a janela bem a tempo de não sorver a fumaça crescente dos motores.

“Liguem seus motores!”

Foi nessa hora que os rugidos começaram, de todos os lados daquele deserto. Não havia mais sinal de silêncio a milhas dali, até que a disputa de fato começasse. Há três dias, Bolt não consegue dormir, graças à excitação que a corrida lhe proporcionava: desde que herdou do pai a paixão por veículos e motores, contava os dias para estar ali, testemunhando aquilo tudo.

A famosa, para não dizer lendária, Corrida — o evento mais perigoso e desejado pela humanidade.

Um evento seleto, e fatal, para a sociedade pós-mundo.

O trepidar do seu veículo — ou melhor, daquele que ajudou a montar com seu pai — aumentava a tensão. Seu corpo ficava enrijecido, da mesma forma que o motorista acirrava seus músculos para manter-se no controle. Bolt percebera também que ele olhava discretamente para os lados, sem tirar os olhos do velocímetro.

Estava preparado para largar, da mesma forma que fizera nos testes desta máquina.

“Partida!”

Com os reflexos quase imperceptíveis, ele moveu a alavanca de marchas, fazendo o carro rugir como uma fera indomável em seu arranque. A nuvem de poeira que surgiu na hora dificultou a visão dos outros corredores, mas o som de arranque deles estava próximo.

A corrida tinha finalmente começado.

Bolt ficava impressionada quando via seu pai dirigir. Não sabia dizer ao certo, mas algo na postura dele a fascinava naquele momento. Não sabia dizer, no alto dos seus onze anos, o que mais a encantava: seu olhar compenetrado na estrada, os músculos retraídos e reluzentes do suor, ou se a determinação inabalável que os trouxe até aquele momento.

Claro que o deslumbre não durou muito, quando o carro começou a trepidar. Olhou para o lado e se viu cara a cara com o motorista de uma picape que, com sangue nos olhos, começou a se lançar contra a garota. Do outro lado, um motoqueiro brandia um cano de ferro, coberto com arame farpado; estavam encurralados.

“Segure-se, minha filha!”

Com uma piscadela, o pai de Bolt mostrou como lidaria com a situação. Em uma fração de segundo, tirou o pé do acelerador para tocar o freio, ficando para trás bem no momento em que o piloto da picape tencionava outro encontrão.

A menina ficou impressionada com o resultado da colisão, pois o motoqueiro foi apenas o primeiro alvo. Outras seis máquinas foram derrubadas por aquele gigante desgovernado, abrindo caminho para ela e seu exímio motorista.

“Nós vamos conseguir, Bolt. Tenha certeza disso!”

As palavras dele remontavam as orações que sempre faziam, após um dia árduo de trabalho. Desde que se entende por gente, ela sabe que o desejo de seu pai é chegar até o final da corrida, e conquistar o direito de ser um cidadão da Cúpula. E, de convencida por suas palavras e atos, ela também passou a desejar isso.

Aos poucos, o carro deles se aproximava do pelotão de elite — os cinco carros que melhor largaram, e que mais se aproximavam do sonhado objetivo. A euforia de seu pai rompia a postura compenetrada de piloto, mostrando a ela que não estavam distantes daquele domo reluzente.

“Chegou a hora de agir, minha menina…”

Sinceramente, Bolt não queria que aquela hora chegasse.

Mas, pai… já estamos chegando. Não vamos precisar daquilo…

“Você sabe que precisaremos, sim. Ligue logo o gás!”

Sem questionar as palavras de seu mentor, Bolt enfiou as mãos abaixo do assento. Tateava com pressa, até encontrar a válvula de que tanto precisava.

“Vamos, agora!”

Girou a peça com toda a sua força, deixando-se levar pelo cheiro forte do gás — ao mesmo tempo que sentia o carro aumentar sua força. Como um míssil, ele estava disparando em direção aos adversários com velocidade incrível.

Engoliu em seco, pois lembrava-se muito bem dos testes anteriores com óxido nitroso, e todas as vezes que vi seu pai quase morrer. Sentia o aperto em seu peito crescer com a velocidade daquela máquina.

“IIIIIIIIIIIIRRÁAAAA!”

O grito de euforia de seu pai se perdeu com os estouros no motor. Nem teve tempo de ver onde estavam os outros pilotos, graças à cortina de poeira que os cercava. O medo da menina cresceu ao perceber que, junto ao seu pai, estava cavalgando uma tempestade de areia.

Mas, assim como acontece em toda tempestade, um rumo inesperado foi tomado por eles. Nem Bolt e tampouco seu pai perceberam o que realmente aconteceu; apenas as chamas se fizeram presentes, devorando a traseira do veículo com voracidade ímpar.

“Merda! Vamos, Bolt: me ajude!”

Enquanto seu pai lutava para manter o controle, coube à menina controlar aquele incêndio com um pedaço de lona seca e batida. Graças aos solavancos da estrada, ela mal conseguia se manter de pé para fazer o que devia ser feito.

“Essa não… segure-se, minh-”

Assim como nos testes, o óxido nitroso tornou o carro incontrolável, e a passagem por um aclive provocou o capotamento da criatura. Da pilha de sucata retorcida, apenas Bolt conseguiu sair; seu pai ficara preso nas ferragens e, desacordado como estava, não teria tempo de fugir antes que o fogo chegasse ao tanque de combustível.

Vem, pai. Segura minha mão… vou te tirar daí!

Oferecendo a mão esquerda para seu motorista, estava concentrada em salvá-lo da morte certa. Por isso, acabou percebendo a hora da explosão quando era tarde demais…

Jogada para trás pelo impacto, só percebeu o ferimento quando se levantou. Um dos estilhaços do carro arrancara parte do braço que ofereceu a seu pai, que agora estava entregue às chamas. Com a dor da perda, tanto de seu braço quanto de sua família, assistiu em choque a trajetória dos outros carros.

Um misto de ódio, e angústia, percorreu o seu corpo quando viu o reluzir da Cúpula no horizonte. Olhou para trás, onde há poucos minutos atrás desafiava o destino ao lado de seu pai. Mil perguntas passavam pela sua mente, e todas pareciam ter a mesma resposta…

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