A Competição Em Jogos Narrativos

Então… antes de mais nada, um aviso: este artigo é meio que uma continuação de meu artigo anterior, “É Possível Vencer Um RPG, Sim!” Então, para entender o que trago nestas linhas, recomendo a leitura desse artigo antes.

Seguindo com o propósito de desmistificar a visão tradicional (e, vamos combinar, batida) dos Jogos Narrativos, venho agora a vocês falar sobre algo pertinente a todo jogo:

A Competição. Aquela disputa dos jogadores por um objetivo comum, sabe…?

“Aah, mas os RPGs não tem nada disso, não”, você provavelmente vai me responder. “É um tipo de jogo cooperativo”…

E se eu te disser que nunca foi assim? Que, assim como qualquer outro jogo, os RPGs que você adora jogar no fim de semana são naturalmente competitivos?

Ainda não se convenceu, certo? Ótimo: então, vamos um pouco mais a fundo nesse assunto…

Em um Jogo Narrativo, a competição surge em níveis variados — Jogador Vs. Jogo, Personagem Vs. História e Jogadores Vs. Jogadores. Quero aqui me aprofundar em cada um desses níveis, dentro da experiência que possuo — de modo a instigar uma discussão mais produtiva, certo?

Matando Um Dragão Por Dia

No primeiro nível, a premissa mais clássica dos RPGs, os jogadores assumem o desafio de enfrentar os desafios propostos pelo jogo: masmorras, monstros, armadilhas, poderes além de sua compreensão…

Um bom exemplo disso é o método de recompensa, normalmente adotado em boa parte dos jogos ditos “tradicionais". Ao superar um desafio , você é premiado com algum benefício: pontos de experiência, um armamento e/ou proteção, dinheiro, um título de nobreza… algo que contribua no aprimoramento dos personagens.

Em suma, é basicamente o confronto dos aventureiros contra o que o jogo oferece, a partir da forma como ele próprio sugere. Este era o cerne do jogo, no momento de sua criação: percorrer templos sinistros, saquear seus tesouros e superar os Monstros em seu encalço.

Se a Vida Te Dá Limões…

No segundo nível de competição, a disputa não acontece com o jogo em si — pelo menos, não integralmente; trata-se de colocar o personagem frente a um dilema moral e/ou pessoal dentro da história.

Um bom exemplo deste nível de competição é Fiasco, onde cada personagem possui interesses e ambições bem pessoais e delimitados em jogo — e a busca individual pela satisfação deles é que move a história.

Embora este nível de competição seja mais visível em jogos de narrativa compartilhada (afinal, as decisões dos personagens se cruzam, e daí surgem os conflitos), também é possível atribui-lo em jogos com a figura do Mestre; afinal, cabe a ele despertar esses dramas e conflitos durante o jogo, colocando o poder decisório dos personagens em xeque.

“Ah, mas isso não é bem uma competição, já que o grupo pode agir coletivamente”, você comenta. Sim, isso pode ser verdade — ao mesmo tempo que uma ação coletiva possa acontecer somente por conveniência, e terminar quando se colocar na frente de um objetivo pessoal, por exemplo. É algo potencial de acontecer, se os jogadores assim desejarem.

Que o Duelo Comece!

No último nível de competição, o conflito já sai da história para fazer parte do jogo; a disputa vai ocorrer entre os jogadores, no offgame.

O jogo nacional Violentina é um bom exemplo deste tipo de disputa. O andamento do jogo consiste em administrar recursos narrativos (as cartas em sua mão, e os marcadores de Grana) até o turno final, em que todos fazem suas apostas revelando o valor total em pontos. Ao vencedor (aquele que possuir o maior total apresentado) é dado o direito de contar o final da história.

Esse tipo de competição é normalmente mediado pelo sistema de regras, de modo a oferecer um benefício e/ou privilégio perante os outros jogadores, e suas implicações afetam tambem o ingame. É o tipo de jogo que estimula uma cautela um pouco maior nos personagens, uma racionalidade um pouco diferente do que se prega em jogos narrativos — algo um pouco mais próximo de um Boardgame, para ser mais exato.

“Tá… e Qual é o Ponto Disso Tudo?”

Provavelmente, você deve estar se perguntando. No quê esse tipo de análise vai contribuir em um jogo narrativo?

Primeiramente, é preciso compreender que há competição em todo jogo narrativo, e que não há problema algum nisso; aliás, em minha humilde opinião, esses jogos podem ser melhor aproveitados nessa perspectiva.

E digo isso, a princípio, pela experiência que o jogo propõe. Se você perceber o que determinado jogo quer entregar aos seus jogadores, fica muito mais fácil entregar isso na perspectiva da competição.

O clássico Vampiro: a Máscara é um bom exemplo aqui: em seu cenário, diversos desafios são oferecidos para se explorar durante a narrativa: conflitos políticos, a guerra entre os Sectos, intrigas entre os clãs, o confronto com a Besta interior e a busca por ambições pessoais. Cada um destes corresponde a uma competição específica, com linhas de ação e consequências previsíveis — que podem ser bem exploradas pelo grupo.

Além disso, a própria história pode ser mais atrativa se partir de uma competição. Veja pelos filmes e livros que você gosta, caro leitor, quantas dessas obras foram em torno de um ou mais conflitos, e tente levar isso pra mesa de jogo. Rivalidades, divergências culturais, ideologias opostas… tudo isso é combustível para boas histórias, e colocar os personagens nessa divisão, optando pelo seu lado, pode tornar o jogo tão bom quanto a ficção que você aprecia.

Em muitos jogos narrativos, a definição de aspectos pessoais é priorizada, a partir de características puramente narrativas. Por exemplo, é possível definir rivalidades dentro do grupo, por qualquer razão — e isso pode servir de combustível para iniciar uma interessante disputa…

Para os autores de jogos independentes, definir um nível de competição para seu jogo pode ser algo crucial para constituir a sua experiência, e também as mecânicas que a complementariam. Assim, você não estará dando apenas possibilidades de objetivo, como também estará dando os meios de como buscar isso.

Apenas tenha em mente que toda boa disputa também rende uma boa história. ^^

Que Luna os ilumine, e até a próxima!

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