Psicomaquia

“Não pode se esconder de mim para sempre”.

As ruas escuras pareciam iguais, depois de tanto correr. Esbaforida, olhou para trás, torcendo para ter deixado aquilo longe.

Até ouvir o tilintar se aproximando…

“Você só está se cansando, e facilitando as coisas para mim”.

Foi quando viu: depois de tanto correr, encontrou uma maldita rua sem saída.

“Merda!”

Seus olhos transitavam entre os arredores daquele beco e as navalhas imundas que aquela coisa tinha nos dedos. Elas pareciam cravadas nas falanges, que as banhava com o fluxo constante do seu próprio sangue.

“Ah, pelo visto agora entendeu…”

A voz, agradável como lâminas acariciando um quadro negro, engrandecera-se pelo corredor — nada condizente com seu porte, parrudo e circular. A visão de seus dentes, pequenos e serrilhados, balbuciando em cada palavra a deixava com nojo.

“O… o que você quer, afinal?”

O sorriso da criatura dava fim a qualquer esperança.

“Você.”


Olhou no relógio. Quase dez horas da noite.

O horário condizia com os hábitos da mercearia. Seu dono já tinha começado a fechar as janelas, ao som da máquina registradora e seu trabalho em resgatar as vendas do dia.

Com um sorriso malicioso, ela caminha até a loja. As mãos nos bolsos de sua jaqueta davam-lhe um ar desinteressado, ao mesmo tempo que escondiam suas intenções.

Sem discrição alguma, encostou-se no balcão, chamando prontamente as atenções do proprietário.

“Boa noite, Jane. Quase perdeu a hora hoje, huh?”

Um enigma se formou em sua face: um sorriso incontido mesclava-se a um olhar choroso e resiliente. A confusão na jovem era bastante clara para quem a visse, naquele momento.

“Hey… aconteceu algo?”

Jane baixou a cabeça por um instante, chorando baixinho. Ficou assim por um minuto, até erguer novamente o rosto.

E, com ele, uma pistola escondida no bolso de seu casaco.


“Veja, minha criança, o que te ofereço.”

Já bem próximo de Jane, o monstruoso ser oferece uma de suas mãos. Nela, surge um pequeno novelo negro, pulsante como uma colônia de vermes.

A moça contém um grito de pavor, como se já reconhecesse aquele conteúdo. A criatura apenas sorri, com tal reação à vista.

“Esse é o núcleo de seus medos, não é mesmo? A reunião das coisas que você mais teme… não é mesmo, Jane?”

Ela sequer tem forças para responder. Não esperava ver tudo aquilo reunido, junto, lhe assombrando. A ansiedade vem em uma crise violenta, roubando-lhe o ar e anulando qualquer reação e/ou desejo de se libertar.

A criatura ri de novo, desta vez balançando a mão e provocando agitação naquele emaranhado.

Quero apenas lhe propôr um trato, bastante simples: una-se a mim, que te privarei de tudo isso. Você nunca mais terá medo, enquanto estiver comigo.”

Os olhos da moça se abriram com a perspectiva. Seria mesmo possível viver sem medo, após anos de vivência e trabalho terapêutico lhe dizendo o contrário?

A ideia era tentadora, mesmo com a forma decadente em que lhe foi oferecida. Temia ser um monstro para com as pessoas à sua volta, mesmo vivendo na companhia de pessoas horríveis neste mundo…

“A escolha é sua, Jane.”

Com a arma em punho, Jane via o senhor se dobrar perante sua vontade. Estava no chão, logo após deixar a gaveta com o dinheiro à sua disposição.

“Por favor… leve tudo que quiser. Só não me faça mal, pelo amor de Deus!”

Deus? Mesmo? A garota quase deixou a gargalhada escapar. Lembrava-se muito bem de como fora alguns anos atrás, quando era uma adolescente indo até a mercearia, e a “recepção" que teve do mesmo homem…

Lembrou-se de ter suplicado em nome do mesmo Deus, frente aos abusos que sofria naquele momento. Nada disso parecia capaz de anular o Diabo em seus atos, no entanto…

“Não faça isso, Jane! Você já me perdoou, e já paguei pelos meus atos. Por favor, não faça isso!”

É verdade. Acabou preso por outras denúncias do mesmo crime, enquanto acabei presa em meu silêncio, pelas grossas correntes do medo. Pediu perdão a ela, na frente de seus pais e dos vizinhos, como um meio de expiar sua culpa.

Enclausurada no silêncio, ela consentiu. Mas agora, ela estava livre. E podia fazer seu próprio julgamento.

“Eu nunca te perdoei, seu porco.”

BANG!


Pensava estar presa em um pesadelo, até se perceber com a pistola em punho, e ver o que tinha feito.

“Deus… o que foi que eu fiz…”

No fundo de sua mente, aquela mesma voz tentava lhe dar conforto.

“Você fez o que desejava fazer, por todos esses anos. Você aceitou minha ajuda, e te guiei até o fim de seus medos.”

De fato, Jane sentir-se mais leve naquele momento. Agarrou a empunhadura da arma com maior dedicação, como se encontrasse nela a força para continuar vivendo.

“Mas… e agora? Eles vão descobrir o que fiz, e me perseguirão…”

Em um ato reflexo, ela nem se percebeu engatilhando a pista novamente.

“Deixe que venham. Agora, você tem a mim para lhe proteger — muito mais do que seu Deus tem feito nestes anos…”

“Sim… ninguém mais me fará mal neste mundo. Serei forte, como você mesmo mostrou que posso ser!”

Repetiu o discurso para si mesma, enquanto despejava o conteúdo de diversos frascos de bebida pela mercearia, ateando fogo na mesma logo em seguida. De tão distraída em seu propósito de destruir, não notou a maliciosa gargalhada dele brotar no fundo de sua alma…

“Exatamente, criança. Derrame todo o sangue que puder, e traga-me a morte de muitos como tributo!”

*conto inspirado na mitologia de Lobisomem: o Apocalipse, componente do Mundo das Trevas, publicado pela editora White Wolf nos anos 90. Todos os direitos reservados.

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